terça-feira, 5 de dezembro de 2017

A RAZÃO E O SENTIMENTO



Foi agora publicado em tradução portuguesa, com o título A Estranha Ordem das Coisas - A vida, os sentimentos e as culturas humanas, o livro de António Damásio a editar em língua inglesa com a denominação The Strange Order of Things - Life, Feeling and the Making of Cultures.

O autor, famoso neurocientista português, dera já à estampa outras obras em que tem descrita a sua investigação relativamente à interacção entre a razão e a emoção nos comportamentos humanos. Assim, O Erro de Descartes: Emoção, Razão e Cérebro Humano (1995), O Sentimento de Si: o Corpo, a Emoção e a Neurobiologia da Consciência (2000), Ao Encontro de Espinosa: as Emoções Sociais e a Neurologia de Sentir (2003) e O Livro da Consciência: a Construção do Cérebro Consciente (2010), traduzidos em mais de trinta línguas.

O presente livro exige do leitor conhecimentos especiais de fisiologia e de neurologia para se compreender o pensamento do autor.  De organização aparentemente fácil, a maneira como Damásio recorre aos conceitos e às ideias sucessivamente expressas obriga a um exercício difícil de permanente recapitulação dos capítulos anteriores. Diria que não é acessível ao leitor comum, ainda que possuidor de razoável cultura geral. Carece de um leitor cientificamente bem informado quanto às matérias expostas.

O livro divide-se em três partes: I) A vida e a sua regulação (homeostasia); II) A montagem da mente cultural; III) A mente cultural em acção. Cada parte subdividida em vários capítulos. «O termo "homeostasia" foi cunhado pelo fisiólogo americano Walter Cannon, várias décadas depois de Claude Bernard. Cannon também se referia aos sistemas vivos, e, ao inventar o nome "homeostasia" para o processo, escolheu a raiz grega homeo- (semelhante) e não homo- (mesmo) porque estava a pensar em sistemas criados pela natureza, cujas variáveis exibem amiúde variações possíveis - hidratação, glucose no sangue, sódio no sangue, temperatura, etc.» (p. 78)

A parte III é talvez a mais interessante para um leigo na matéria. «Quanto à inteligência criadora, responsável pelas práticas e pelos artefactos das culturas, não pode funcionar sem afetos e sem consciência. Curiosamente, afetos e consciência são também as faculdades que se perderam de vista, escondidas pelas revoluções racionalista e cognitiva.» (p. 229)

«No final do século XIX, Charles Darwin, William James, Sigmund Freud e Émile Durkheim, entre outros, reconheceram o papel da biologia no estruturar dos acontecimentos culturais. Pela mesma altura, e chegando às primeiras décadas do novo século, vários teóricos (entre eles Herbert Spencer e Thomas Malthus) invocaram factos biológicos para defender a aplicação do pensamento darwiniano à sociedade. Esses esforços, geralmente conhecidos como "darwinismo social", resultaram em recomendações eugénicas na Europa e nos Estados Unidos. Mais tarde, durante o Terceiro Reich, os factos biológicos foram adulterados e aplicados às sociedades humanas com o objectivo de produzir uma transformação sociocultural radical. O resultado foi o extermínio horrendo e massivo de certos grupos humanos, justificado por antecedentes étnicos ou por identidade política ou comportamental. Embora injusta mas compreensivelmente, a biologia foi acusada desta perversão desumana. Foi preciso que passassem décadas para que a relação entre biologia e cultura se tornasse de novo um tema aceitável no mundo académico.» (pp 229-30)

«No seu começo a medicina não estava preparada para lidar com os traumas da alma humana. No entanto, podemos bem dizer que as crenças religiosas, os sistemas morais e a justiça, e a governação política visavam, em grande medida, esses mesmos traumas e tinham como objectivo a sua recuperação. Concebo o desenvolvimento das crenças religiosas como estreitamente relacionado com a mágoa provocada por toda a espécie de perdas pessoais, perdas que obrigavam os seres humanos ao confronto com a inevitabilidade da morte e com o sem-fim de maneiras em que ela pode surgir: acidentes, doenças, violência perpetrada por outros, catástrofes naturais, tudo menos a velhice, uma condição bem rara na Pré-História. Mas note-se que grande parte dos traumas da alma humana eram infligidos por acontecimentos públicos no espaço social. As  crenças religiosas constituíram respostas apropriadas a esses traumas em diversos aspetos.» (p 241)

«O desenvolvimento de códigos morais, de sistemas de justiça e de modos de governação política, começando com as disposições igualitárias das primeiras tribos humanas e prosseguindo com as complicadas fórmulas administrativas dos reinos da Idade do Bronze ou dos Impérios Romano ou Grego, como está estreitamente associado ao desenvolvimento de crenças religiosas ligadas aos sentimentos e, através dos sentimentos, à homeostasia. Os deuses, e, a seu tempo, um só Deus, são uma maneira de transcender os interesses erráticos dos seres humanos e de procurar uma autoridade desinteressada que possa ser imparcial, e em que se possa ter confiança e respeito. Note-se que ao longo das últimas duas décadas, a investigação dos fenómenos neurais e cognitivos relacionados com a moralidade e a religião entrou em contacto com os sentimentos e as emoções, tal como podemos ver nos trabalhos do nosso grupo de investigação e nos trabalhos de Jonathan Haidt, Joshua Greene e Lianne Young. Todas estas descobertas são particularmente bem analisadas por Mark Johnson e por Martha Nussbaum, segundo o ponto de vista da filosofia moral.» (p.243)

«Karl Marx terá supostamente descrito a religião como "o ópio das massas" (embora não tenha dito exatamente isso; o que disse foi que a religião era "o ópio do povo", com as "massas" a serem, provavelmente, uma correção pós-leninista). O que poderia ser mais inspirado na homeostasia do que a ideia de receber opiáceos para tratar a dor e o sofrimento humanos? Antes dessa famosa frase, Marx também escreveu que "A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, e a alma das condições que a não têm". Trata-se de uma interessante mistura de análise social e de poderosa intuição sobre a mente cultural. Combina a sua rejeição da religião com o reconhecimento pragmático de que a religião pode ser o refúgio de um mundo desumanizado e sem alma. Trata-se de uma expressão notável, sobretudo se tivermos em conta que Marx não fazia ideia de como o mundo se tornaria desumanizado e frio, sobretudo o mundo que ele próprio viria a inspirar. Notável também devido à ligação transparente entre estado de vida, sentimentos e respostas culturais. O facto de a história das religiões estar cheia de episódios em que as crenças religiosas levaram, e continuam a levar, ao sofrimento, à violência e às guerras, resultados que não são de todo humanamente desejáveis, não contradiz, de modo algum, o valor homeostático que tais crenças tiveram, e, claramente, ainda têm, para uma grande parte da Humanidade.» (pp 244-5)

«Dizer que os organismos vivos são algoritmos é, pelo menos, enganador, e em termos estritos é falso. Os algoritmos são fórmulas, receitas, enumerações de passos na construção de um resultado particular. Os organismos vivos, incluindo os organismos humanos, constroem-se segundo algoritmos e usam algoritmos para operar a sua maquinaria genética. No entanto, NÃO são eles próprios algoritmos. Os organismos vivos são consequências da interação de algoritmos e exibem propriedades que podem ou não ter sido especificadas pelos algoritmos que lhes orientaram a construção. O mais importante a reter é que os organismos vivo são conjuntos de tecidos, órgãos e sistemas em que cada célula componente é uma entidade viva, vulnerável, composta por proteínas, lípidos e açúcares. Não são linhas de código; são coisas palpáveis.» (p 275)

