quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A "DONA BRANCA", DE GARRETT


Almeida Garrett


Teve lugar no passado dia 10 deste mês, na Sociedade de Geografia, uma conferência do embaixador Fernando Ramos Machado, a propósito do 190º aniversário de "D. Branca", de Almeida Garrett, que, pela sua importância, passamos a transcrever:


          NOS 190 ANOS DA “D. BRANCA”, DE ALMEIDA GARRETT


Desde há algum tempo, tenho-me interessado pelo tema das relações amorosas entre cristãos/ãs e mouros/as, durante a nossa Idade Média, designadamente os ecos deixados na literatura posterior.

Como seria inevitável, deparou-se-me o poema de Almeida Garrett, “D. Branca”. Tendo verificado que passavam, em 2016, os 190 anos, número redondo, da sua primeira publicação, ocorreu-me que seria talvez o momento apropriado para recordar esta obra caída, a meu ver injustamente, em quase total esquecimento. Com efeito, ainda que, já em 1943, António José Saraiva escrevesse que “D. Branca” tinha envelhecido muito mais que as “Viagens na minha terra” e que o seu interesse é, agora, principalmente histórico, penso que ainda hoje podemos ler aquele poema com prazer e proveito.            
Sobre o assunto há um valioso estudo, “Da Infanta Branca Afonso à D. Branca de Garrett”, de Sandra Amaral Monteiro.

                                                      II

Começarei com algumas palavras sobre a D. Branca histórica.

A Infanta D. Branca Afonso, filha primogénita de Afonso III de Portugal e de Beatriz de Castela, nasceu em 1259, em Santarém. Pertenceu-lhe um extenso património, tanto em Portugal (entre outras, as Vilas de Montemor-o-Velho e de Torres Vedras) como em Castela, onde foi Senhora da vila de Briviesca. Foi peça importante nas relações entre os dois Reinos, tendo, mesmo, sido encarregada, por seu irmão D. Dinis, de missões diplomáticas, no contexto das negociações que antecederam o Tratado de Alcanices .

"Dona Branca"

Não foi monja no Mosteiro cisterciense feminino de Lorvão, mas sua Senhora e Protectora. Adquiriu o Senhorio do Mosteiro, igualmente cisterciense e feminino de Holgas (Las Huelgas), em Burgos, onde professou como freira, em 1295, onde veio a falecer, em 1321, e onde foi sepultada. Ficou a recordação do apoio que deu às letras e artes. Promoveu a tradução, a partir do árabe, do “Livro das batalhas de Deus”. Sobretudo, o seu nome está associado ao Códice Musical de Holgas, único manuscrito medieval com polifonia que ainda se conserva no lugar de origem. Foi composto, cerca de 1300, por um João Rodrigues, que se pensa teria sido criado, escriba e/ou capelão, ao serviço de D. Branca.   

Episódio relevante da sua vida foram os amores com um cavaleiro, de nome Pero Esteves Carpinteiro, ou Pero Nunes Carpinteiro, de quem teve um filho ilegítimo, Juan Nunes de Prado, que foi Mestre da Ordem de Calatrava.  

Diga-se ainda que seu pai, D. Afonso III, teve como amante Madragana ben Aloandro, que adoptou, depois de baptizada, o nome de Mór Afonso. Era filha do último Alcaide mouro de Faro, Aloandro ben Bakr. Teve numerosa e ilustre descendência.  
                                                                                
                                                                                    
                                                    III

Em 1826, Almeida Garrett publicou em Paris, onde se encontrava exilado, o longo poema narrativo “ D. Branca ou a Conquista do Algarve”. No ano anterior, fora a vez de “Camões” (que se sabe, porém, redigido posteriormente a “D. Branca”).

Os dois poemas marcam a introdução do Romantismo na Literatura Portuguesa, ainda que Garrett não se assuma como romântico. Assim, no prefácio de “Camões”, afirma enfaticamente “ Não sou clássico nem romântico, de mim digo que não tenho seita nem partido em poesia” e que seguiu apenas “o coração e os sentimentos da natureza”, o que, diga-se, é já uma profissão de fé romântica… Também em “D. Branca” se escreve, a certa altura, “de clássicos, românticos, guelfos das letras, gibelinos da arte, falar entendo, paz seja com eles”.

