terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A ROMÉNIA AGITA-SE


Várias cidades romenas foram palco nos últimos dias de violentas manifestações contra a política de austeridade imposta pelo governo, em consonância com medidas semelhantes que vêm sendo adoptadas um pouco por toda a Europa.

A situação atingiu maior gravidade, ontem, em Bucareste, onde os incidentes nos confrontos com a polícia provocaram mais de 70 feridos, tendo os manifestantes incendiado quiosques e caixotes de lixo e partido os vidros de alguns edifícios. A causa próxima para esta explosão de violência deveu-se à demissão do subsecretário da Saúde, Raed Arafat, um respeitadíssimo médico natural de Damasco, de origem sírio-palestiniana, que emigrou para a Roménia aos 14 anos. Em 1981, Arafat criou o SMURD, um serviço médico de urgência que se mostrou da maior utilidade para os romenos, além de outras iniciativas sociais no campo da saúde.

Há alguns dias, Arafat fora obrigado a demitir-se por ter entrado em conflito com o presidente da República, Traian Basescu e o primeiro-ministro Emil Boc, que pretendiam privatizar parcialmente os serviços de saúde do país.  A eclosão da violência levou à recondução de Arafat no cargo, com a promessa do governo de reanalisar a situação. Sendo o nível de vida na Roménia em geral modesto, em 2010 os salários foram cortados em 25%, as pensões congeladas e milhares de funcionários demitidos da administração pública, o que justifica amplamente o descontentamento da população com mais esta tentativa de redução dos serviços de saúde.

Ao contrário do que muita gente pensa, é a Roménia um país com uma história bimilenar. Conhecido como Dácia no tempo do Império Romano, acabaria o país por adoptar a denominação de Romania (em romeno), o que denuncia bem a sua ligação a Roma. Ocupado e dividido ao longo dos séculos, herdou contributos de outras civilizações, que enriqueceram o seu tecido cultural. Não é em vão que desde há muito tempo Bucareste é considerada a Paris do leste europeu.

Está a Roménia, como a maior parte dos países da Europa, a ser vítima da imposição de políticas largamente restritivas no campo social, decorrentes das notações das agências de rating e das exigências dos "mercados", essa entidade de que agora se fala todos os dias. Bem como do Fundo Monetário Internacional, do Banco Central Europeu e de outras instâncias que convergem na estratégia do empobrecimento das populações europeias com o pretexto de que se endividaram excessivamente. Quando recuamos no tempo e confrontamos as contas dos diversos países da Europa nos últimos anos constatamos que não é verdade a maior parte das coisas que agora se escrevem. Existe sim uma agenda da alta finança internacional, conjugando interesses inconfessáveis (mas que já não iludem os povos), cuja estratégia passa exactamente pela destruição do que constituiu o acquis do estado social nas últimas décadas.

Deve ter-se também em atenção que esta ofensiva na frente social é acompanhada de uma ofensiva na frente militar. Torna-se hoje claro que as revoluções nos países árabes, que inicialmente pareceram justificar-se plenamente como uma revolta contra as ditaduras existentes, foram fomentadas pelo governo sombra mundial com o propósito da invasão da Líbia, da agitação na Síria (onde esperam a queda do regime e a instalação da guerra civil) - tudo isto na sequência da invasão do Afeganistão e do Iraque - a fim de os arautos da democracia ocidental poderem atingir o Irão. É claro que muita gente considerará que isto é teoria da conspiração. Por isso, importa começar a distinguir as teorias da conspiração das verdadeiras conspirações. É fácil. Basta acompanhar o desenrolar dos acontecimentos e verificar que grande parte das previsões se concretiza. Assim tem acontecido nas últimas décadas.

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