«A promoção da causa humana não põe qualquer problema para quem acredite que estamos a entrar numa fase "pós-humanista" da História, uma fase em que a maioria dos indivíduos humanos perdeu a sua utilidade para a sociedade. No quadro pintado por Yuval Harari, em que os seres humanos já não são precisos para travar guerras - a guerra cibernética substitui-los-á - e em que os seres humanos perderam os seus empregos graças à automatização, a maioria da Humanidade vai, pura e simplesmente, definhar e desaparecer. A História pertencerá aos que tiverem adquirido a imortalidade - ou, pelo menos, uma enorme longevidade -, e que assim receberão os lucros de uma tal situação. Emprego o termo "lucrar" e não "gozar", pois imagino que o estatuto dos seus sentimentos será ambíguo. O filósofo Nick Bostrom avança outra visão alternativa, em que robôs muito inteligentes e destrutivos dominarão o mundo e acabarão com a miséria humana do modo mais direto possível: acabando com a Humanidade. Seja como for, pressupõe-se que as vidas e as mentes futuras virão a depender, pelo menos em parte, de "algoritmos eletrónicos" que simulem artificialmente aquilo que os "algoritmos bioquímicos" agora fazem. Além disso, segundo a perspetiva de tais pensadores, a descoberta científica de que a vida humana é comparável na sua essência, à vida de todas as outras espécies enfraquece a tradicional plataforma do humanismo: a ideia de que os seres humanos são excecionais e distintos das outras espécies. É esta aparente contradição de Harari, e, se assim é, é uma conclusão seguramente errada. Os seres humanos partilham numerosos aspetos do processo de vida com toda as outras espécies, mas são realmente distintos numa série de características. O âmbito do sofrimento e das alegrias humanas é unicamente humano, mercê da ressonância dos sentimentos nas memórias do passado e nas memórias que os seres humanos construíram em relação ao futuro antecipado. Claro que é possível que Harari só nos queira aterrorizar com a sua fábula do Homo deus e espere que possamos resolver o problema antes que seja demasiado tarde. Nesse caso, concordamos, e eu espero, certamente, que assim seja.» (pp 280-1)

António Damásio preocupa-se ainda com a actual condição humana. E interroga-se como depois das destruições de duas guerras mundiais e com os progressos científicos e tecnológicos, os seres humanos continuam indiferentes aos dramas dos seus semelhantes que vivem na miséria. E escreve: «Embora a literacia científica e tecnica nunca tenha estado tão desenvolvida, o público dedica muito pouco tempo à leitura de romances e de poesia, que continuam a ser a forma mais garantida e recompensadora de penetrar na comédia e no drama da existência, e de ter oportunidade de refletir sobre aquilo que somos ou que podemos vir a ser. Ao que parece, não há tempo a perder com a questão pouco lucrativa de, pura e simplesmente, ser.» (p 290). Também o autor refere que nunca houve tanta informação disponível, ainda que cada vez menos imparcial, mas igualmente que o pú-blico não possui nem o tempo nem o método para converter as quantidades imensas de informação em conclusões razoáveis e de uso prático. E também que a disponibilidade quase instantânea da informação reduz o tempo necessário para a reflexão sobre a mesma. Fala da resistência à mudança, da aceleração do ritmo de vida, que contribui para o declínio da civilidade, e para a natureza viciante dos media electrónicos. Refere ainda as quebras de privacidade que acompanham o uso universal das redes sociais e de todos os tipos de vigilância, não só a necessária, por questões de segurança mas a que é praticada com toda a impunidade pelo sector privado. E alude ainda à possibilidade de conflitos catastróficos que envolvam armas nucleares e biológicas, aos riscos do terrorismo e da guerra cibernética e de infecções resistentes aos antibióticos. E a concluir: «Podemos culpar a modernidade, a globalização, a desigualdade da riqueza, o desemprego, a educação a menos, o entretenimento a mais, a diversidade, e a rapidez e ubiquidade radicalmente paralisantes das comunicações digitais, mas atribuir culpas não reduz os riscos, de imediato, nem resolve o problema das sociedades ingovernáveis, sejam quais foram as causas.» (p 296). António Damásio considera que esta visão desoladora pode ser atenuada pela perspectiva do famoso sociólogo Manuel Castells, que acredita que os media digitais abriram caminho para uma profunda remodelação dos sistenas governativos. Segundo este cientista, as democracias liberais estão a passar por uma crise de legitimidade, um problema que importa ser resolvido o mais rapidamente possível.

O autor refere-se ainda aos conflitos com origem no interior de cada indivíduo e alude a Freud, que entendia que a cultura nunca seria capaz de domar o nefasto desejo de morte que ele acreditava estar presente em cada um de nós. O pai da psicanálise começara a delinear os seus argumentos n'O Mal-Estar na Civilização, publicado em 1930. Damásio evoca também a tragédia grega, em que os problemas que atormentavam os homens não eram causados pelas suas decisões mas por forças exteriores, deificadas, incontroláveis e inevitáveis. Estudioso do teatro, avança até Shakespeare, que, já no século XVI, regressa a esse espírito trágico no tratamento das emoções maléficas (Macbeth, Otelo, Coriolano, Hamlet e Rei Lear), tragédias só ligeiramente resgatadas pelo cómico da personagem de John Falstaff, de Henrique IV e de As Alegres Comadres de Windsor.

E conclui, comentando que o título do livro nada tem a ver com a obra de Michel Foucault, Les Mots et les Choses, que na versão inglesa se intitula The Order of Things (A Ordem das Coisas).

Muito e muito mais haveria a dizer sobre A Estranha Ordem das Coisas, mas o leitor interessado nestes problemas encontrará na leitura do livro matéria bastante para satisfazer  sua curiosidade intelectual.


terça-feira, 28 de novembro de 2017

OS CRISTÃOS DO ORIENTE (III)




Continuando o post anterior:

Nos últimos tempos do Império Otomano, o regime suprimiu o estatuto de dhimmi, reservado aos  cristãos e judeus desde o início do Islão. Assim, os cristãos tornaram-se formalmente iguais aos muçulmanos, ainda que estes não o reconhecessem.

Nos anos 1840 a Bíblia foi traduzida em árabe pelos missionários ingleses instalados em Beirute. A partir de então, e devido ao impulso de Butros Al-Bustani e dos seus companheiros, foi empreendido um imenso trabalho lexicográfico destinado a adaptar a língua árabe ao mundo moderno. Com a edição de dicionários e gramáticas, a língua árabe deixou de ser apanágio dos sheikhs muçulmanos o que foi considerado intolerável pelos meios tradicionais. Nem as reformas de Mehemet Ali haviam provocado semelhante abalo.

Na década de 40 do século passado os cristãos criaram partidos transcomunitários ou pan-árabes (Partido Baath, Partido Nacional Sírio, etc.). Muitos cristãos aderiram ao Partido Comunista. Só o Líbano viu nascer partidos confinados à comunidade cristã, embora defendendo, segundo a sua própria visão, o interesse nacional.

A insegurança dos cristãos levou-os muitas vezes a apoiar regimes ditatoriais, o que criou atritos com os muçulmanos, que viram e vêem nesses regimes a influência do Ocidente.

O mosaico do Mashrek compreende numerosos grupos religiosos cristãos que pertencem a diferentes Igrejas independentes umas das outras. Cada um desse grupos possui um património diferente. Mas têm todas uma cidade em comum donde as Igrejas tiraram o nome: Antioquia  (Antakia), que ocupava o quarto lugar na Pentarquia, depois de Roma, Constantinopla e Alexandria e antes de Jerusalém. No seio da Igreja de Antioquia existem dois grandes patrimónios que se dividiram ao longo dos séculos: o património síriaco e o património bizantino (ou grego).

A Igreja de Antioquia distingue-se das outras Igrejas ortodoxas, porque estava presente no momento da expansão do islão. Foi o que deu origem ao nascimento de uma teologia ortodoxa de língua árabe.