As duas obras, que podemos dizer “irmãs”, apresentam muitos aspectos comuns – são ambas poemas de dez cantos (na primeira edição, “D. Branca “ apresentava uma divisão em sete cantos) sendo as estrofes formadas de número variável de versos brancos de 10 sílabas, com excepção de poucas quadras em versos, de 9 e 7 sílabas, respectivamente, intercaladas em duas passagens de “D. Branca”. “Camões” foi publicado sem nome de autor, “D. Branca” com a menção de obra póstuma de F.E., para fazer crer que a autoria era de Filinto Elísio (nome arcádico do Padre Francisco Manuel Nascimento, que o Poeta considerava um dos seus modelos); Garrett, que, já anos antes, fora acusado de ser ateu e libertino, quando publicara “O retrato de Vénus” procurava, agora, evitar dissabores.

“Camões” e “D. Branca” acham-se imbuídos de nacionalismo - os temas foram buscados à História de Portugal, com o propósito de despertar o conhecimento e o amor pelas coisas portuguesas, e estimular o patriotismo do leitor, fazendo contrastar um passado glorioso com uma actualidade de decadência e apagamento. Esse nacionalismo revela-se também em aspectos mais propriamente literários, como o quase total banimento, em “Camões”, das referências à Mitologia clássica, e pela sua substituição, em “D. Branca”, por uma mitologia portuguesa, com as fadas, os sortilégios da noite de S. João, etc.. Manifestação de nacionalismo se pode, ainda, considerar a expressão dolorosa, nos dois Poemas, da saudade da Pátria, sentida pelo Autor exilado.

“Camões” aparece aos nossos olhos como obra ainda muito clássica. Apresenta uma marcada unidade de acção. Nas palavras do próprio Garrett, “ a acção do poema é a composição e publicação dos Lusíadas; os outros sucessos, que ocorrem, são de facto episódicos, mas fiz por os ligar com a principal acção”. Um historiador da literatura sublinha que dois cantos são decalcados sobre o texto dos Lusíadas, vários versos são transcritos literalmente e toda a linguagem tem um nítido cunho camoneano. Mas o Herói é verdadeiramente romântico, byroniano, Génio incompreendido, que morre abandonado, perante a ingratidão e a indiferença da Pátria.  

“D. Branca” é mais decididamente inovadora. Ainda que predominantemente clássica (ou, mais propriamente, arcádica) a linguagem é, muitas vezes, coloquial, e o tom pode ser, mesmo, jocoso, o que nunca acontece no poema “Camões”. A acção é, com frequência, interrompida, com referências, pelo Autor, ou à sua própria infância numa quinta ao Sul do Douro, ou à sua condição de exilado, ou ao abandono a que estava votado Sagres, ou ao nulo significado, no seu tempo, de uma Comenda de Santiago, em contraste com o valor dos Cavaleiros de Santiago medievais, ou aludindo a um então neologismo: “Fiquei desapontado, como dizem os ingleses. Essas interrupções são, até, objecto de um comentário auto-irónico:” E a minha história, e o meu lindo palácio? Malditas reflexões! Torno ao meu conto; e quem quiser achar a margarita, como o pinto da fábula esgravate”. Quanto à escolha da época medieval (e não já da Renascença) está ela mais em conformidade com as preferências românticas.

Em “D. Branca”, não só há uma acção, mas duas principais – por um lado, os amores da Infanta com o mouro Aben-Afan, e, por outro, a Conquista do Algarve, ambas convergindo, no final, por ocasião de uma fatal Noite de S. João. Ao tratar, em “Camões”, de assunto bem conhecido do público, a margem de liberdade de Garrett achava-se limitada; assim, dá-nos uma versão romanceada mas, apesar disso, próxima da realidade histórica. Com a Infanta D. Branca, personagem relativamente menor e desconhecida do grande público, o Autor sentiu-se livre para, mais do que romancear a História, recriá-la inteiramente. É certo que a Infanta D. Branca era filha de Afonso III e que foi no Reinado dele que se completou a conquista do Algarve. Quase tudo resto é inventado, já que Branca nasceu em 1259, isto é, 10 anos após a conquista de Silves; os seus amores com Aben-Afan não poderiam pois, ter ocorrido. Aben-Afan, por seu lado, foi o último Senhor de Silves, reconhecendo Garrett haver alargado os seus domínios a todo o Algarve ( na realidade, durante o período islâmico, não existiu propriamente um Reino do Algarve d’Aquém-Mar, como figura no Poema; houve, sim, um  Reino de Niebla, com Capital nessa localidade, não longe de Huelva,  que abrangeu o Algarve e parte do Alentejo).  O Autor admitia ter recriado o passado (como recriou poesias populares que incluiu no seu “Romanceiro). Com graça, respondeu a quem o acusava de imoralidade, que o Poema, ”até da Infanta D. Branca, uma das mais despejadas ‘leoas’ do seu tempo, fez a donzela tímida e sem malícia que aí pintei, mentindo descaradamente à História”.