As nações modernas apareceram com o desmoronamento do Império Otomano mas Antioquia continuou a ser a Igreja de toda a região e não seguiu a divisão das nações nascentes. Ao contrário, ultrapassou as fronteiras e as nações. A unidade fez-se então entre os cristãos que falavam a língua árabe. Os laços dos libaneses, dos sírios e dos iraquianos verificaram-se mais fortes do que as fronteiras políticas e administrativas.

* * * * *

Procedemos, neste post e no anterior, à recolha de alguns aspectos que nos pareceram mais interessantes nos artigos publicados no dossier da revista "Qantara" dedicado aos Cristãos do Oriente. Os textos dos artigos, devido às posições dos seus autores, nem sempre se nos afiguraram absolutamente isentos (e académicos), contendo mesmo imprecisões e inexactidões que procurámos corrigir e esclarecer na medida do possível. É pena que o dossier não tenha incluído um panorama geral de todos os Cristãos do Oriente, indicando os ramos, as obediências, as regiões, a sua formação e evolução até aos nossos dias. Bem como todos os actuais dignitários e suas dependências. Um trabalho que, certamente, exigiria uma informação e coordenação que não estaria nos propósitos da direcção da revista. Contudo, o que se escreveu é suficientemente importante para todos aqueles que julgam que no Oriente não existem cristãos.

domingo, 26 de novembro de 2017

OS CRISTÃOS DO ORIENTE (II)



Escrevi neste blogue, em 24 de Agosto de 2010, um post dedicado aos Cristãos do Oriente. Durante os passados sete anos, a situação destes não parou de degradar-se. Consagra agora a revista "Qantara", do Institut du Monde Arabe, um dossier sobre "L'avenir incertain des chrétiens arabes", a propósito da exposição promovida por aquele instituto, com o título "Chrétiens d'Orient - 2000 ans d'histoire", patente ao público de 26 de Setembro passado a 14 de Janeiro próximo. Regressemos, pois, ainda que rapidamente, ao tema.

Nos dias que correm, tornou-se normal muita gente espantar-se com o facto de existirem cristãos no mundo árabe. Apenas concebem que lá existam muçulmanos. Ora, antes da religião muçulmana surgir na Arábia (século VII DC) e se espalhar pelo Médio Oriente e o Norte de África, as populações eram cristãs ou, eventualmente, pagãs. Converteram-se depois ao islão, mas não totalmente. Minoritariamente, perduraram até hoje naquelas regiões muitos habitantes de confissão cristã, nomeadamente no Egipto, onde o seu número é estimado acima dos 10%. E também no Iraque, na Síria e no Líbano. Nos outros países árabes, a sua expressão é diminuta.

As Igrejas Cristãs do Oriente são provenientes de dois cismas. O primeiro deu origem ao nascimento, no século V, da Igreja dita Persa, ou Nestoriana, da Igreja Jacobita Ortodoxa da Síria e da Igreja Copta, todas em ruptura com a Igreja Bizantina. Estas Igrejas, devido à acção de missionários latinos, cindiram-se em duas nos séculos XVII e XVIII e originaram ramos católicos ligados a Roma mas preservando a liturgia própria. A Igreja Maronita, do Líbano e da Síria, saída dos primeiros cismas, está em comunhão com Roma desde o século XII.

Vejamos, em primeiro lugar, o Egipto.

A discriminação da minoria cristã vem desde a conquista muçulmana, com períodos mais brandos ou mais severos, mas importa-nos agora o nosso tempo. A exclusão dos cristãos das funções públicas começou nos anos setenta do século passado, com Anuar Al-Sadat, ainda que um copta, Butros Butros-Ghali (antes de ser secretário-geral da ONU), tivesse sido ministro do seu Governo, inclusive ministro interino dos Negócios Estrangeiros, quando o titular da pasta se recusou a acompanhar Sadat na polémica visita a Jerusalém.

Mas a retirada de estrangeiros começou com a nacionalização da Companhia do Canal de Suez por Gamal Abdel Nasser. Foram mais ou menos expulsos os judeus e também os italianos, gregos, libaneses, etc. que detinham grande parte da actividade económica e estavam especialmente concentrados em Alexandria. É a altura do começo de uma grande emigração, nomeadamente para a Austrália e os Estados Unidos. Nasser nacionalizou também os bens dos coptas que, verdade seja dita, tinham em suas mãos dois terços da economia do país.

Nasser não era marxista mas pretendia uma governção não alinhada com o Ocidente e o Bloco de Leste. E empenhava-se na justiça social. Sadat, que lhe sucedeu, era muito diferente de Nasser.e fizera parte da Irmandade Muçulmana. Assim, libertou os Irmãos presos no tempo de Nasser, que retomaram a sua influência,  e iniciou uma discriminação dos cristãos. Foi ele que colocou em residência fixa o Papa Copta Chenuda III.

O único momento de real união entre muçulmanos, cristãos e judeus foi em 1919, aquando da revolução contra a ocupação britânica. Realizaram-se manifestações à frente das quais figuravam estandartes com a cruz e o crescente. Os padres pregavam nas mesquitas e os sheikhs faziam alocuções nas igrejas.

Registe-se, por curiosidade, que a Lei da Nacionalidade Egípcia só foi promulgada em 1926.

Um dos grandes responsáveis da difusão de um islamismo mais radical ficou a dever-se, inadvertidamente, a Nasser, quando resolveu dotar a Universidade de Al-Azhar de cursos "profanos" com o intuito de promover um melhor conhecimento da língua árabe por parte dos estudantes e de "misturar" matérias religiosas e laicas. Até então a Universidade dispunha apenas de três faculdades: direito religioso, teologia e língua árabe, e o sheikh de Al-Azhar era nomeado pelo rei. Nasser promoveu a criação das faculades de farmácia, medicina, comércio, engenharia e agricultura.

A Universidade de Al-Azhar tem hoje três milhões de pessoas, das quais dois milhões de estudantes e dispõe de nove mil institutos. Ela constitui, pela doutrinação dos seus alunos, um dos grandes obstáculos à modernização do Egipto.

Os católicos do Egipto, hoje, são poucas dezenas de milhares (talvez 200.000), quando comparados com os mais de dez milhões de coptas. São na maioria católicos provenientes das antigas províncias do Império Otomano, quase todos maronitas, caldeus, sírios-católicos, melkitas (gregos católicos) e arménios-católicos.

No começo do século XIX, Muhammad Ali (Mehemet Ali), que governou o Egipto em nome do sultão durante 44 anos, procurou uma modernização do país, tentando prendê-lo à Europa, especialmante à França.

Uma segunda tentativa de modernização ocorreu com Jamal Al-Din Al-Afghani e Muhammad Abduh (franco-maçon e que foi Grande Mufti do Egipto), na segunda metade do século XIX. O seu pensamento preconizava um entendimento das três religiões do Livro.

A Nahda (Renascimento), no fim do século XIX, princípios do século XX, especialmente promovida pelos sírio-libaneses constituiu uma terceira tentativa de reforma. O Egipto desenvolveu a imprensa, a literatura, o teatro, as belas-artes, mas a cultura foi travada pela islamização progressiva do país. Um dos grandes obstáculos ao diálogo inter-religioso tem sido a atitude preconizada pela Universidade de Al-Azhar, e a posição do seu Imam Sheikh Ahmed Muhammad Al-Tayeb. O actual presidente da República, Abdel Fattah Al-Sisi tem-se esforçado por estabelecer pontes de entendimento, até porque, por óbvias razões, recebeu um especial apoio dos cristãos à sua tomada do poder.

Curiosamente, a Turquia conhece agora uma regressão semelhante com Recep Tayyip Erdoğan, que vem destruindo sistematicamente a modernização imposta (muitas vezes à força, reconheça-se) por Mustafa Kemal Atatürk.


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Continuaremos a discorrer sobre este número da revista "Qantara" num próximo post.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

PIERINO DA VINCI




São raros os livros dedicados a Pierino da Vinci, um artista relativamente pouco conhecido, que nasceu em Vinci, cerca de 1530 e morreu em Pisa, apenas com 23 anos, em 1554.

Sobrinho do grande Leonardo da Vinci, o pai colocou-o junto de Baccio Bandinelli, apenas com doze anos, como aliás era hábito na altura, para aprender a arte do desenho. Mais tarde, tornou-se discípulo de Niccolò Tribolo e chegou a trabalhar com Miguel Ângelo.

Tendo nascido doze anos depois da morte do tio, não lhe foi alheia a inspiração familiar e iniciou muito cedo uma carreira, que prometia ser brilhante não tivesse ele morrido tão jovem, vítima de malária.



Típico jovem do Renascimento, de compleição franzina mas muito belo, diz-se que foi uma das grandes paixões do célebre Bronzino, cerca de 30 anos mais velho. Mas as relações com consideráveis diferenças de idade eram quase uma norma na época.

Fontana di Ercole

O seu primeiro trabalho foram os putti que decoram a famosa Fontana di Ercole, na Villa di Castello, em Florença, um monumento da autoria de Tribolo.

Deus fluvial

Não sendo vasta a sua obra, é notável o seu Deus Fluvial, que se encontra no Museu do Louvre, em Paris, ou o grupo Sansone e il Filisteo, que figura no Palazzo Vecchio, em Florença, ou ainda Pan e Olimpo ou La morte del conte Ugolino, ambos também em Florença, no Museu Nacional do Bargello.

Sansone e il Filisteo

A informação que possuímos a seu respeito, e de muitos dos seus contemporâneos, deve-se à obra de um artista do tempo, Giorgio Vasari (1511-1574), autor de Le Vite de' più eccelenti pittori, scultori e architettori, todavia pouco rigorosa, já que mistura factos reais com outros fruto da sua imaginação ou ainda dando crédito a lendas da época.

Pan e Olimpo

Uma das obras mais recentes e concisas sobre este precoce sobrinho do grande mestre, e donde extraímos as imagens, é Pierino da Vinci - Profilo interpretativo, de Mino Rosi, publicada em 2000. Existe um outro livro, Pierino da Vinci (Beiträge zur Kunstgeschichte des Mittelalters und der Renaissance), de Britta Kusch-Arnhold, que foi publicado em 2008, mas que não conhecemos.
 
La morte del conte Ugolino

terça-feira, 7 de novembro de 2017

NO CENTENÁRIO DA REVOLUÇÃO SOVIÉTICA




Passa hoje o centésimo aniversário da Revolução Comunista na Rússia, a chamada Revolução de Outubro, por ter ocorrido a 25 de Outubro de 1917, segundo o Calendário Juliano, correspondente a 7 de Novembro no mundo ocidental. Foi a primeira revolução comunista, inspirada nas teorias de Karl Marx, as quais rapidamente viria a abandonar parcialmente. A Revolução de Fevereiro levara à abdicação de Nicolau II e Kerensky ao poder, sem todavia alterar drasticamente a situação no país. Protagonizado por Lenin, com a colaboração de Trotsky, que viria a ser afastado e depois assassinado, o movimento dos Sovietes implicaria mudanças históricas e assustaria terrivelmente os países capitalistas. Era a primeira experiência do socialismo real que, com mão de ferro, Stalin impôs à Rússia, aos Estados que viriam a integrar a União Soviética, e aos países satélites que ficaram na órbita comunista depois da Segunda Guerra Mundial. Pode afirmar-se que foi o maior acontecimento político-social do século passado.

A guerra que se travou entre bolcheviques e "russos brancos", as deportações estalinistas, as purgas do regime, originaram milhões de mortos e deslocados, um preço demasiado elevado para os resultados obtidos. É certo que foram abolidos inexplicáveis privilégios de uma casta dirigente e que foi estabelecida uma maior justiça social, mas a União Soviética funcionou como um Estado policial, mesmo depois da morte de Stalin. A corrida aos armamentos face ao desafio ocidental estiolou a sua economia, a que fora retirada margem para qualquer iniciativa privada. O último chefe de Estado e secretário-geral do Partido, Mikhail Gorbatchov, não pôde, não soube ou não quis travar o desmoronamento da União Soviética. A Comunidade de Estados Independentes teve uma duração efémera e surgiu então à frente da Federação Russa um homem desprovido de quaisquer qualidades, Boris Yeltsin, que se transformou num vassalo dos interesses ocidentais, provocando profunda humilhação no povo russo.

Há milhares de livros sobre a Revolução Russa, sobre a União Soviética, e sobre a sua implosão. Estas linhas mais não se destinam do que a assinalar um acontecimento capital na História do século XX.

Vladimir Putin, desde 2000 à frente da Federação, tem procurado restaurar, não o regime comunista em que foi criado, mas o orgulho ferido da população russa, enfrentando, quando necessário, o Mundo Ocidental. Mas a queda do comunismo nos países soviéticos e satélites e a rápida instauração de um capitalismo selvagem em troca de algumas liberdades formais, não evitou uma profunda pauperização das populações, que a oligarquia vigente naturalmente não atenuou. A maioria daqueles que viveram ainda uma parte da sua vida sob o regime comunista, tantos imigrados em Portugal, não hesitam em dizer que se vivia melhor na vigência daquele regime.

Ainda não passou o tempo suficiente para se fazer um juízo definitivo do bem e do mal do regime comunista, que chegou a contar com a simpatia e apreço de uma larga parte da intelectualidade europeia e mundial, pelo menos até às intervenções na Hungria e na Checoslováquia, e de largas faixas das populações, e se projectou e radicou em países tão vastos como a China. Como tudo na vida, há quem exalte apenas os aspectos positivos, outros tão só os negativos. A proximidade dos acontecimentos impede o tal juízo sereno quanto ao balanço final. Se é que existem juízos definitivos na História!

Curiosamente, ou talvez não, não se verificarão comemorações, nem em são Petersburgo, nem em Moscovo.


domingo, 5 de novembro de 2017

A BÍBLIA ORTODOXA




A publicação de mais um volume da Bíblia (Antigo Testamento - Os Livros Proféticos) na tradução de Frederico Lourenço, efectuada directamente da versão grega conhecida como Septuaginta, é um trabalho do maior interesse para o conhecimento dos mais antigos textos hebraicos sem a intermediação da Vulgata, e a cujo tradutor devemos esse inestimável serviço. Suscita-se, todavia, a questão de saber quais os livros incluídos na Bíblia utilizada pelos cristãos ortodoxos.

Tem sido preocupação de Frederico Lourenço referir os livros constantes da Septuaginta, bem como os incluídos nas Bíblias utilizadas por católicos e protestantes. Mas até hoje os ortodoxos, um dos três grandes ramos da Cristandade, ficaram de fora.

Assim, e não dispondo de elementos que me permitam tecer comentários relativos aos paralelismos das Bíblias dos três "Cristianismos", enuncio, a partir das fontes de que disponho, os livros que integram a Bíblia Ortodoxa.

O Novo Testamento é idêntico ao católico e ao protestante: Evangelhos, Actos dos Apóstolos, Epístolas e Apocalipse.

O Antigo Testamento regista algumas diferenças, contando os seguintes livros:

Livros da Lei: Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio

Livros Históricos: Josué, Juízes, Rute, Reinos (4 livros), Paralelipómenos (2 livros), Esdras (2 livros), Tobite, Judite, Ester e Macabeus (3 livros)

Livros Sapienciais: Salmos, Salmo 151, Odes, Oração de Manassés (que é incluída nas Odes), Job, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria, Sabedoria de Jesus (Eclesiástico) e Salmos de Salomão

Livros Proféticos: os Doze (Oseias, Amós, Miqueias, Joel, Abdias, Jonas, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias), Isaías, Jeremias, Baruc, Lamentações, Epístola de Jeremias, Ezequiel e Daniel (completo)

Apêndice: IV Livro dos Macabeus


Por aqui se constata que a Bíblia Ortodoxa é praticamente idêntica à versão da Septuaginta. Aliás, seria estranho que tal não fosse, já que a religião ortodoxa é basicamente grega, donde se espalhou para as regiões vizinhas: Rússia, Bulgária, Roménia, Sérvia, etc.

Relativamente aos textos dos livros, que não conheço, poderá Frederico Lourenço, que está agora a traduzir a Septuaginta, esclarecer se os textos dos livros desta são ou não idênticos aos dos livros que integram a Bíblia Ortodoxa.


sexta-feira, 3 de novembro de 2017

AINDA AS IGREJAS DE BUDAPESTE



Igreja Calvinista

Concluo hoje o périplo por mais algumas igrejas de Budapeste, que se me depararam ocasionalmente no caminho, ainda que nem todas tenham sido ocasionais, caso das que referi em posts anteriores.

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Não pude visitar o Templo Reformista, na Kálvin tér, logo a seguir ao Museu Nacional, pois encontrava-se encerrado. Construído entre 1816 e 1830, a torre foi erguida em 1859, e tem sofrido algumas remodelações com o correr dos anos.

Estátua de Calvino

No largo fronteiro encontra-se uma estátua de Calvino.


Capela Ják

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No Parque Városliget, por trás da Praça dos Heróis, imediatamente antes do Castelo Vajdahunyad (de que faz parte), e onde está instalado o Museu da Agricultura, fica a Capela Ják, edifício que reproduz uma capela beneditina datando de 1214, que se encontra na região de Ják, perto da fronteira com a Áustria.
Não se reproduzem fotos do interior, porque um guarda exigiu o pagamento de bilhete de ingresso, o que normalmente recuso num templo religioso, ainda que este verdadeiramente o não seja.

Castelo Vajdahunyad
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Idem

O Castelo Vajdahunyad é constituído por um conjunto de construções de vários estilos arquitectónicos. Foi desenhado por Ignác Alpár para as Comemorações do Millennium da Hungria em 1896, reproduzindo detalhes de mais de 20 edifícios famosos na história do país. Por exemplo Vajdahunyad alude ao castelo de Hunyad, localidade da Transilvânia, hoje em território romeno.

Idem

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O Castelo situa-se numa ilha do grande lago do Parque Városliget. Inicialmente edificado em cartão e madeira, para constituir uma atracção, tornou-se tão popular que foi reconstruído em tijolo e pedra entre 1904-6. Os pavilhões estão agrupados por ordem cronológica de estilos: românico, gótico, renascentista, barroco, etc. Por falta de tempo (e também de verdadeiro interesse por este kitsch), não visitei.


Igreja Sérvia

Também não visitei o interior da Igreja Ortodoxa Sérvia de São Jorge por se encontrar encerrada quando lá passei. Edificada no meio de um jardim, foi o centro religioso de uma vasta comunidade sérvia que se instalou nesta zona, especialmente a partir de finais do século XVII.


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Idem


A actual igreja foi construída em 1698, em estilo barroco, para substituir a anteriormente existente, tendo desde então sido objecto de várias modificações. Situada na Szerb utca, 2 a 4, está interiormente organizada como todos os templos ortodoxos. A iconóstase data de 1850 e é da autoria do escultor sérvio Miahai Janich e as pinturas, de influência renascentista italiana, são obra do grego Károly Sterio.


Igreja de Santa Ana

A Igreja de Santa Ana fica situada na Batthyány tér 7, do lado de Buda, no sopé do monte, já sobre o Danúbio, no distrito de Víziváros (Cidade da Água). Começou a ser construída em estilo barroco pelos jesuítas em 1740, mas um terramoto, em 1763, danificou bastante o edifício. A dissolução da Companhia de Jesus atrasou a conclusão do templo, que só foi consagrado em 1805.

Idem

No centro do tímpano encontra-se o brasão de Buda, encimado pelo símbolo da Santíssima Trindade. O portal está decorado com figuras alegóricas da Fé, Esperança e Caridade.


Idem

No altar-mor, as esculturas representam a Virgem Maria a ser trazida por sua mãe, Santa Ana, para o Templo de Jerusalém, obra terminada em 1773 por Karóly Bebó.

Igreja Paroquial de Santa Ana (Servita)

Há uma outra Igreja de Santa Ana em Budapeste (esta do lado de Peste, no distrito de Belváros, próximo da Vaci utca), pertencente à Ordem dos Servitas e localizada na Déak Ferenc tér.

Idem

Construída em 1725-32, segundo desenho de János Hölbling e Gyórgy Pauer, teve a fachada reconstruída em 1871, e a torre foi coberta com um novo telhado desenhado por József Diescher. É considerada um dos mais belos edifícios barrocos da Hungria. 

Idem

Sobre as portas de entrada encontram-se imagens de São Peregrino e Santa Ana, e junto à torre estão, de cada lado, São Filipe e Santo Agostinho. À direita da entrada há um baixo relevo de János Istók, de 1930, dedicado aos heróis do VII Regimento Wilhelm Hussar, que morreram na primeira Guerra Mundial.

Idem

No templo realizam-se regularmente concertos.


E com estas imagens dou por terminado o meu périplo pelas igrejas de Budapeste, realizado este ano.


quarta-feira, 1 de novembro de 2017

OS URINÓIS PÚBLICOS



Pelo seu interesse e originalidade, transcrevemos o artigo hoje publicado no jornal "Libération":


Les pissotières : paradis perdu ?

(mise à jour :


 
 
 
Ecrire un livre nostalgique sur les pissotières ? Marc Martin l’a fait. Dans un ouvrage illustré à la fois de photos érotiques et de documents rares –“Toilettes publiques, histoires privées”–, il dresse l’histoire d’un lieu qui inspira les plus grands écrivains.


Attiré par les fantômes et les fantasmes urbains, le photographe Marc Martin consacre aux pissotières un ouvrage inédit et chargé de mélancolie –Toilettes publiques, histoires privées–, qui ressuscite le souvenir de tout un pan d’histoire. Qui se souvient encore des petits édicules, qui parsemaient le vieux Paris ? «Ces phares urbains, insolites, abritaient discrètement, sans stigmates, tous les désirs du monde.» En préface de l’ouvrage, Joël Hladynink (dirigeant du groupe Gai-pied), rappelle avec lyrisme l’importance qu’ont pu avoir, pour toute une communauté, ces lieux d’aisance aux relents d’ammoniaque. «Les pissotières... Sales ? Infamantes ? Dégradantes ?». Oui et non. C’étaient des «lieux de passage» c’est-à-dire, par essence, des lieux d’initiation et de mystères. On y allait pour «l’attraction du danger», braver les interdits, affronter sa part d’ombre au hasard d’une rencontre. Dès 1913, l’écrivain Paul Lintier (qui va mourir peu après d’un éclat d’obus), écrit dans Les Pissotières magiques ou le rituel de la pluie «que la magie recule presque partout devant les progrès de la technique», mais que les pissotières résistent, même quand on les construit sous la terre, comme des lieux de dévotion où s’accomplissent d’occultes cérémonies.

«Oui, c’était bandant de se mater dans les chiottes»

Pour Marc Martin, c’est là qu’il fait ses classes. «Les pissotières étaient en voie d’extinction quand j’ai commencé à les fréquenter». Il affirme y avoir «découvert beaucoup d’humanité ; beaucoup plus que dans certains lieux actuels dits de rencontre et de convivialité.» Les «imaginaires en marge», les «interstices» l’ont toujours attirés. Mais surtout l’image de lieux voués à l’abandon qui portent en eux la mémoire collective des hommes. De fait, le premier chapitre s’intitule Le Cimetière des pissotières. Il est illustré par les photos noir et blanc de vespasiennes art nouveau mises en pièce, qui gisent dans un terrain vague. Triste vision de fin du monde. Ces vespasiennes aux formes végétales faisaient de Paris la ville la plus folle du début du XXe siècle. Elles avaient été dessinées par l’architecte Gabriel Davioud, en charge de tout le mobilier urbain parisien : colonnes Morris, fontaines, bancs, lampadaires, grilles d’arbre… Leurs formes végétales couleur vert bouteille introduisaient la nature sur les trottoirs. «Fleurissent à Paris ces fameux kiosques-urinoirs de 3 à 16 places selon leurs configurations. On n’en croise pas moins de 4000 sur le pavé au début du siècle dernier!, s’émerveille Marc Martin. Fallait-il s’appeler Freud pour se douter que dans de tels espaces […] les hommes entre eux, côte à côte avec leur sexe à la main, ne se contenteraient pas d’uriner ?»

Chapelle, Tasse, Pagode, Ginette, Pistière…

La ville lumière s’enorgueillit de ses édicules : elles sont appelées Vespasiennes par allusion à l’Empereur Vespasien qui jadis mit en place un système de latrines publiques, par mesure d’hygiène. Dans l’argot populaire on les renomme Tasse, Théière ou Parloir par allusion ironique aux salons de thé : des lieux où l’on cause. On les appelle aussi Ginette, Baie, Gogue ou Pagode. Celles à trois places sont des Chapelles. Celles à deux places des Causeuses. Dans la Recherche, Marcel Proust les nomme Pistière. En 1910, au cours d’un long séjour à Paris, Eugène Wilhelm (1856-1951), qui recopie les graffitis homosexuels dans les pissotières, s’étonne de leur abondance : «Je ne connais aucune ville dans laquelle il y ait autant de pissotières que Paris. Sur les boulevards et les rue principales se dresse un pissoir à 3 stalles toutes les dizaines de mètres. On en compte plusieurs milliers à Paris tandis qu’à Berlin on peut marcher plusieurs kilomètres, notamment dans la Friedrichstraße, sans croiser un seul pissoir.» En effet, Berlin, à ce moment-là, compte à peine 139 édicules pour répondre aux besoins pressants de la population masculine. Hélas… Dans l’après-guerre, la tendance va s’inverser.

Faire la chasse aux pissotières

Alors que Paris «déclare le combat à ses urinoirs», notamment dans les quartiers chics, Berlin, «dans son plan de reconstruction va inonder la ville de nouveaux pissoirs de toutes sortes.» En Allemagne les quelques “Cafés Achteck” ayant résisté aux bombardements, sont désormais classés monuments historiques. En France, et malgré l’hommage appuyé d’Henry Miller (en 1946, dans un texte intitulé Printemps Noir) à ces lieux qui permettent de «pisser librement», les autorités s’émeuvent de ce que ces lieux blessent la morale et la décence publique. Après plus d’un siècle d’exploitation, leur suppression est votée au conseil municipal de Paris, en 1961. En cause : non pas l’odeur, mais les mauvaises fréquentations de l’endroit. Progressivement, les édicules sont détruits. Puis remplacées par des cubes «couleur du temps : gris», ainsi que le souligne si justement Marc Martin, prévues pour un usage strictement individuel, à entretien automatique. On les appelle des sanisettes, un nom aussi laid que leur apparence. Elles sont installées pour la première fois à Paris en novembre 1981 par la société J.C. Decaux. «Persécutées puis assassinées par Decaux et ses sanisettes, les pissotières de la capitale débarrassent définitivement le plancher au milieu des années 80 et s’en vont toutes mourir, à l’abri des regards, en banlieue parisienne.»

Avec les urinoirs, c’est un siècle d’histoire qu’on assassine

Même Edgar Morin s’en émeut. A 92 ans, dans un entretien pour Rue 89, en 2013, le philosophe déplore la perte de convivialité d’une capitale déshumanisée, évoquant l’importance des vespasiennes pour la communauté homosexuelle. En introduction de son livre, Marc Martin répète : «Les lieux sont la mémoire, et bien plus, les lieux survivent à la mémoire.» Mais que se passe-t-il quand on les détruit ? On perd plus qu’un patrimoine. On perd une forme de sociabilité. Marc Martin note avec acuité qu’on trouve régulièrement, «des gerbes de fleur à la Genet au pied des “monuments” arrachés». Tout au long des années 1970-80 qui voient disparaître les édicules, des hommes ressentent comme un vide la perte de ces urinoirs collectifs, remplacés par des toilettes individuelles, insipides et aseptisées qui s’ouvrent automatiquement au bout de 10 minutes afin qu’aucun couple ne puisse s’y désirer. Ginette, reviens ! Avec cette conscience aiguë de la mort qui frappe les humains à travers leurs lieux de rencontre, Marc Martin en appelle à la résurrection des Gogues. Il n’y en a plus qu’une seule à Paris mais, dit-il, l’ultime «survivante, boulevard Arago dans le 14 arrondissement, vespasienne à deux places disjointes […] ne me parle pas. Elle semble perdue ; comme posée là dans un autre temps, au milieu de nulle part, sur un trottoir où personne ne passe […] Elle sonne faux.»

Le dernier des WC d’antan

Cette pauvre vespasienne, située sous les miradors de la prison de la Santé, «condamnée à n’être plus que le souvenir d’un temps qui n’est plus» est parfaitement représentative du sort que Paris réserve aux pissotières. Il est d’ailleurs significatif que Marc Martin n’ait pas pu –malgré plusieurs années de travail acharné– monter aucune exposition sur ce thème à Paris : aucun Musée n’a accepté, même ceux dont les Directeurs se montraient très favorables. C’est donc à Berlin, au Schwules Museum (Musée de l’homosexualité), que l’on pourra bientôt voir une grande rétrospective sur l’histoire des urinoirs, l’occasion de vérifier sur le vif cette vérité : dans une ville qui a gardé ses pissoirs, il y a plus de désirs et d’imaginaire que dans une ville qui sent le chlore. Et si vous ne pouvez pas vous rendre en Allemagne, reste le livre-catalogue pour mesurer l’ampleur de ce qui s’est perdu.



A LIRE : Fenster zum Klo, Toilettes publiques, histoires privées (ouvrage bilingue allemand-français), catalogue d’exposition de 300 pages, couleur, éditions Agua, sortie le 10 novembre 2017. En pré-vente aux Mots à la bouche.

A VOIR : Exposition Fenster zum Klo, Toilettes publiques, histoires privées, au Schwules Museum (Lützowstraße 73, 10785 Berlin), du 17 novembre 2017 au 5 février 2018.

RV le 15 novembre pour la suite de cet article. (Vous voulez du soupeur ?). 


domingo, 29 de outubro de 2017

A CATALUNHA, A EUROPA E O MUNDO





A recém-proclamada independência da Catalunha suscita-me umas breves reflexões. Breves, porque sendo o assunto de evidente complexidade, não me atrevo a nele mergulhar com a profundidade que o tema porventura exigiria.

Ninguém desconhece que desde há muito tempo os catalães aspiram à independência. Por razões de ordem histórica, de ordem cultural, quiçá sentimentais, que hoje se procuram desvalorizar, atribuindo tal sentimento à educação proporcionada pela Generalitat às gerações mais novas ou a uma espécie de lavagem do cérebro nas escolas, nos jornais, nas televisões, et al. Esta pós-verdade, largamente difundida pelo centralismo madrileno, não tem colhido os seus frutos, como se comprova pelas manifestações maciças de cidadãos clamando pela independência.

É um facto que a Catalunha é (ou era) uma região autónoma de Espanha, e que constitucionalmente a separação teria de obedecer a um sem número de quesitos que na prática inviabilizariam a sua concretização. Seriam precisas várias eleições nacionais, a votação de todas as regiões autónomas, etc., etc. Assim sendo, entendeu o governo regional catalão organizar um referendo para auscultar a vontade da população, e avaliar se a maioria dos eleitores seria favorável à proclamação da independência.

Todos sabemos o que aconteceu. O governo de Madrid enviou a Guardia Civil para impedir o acesso às urnas e os cidadãos que dispunham do seu boletim de voto como única arma foram largamente espancados e impedidos de pacificamente expressar a sua vontade soberana.

Perante este erro monumental do governo de Mariano Rajoy, um primeiro-ministro sem a mínima dimensão de estadista, o parlamento catalão entendeu por maioria proclamar a independência, estimando que a votação do dia 1 de Outubro legitimara essa decisão. Como o escrutínio decorreu numa tumultuosa jornada de intervenções policiais, não sabemos se esse resultado exprime de facto a vontade da maioria dos cidadãos ou não. Muitos terão certamente ficado em caso com receio da repressão policial, o escrutínio dos boletins de voto poderá também não ter sido exemplar. Mas só deverão imputar-se responsabilidades a quem tentou por todos os meios evitar a consulta popular.

Surge agora o governo de Madrid a retirar à Catalunha o seu estatuto autonómico. Eu diria, como se canta em muitas óperas italianas: «È TARDI!".

Ignoro, neste momento, qual será o evoluir da situação no futuro próximo, se os novos governantes nomeados agora por Madrid, conseguirão exercer realmente os seus cargos e se os governantes em exercício de funções o permitirão, a menos que sejam todos detidos manu militari.

Mas o objectivo deste texto transcende a Questão Catalã, ainda que esteja convencido que mais tarde ou mais cedo a Catalunha se tornará um estado independente.

No rescaldo da Segunda Guerra Mundial, ainda não saradas as feridas do conflito e recordando-se o ancestral conflito entre a Alemanha e a França, com um Reino Unido que perdera o seu império e perante o que se considerou ser a ameaça do comunismo soviético, entendeu a Europa Ocidental, com o largo patrocínio dos Estados Unidos, para quem a simples palavra "socialismo" provoca temores e tremores, criar o embrião de um conúbio, as comunidades europeias, que viriam mais tarde a constituir a União Europeia. Deve dizer-se aqui que os sucessivos tratados que transformaram acordos meramente económicos no monstro burocrático que está hoje sediado em Bruxelas, foram negociados directamente por políticos e raramente os povos foram convidados a pronunciar-se. E quando o foram e o resultado não convinha aos poderes constituídos, repetiram-se as votações até se alcançar o resultado almejado. Chamam eles a isto "democracia".

Um dos aspectos mais salientes do pós-1945 foi o estabelecimento de fronteiras um pouco à vontade dos vencedores (Vae victis) e proclamada a sua inalterabilidade ad aeternum. E durante umas décadas as coisas ficaram assim. Mas não para sempre. Na sequência da Queda do Muro de Berlim e da desintegração da União Soviética, logo a União se apressou a integrar os países que se encontravam para lá da Cortina de Ferro, iniciando-os nas delícias do capitalismo, que ainda era praticado com alguma moderação. E surgiu o primeiro desmembramento. A Checoslováquia partiu-se ao meio. De um lado a Boémia e a Morávia integraram a República Checa, ou Chéquia, do outro lado ficou a Eslováquia. Para bem de todos, foi uma separação mais ou menos indolor. Outro tanto não sucedeu na Jugoslávia, onde uma guerra sangrenta, sob o pretexto de terríveis genocídios, provocou milhões de mortos e feridos. As regiões da Jugoslávia foram-se cindindo progressivamente, num processo delirante, largamente apadrinhado pelos Estados Unidos, pela Alemanha e até, pasme-se, pelo Vaticano. Ninguém se preocupou então com a Constituição da Jugoslávia, e assim ficámos com a Sérvia, a Croácia, a Eslovénia, a Bósnia-Herzegovina (esta ainda interiormente tripartida), a Macedónia e o Montenegro. Mas havia ainda um minúsculo território de estimação, parte antiga da Sérvia e que era necessário extirpar, o Kosovo. E, com a participação das máfias albanesas, satisfazendo-se os interesses comerciais e militares dos Estados Unidos, também ele ascendeu à independência.

Estava quebrado o mito da imutabilidade das fronteiras, que só a hipocrisia dos dirigentes ocidentais se empenhava em manter. Havia ainda a a velha questão do Chipre, que fora "resolvida" precariamente há décadas, mas por ora a ninguém especialmente incomodava.

Mas eis que surge a pretensão da Escócia. O Reino Unido não impede, obviamente o referendo, e sendo a votação ainda minoritária, a Escócia permanecerá por mais algum tempo agregada à Inglaterra. Todavia, o Brexit venceu! É praticamente certo que num próximo referendo, a votação a favor da independência da Escócia será maioritária.  Dar-se-á então a cisão, à qual se seguirá a do País de Gales. A Irlanda do Norte, essa oscilará entre a independência e a sua integração no Eire.

O caso da Catalunha está em curso. Ou agora, ou mais tarde, será também independente, seguindo-se nessa via o País Vasco e talvez a Galiza e a Andaluzia. Ou seja, o desmembramento da Espanha está próximo. Uma questão de poucos anos.

Mas há outras nuvens no horizonte. A Córsega, que desde há muito tempo luta pela independência, retomará força e vigor. E mesmo dentro da França continental algumas regiões aspiram à autonomia.

Na Bélgica, ninguém ignora as pretensões autonómicas da Flandres e na Itália as da Lombardia e do Véneto. Mais recentemente surgiram também movimentos pela independência da Sardenha e da Sicília. Que a Baviera pretende sair da Alemanha não é segredo para ninguém. O próprio partido conservador nacional (CDU) tem uma expressão bávara (CSU). As fronteiras da Polónia, da Hungria e da Roménia são igualmente voláteis, devido à construção artificial desses países, integrando minorias uns dos outros. A Morávia, uma das três partes da antiga Checoslováquia, quer ser agora também independente.

A Ucrânia já foi amputada da Crimeia e de Donbass, devido às políticas da União Europeia e da NATO. Mas na Rússia assiste-se, ao contrário, a uma tendência centrípeta.

Muito mais haveria a dizer, mas isto são meras reflexões. A União Europeia, tendo-se submetido à vontade hegemónica da Alemanha, sem uma França capaz de dizer "Não" (De Gaulle deverá ter-se revirado na tumba), entrou em fase de desagregação inelutável, mostrando-se forte com os fracos e fraca com os fortes. Todo o edifício "europeu", que durante algum tempo concitou esperanças, aparece agora despido aos olhos dos cidadãos: afinal, o rei ia nu.

De resto, e à guisa de conclusão, creio poder afirmar-se que a União Europeia foi um desagradável equívoco, que todavia alimentou ambições - e corrupções - durante algumas décadas. Teve alguns méritos? Obviamente que sim, e nem poderia ser de outra forma. Mas o saldo é infelizmente negativo. Talvez surja mais tarde uma Federação Europeia, com estados mais pequenos, depois de todas as secessões anunciadas. E que possam coexistir em pé de igualdade, mas conservando o seu património genético. Leis europeias para povos estruturalmente diferentes foi uma experiência horrenda só possível de conceber pelas mentes distorcidas e prostituídas dos funcionários de Bruxelas.

Mas não se julgue que este movimento autonómico se confina à Europa. Por esse mundo, sob o olhar complacente do "Ocidente", quando ele pode, outras cisões se anunciam ou estão já no terreno: o Iraque, a dividir entre etnias sunitas, xiitas e curdas, a Síria, retalhada e ainda em luta, o embrião de um Curdistão do qual a Turquia nem quer ouvir falar, o antiquíssimo problema de Jammu e Caxemira, a fronteira da Birmânia (Myanmar) com o Bangla Desh, as convulsões no interior da União Indiana, as disputas de ilhas do Mar Nipónico, os movimentos separatistas da Indonésia e das Filipinas, a Líbia com diversos governos depois da invasão da NATO, a confusão no Sudão, o problema da Palestina, velho de meio-século, o Sahara Ocidental, os outros movimentos na África sub-sahariana, o adiado caso do Québec, as ilhas do Pacífico, as disputas fronteiriças na América do Sul. E mais haveria porventura a dizer!

A procissão ainda está no adro. O tempo, "esse grande escultor", como escreveu Marguerite Yourcenar, cidadã da Orbe, se encarregará de pôr ordem na Velha Casa Europeia. E também no Mundo. Ou talvez não.

Valete, Fratres.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

AL BERTO



A recente exibição do filme Al Berto, de Vicente Alves do Ó, sobre os anos de permanência em Sines do poeta Alberto Pidwell Tavares (1948-1997), suscitou-me o interesse de ler o livro de Golgona Anghel, Eis-me Acordado Muito Tempo Depois de Mim - Uma Biografia de Al Berto, que adquiri na altura da sua publicação (2006) e permanecia em repouso na minha biblioteca.


Junto a esse livro descobri o primeiro livro de Al Berto, publicado na colecção "Subúrbios", que ele mesmo criara, À procura do vento num jardim d'Agosto (1977). E também Demasiadamente belos para quem só não queria estar só, de Sérgio M. N. da Costa e Silva, igualmente editado por Al Berto, noutra colecção, o único livro que conheço deste autor, e que foi dado à estampa no mesmo ano de 1977. Adquiri-os nessa data, creio que na Livraria Bertrand, por mera casualidade, pois nada então conhecia do poeta. Li-os na altura em que os comprei, o que nem sempre sucede com os livros que vão chegando às minhas estantes. Talvez por isso, quando surgiu em 1979 (ou 1980 segundo a biógrafa) um novo livro de Al Berto, Meu fruto de morder todas as horas, apressei-me a comprá-lo. A temática era, obviamente, a mesma.


Depois, comprei mais livros de Al Berto, não todos, até à última edição de O Medo, edição que reúne a obra completa, publicado em 1997, já depois da morte do poeta.


Sobre o filme, que a crítica não acolheu com entusiasmo, pouco se me oferece dizer. A película relata os anos de permanência de Al Berto em Sines, após o seu regresso a Portugal (depois de um "exílio" no estrangeiro) após a revolução de 1974. É especialmente exaltada (e sexualmente mostrada q.b.) a sua relação com João Maria do Ó, meio-irmão do realizador, em cenas que hoje já nem sequer se podem considerar "chocantes", a vida agitada no palacete arruinado da família, os contactos com alguns amigos, e amigas, a criação da livraria Tanto Mar, as festas em casa, onde não faltava o travestismo e a droga, e também a rejeição desta "nova" maneira de viver, ostensivamente homossexual, que surpreende e "ofende" os bons habitantes de Sines, a quem nem a revolução "libertadora" do 25 de Abril conseguiu libertar do seu conservadorismo em matéria de costumes. É claro, mas isso não vi no filme, que para lá da relação privilegiada com João Maria, Al Berto engatava sistematicamente os putos da terra, que por vontade própria, por curiosidade ou em troca de alguns favores, fosse um pouco de dinheiro ou de droga (mas poderá chamar-se a isto prostituição?) frequentavam a casa e se entregavam aos prazeres do sexo. Para algumas famílias da região tal coisa era obviamente inaceitável, para outras era absolutamente indiferente (já tinham visto muitas coisas na vida), para a maioria era até uma forma de os rapazes se "desenrascarem" e não andarem a chatear em casa a pedir coisas.


Vendo o filme, quem não conheceu Al Berto (eu falei com ele duas vezes num bar do Bairro Alto, um bar não propriamente gay que se chamava Sudoeste e que não sei se ainda existe), ficará muito pouco esclarecido acerca do poeta, como homem e como artista, tanto mais que os dez últimos anos da sua vida, passados em Lisboa, foram essenciais para a sua afirmação literária. No Sudoeste, Al Berto estava habitualmente rodeado por uma corte de rapazes que o venerava e que contribuía para estimular a sua veia poética. Também nos cruzámos no Frágil, o primeiro bar trendy do Bairro Alto, a funcionar numa antiga padaria, lugar de encontro simultâneo dos nossos mais prestigiados escritores, actores, pintores e a socialite da época, e também por homossexuais de ambos os sexos, sendo que na sua maior parte os primeiros entravam também na segunda categoria.



Quanto ao livro, intitulando-se uma biografia, é especialmente uma bibliografia ou uma biografia literária, e perde grande parte do interesse que poderia revestir, tanto mais que a autora, tanto quanto é sabido, dispunha de um manancial de documentação e testemunhos sobre a vida do poeta. Todavia, um certo puritanismo provisoriamente suspenso no pós 25 de Abril (pelo menos nas grandes cidades) regressou à nossa vida pública, onde só é dizível o que é politicamente correcto, o que se insere na lógica LGBT e não perturba especialmente a moral burguesa. Aceitam-se os casamentos same-sex mas são mal vistos os engates de rua, isto é, o oposto à trajectória pessoal de Al Berto e à estrutura da sua obra. Tanto assim, que a autora refere que o poeta morreu vítima de um linfoma (o que pode não ser objectivamente incorrecto) quando toda a gente sabe, embora isso não tenha sido divulgado na altura do seu passamento, que a verdadeira causa da morte foi estar contaminado com sida. Também é verdade que ele negou sempre essa evidência, afirmando que tinha um cancro e, quase até ao fim da vida, assegurou que haveria de vencê-lo. Mas, na altura, a ciência ainda não dispunha, contra a sida, dos recursos existentes nos nossos dias.


De qualquer forma, do ponto de vista da produção literária de Al Berto, a obra tem evidente interesse, pois é a única que conheço referindo os seus livros, outros escritos, a estada no estrangeiro, a participação em conferências internacionais, as opiniões dos seus confrades, a atenção que o "meio literário" nacional lhe concedeu quando o "descobriu", até porque ele ousava dizer (e escrever) aquilo que muitos só eram capazes de pensar ou de realizar na clandestinidade dos urinóis públicos e dos quartos recônditos das pensões mal afamadas. Mesmo assim o país político reconheceu-lhe o valor e Jorge Sampaio agraciou-o com o grau de oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada.


No dia do seu funeral, em 15 de Junho de 1997, Mário Cesariny prestou o seguinte depoimento: «Acompanhei pouco o Al Berto mas acompanhei o suficiente para saber que ele é, para mim, o último sobrevivente de uma cidade desaparecida. Uma cidade de Lisboa que para mim desapareceu há muito tempo. Mas vejo na poesia dele que ele sonhava com essa cidade, e sonhar já não é pouco, não é? Gostava imenso dele, achava-o uma pessoa encantadora e um bicho da noite, da tal noite que vai rareando. O que foi a minha cidade de Lisboa desapareceu há muitos anos e acho que Al Berto ainda sonhava essa cidade. Era uma pessoa excepcional, um bom poeta. Li o Horto de Incêndio, tem muito bons poemas. Para mim o poeta é muito mais importante que os poemas e ali está um poeta. Acho que é o melhor que posso dizer.»


A Lisboa "da noite" a que Cesariny se refere, e que os iniciados tão bem compreendem, foi morrendo aos poucos por causas diversas que não cabe aqui mencionar. Aliás, o que se verificou em Lisboa aconteceu na maior parte das grandes cidades europeias, embora as razões possam não ser exactamente as mesmas, mas quase. Cesariny, que nascera em 1923, ainda usufruiu de um certo tipo da Lisboa a que Raul Brandão alude nas suas Memórias. Al Berto muito pouco, mas intuiu o que tinha perdido. Em 1997 o "encanto" de Lisboa, que levava tantos estrangeiros a visitarem-na frequentemente, tinha acabado ou estava moribundo. Hoje, desapareceu de vez. Se fosse vivo, Cesariny, que morreu em 2006, não suportaria continuar a viver.

Mas o mais importante, para citar o título de um livro de Eduardo Prado Coelho, é "tudo o que eu não escrevi".