O poema foi escrito de Agosto a Outubro de 1824. Pensemos que, apenas dois anos antes, tivera lugar a Independência do Brasil, que muitos portugueses sentiram como uma perda. Desfizera-se, pelo menos “de facto”, o Reino Unido Portugal-Brasil-Algarves, com a separação da sua parte de longe maior e mais rica. Ao evocar a conquista do Algarve, Garrett, está, como diz, a “contar… a história dos bons tempos que foram”. O Algarve, descrito em termos idílicos e cuja conquista heroica é tema de “D. Branca”, foi também o ponto de partida dos Descobrimentos. Garrett descreve, desolado, o estado em que se encontravam os edifícios do tempo do Infante D. Henrique, a ruína dos quais é “opróbrio da Nação que a primeira foi no Mundo em nobrezas, outrora, hoje em miséria”.

                                                     IV

“D. Branca”não segue a ordem cronológica, à qual, no entanto, recorrerei, por facilidade de exposição, para resumir o enredo:

Fada Alina

Um dia, caçando sozinho, Aben-Afan, jovem Rei do Algarve, dá por si junto a um magnífico palácio encantado, onde penetra, apesar de terríveis leões que, habitualmente, vedavam o acesso aos seres humanos. A Fada Alina, Senhora da mansão, tão poderosa que a ela “submissos os destinos cedem, e obedece a própria Natureza”, recebe Aben-Afan. Promete ajudá-lo a encontrar a felicidade, mas não podendo, na Terra, haver ventura completa, uma opção ele terá de fazer – a glória militar ou o amor. Entrega-lhe dois ramos mágicos, que deverá trazer junto ao peito, um de louro, outro de murta, simbolizando respectivamente, a glória militar e o amor, dos quais só um florescerá, secando  o outro.

Aben-Afan dedica-se à guerra, fazendo frente aos Cavaleiros de Santiago, chefiados por Paio Peres que Correia, que vão prosseguindo a sua marcha para Sul. Mas, certa noite, o Rei mouro tem a visão de uma figura feminina, cuja beleza o perturba. Lança-se numa busca, que o conduz a Lorvão e avista aquela cuja imagem o obceca, Branca de Portugal. Prepara o seu rapto, que se consuma quando ela se dirigia para o Mosteiro de Holgas, em Burgos, e condu-la, no seu cavalo, para o palácio encantado. Uma inscrição, gravada na pedra, à entrada, fá-lo hesitar - ” Ao Rei sem Reino, à esposa sem marido. Aben-Afan! Aqui jaz o teu Fado! Pensa! Pensa outra vez antes de entrares”. Mas acaba por decidir-se –  “ Resolvi, clamou, perca-se tudo …Oh! tudo, tudo …e seja Branca minha! “.  

Alina, que os acolhe afavelmente, observa “florece a murta, sim, e Branca é tua, mas o louro seca, tua glória é extinta, teu trono ruiu, cessou teu reino; Branca é tua e só a perderás se, alucinado, teu florecido ramo abandonares e o deixares secar”.

Desde o primeiro instante, a Infanta sucumbira ao fascínio do seu raptor, o que poderia surpreender, pois era ele então o maior inimigo dos portugueses, mas não, se tivermos presente o retrato que o Poeta faz do “gentil moiro”. Além disso, a Fada havia posto, no coração de Branca, a imagem de Aben-Afan. Alina deixa os amantes entregues à sua felicidade, no maravilhoso palácio. O Anjo da Guarda de Branca leva ao Céu a triste nova de uma perdida ovelha. O Poeta, porém, exclama “mas castigar Amor? O Céu tem raios e a crimes tais nunca os mandou à Terra”.

Não nos é dito quanto tempo corre, naquele lugar, que se poderia, na verdade, dizer fora deste Mundo. Mas talvez tenha sido breve este “engano de alma ledo e cego”. Com efeito, os Cavaleiros de Santiago avançam vitoriosamente, para desespero e revolta dos mouros, que se sentem abandonados pelo seu Rei. Longamente é narrado o episódio de Antas – seis Cavaleiros, aproveitando uma trégua, vão à caça com os seus falcões. Encontram uma jovem que lhes revela ser Oriana,  irmã de Aben-Afan, que sua mãe se havia convertido ao Cristianismo e que, ela própria, baptizada à nascença e obrigada a fugir, quando tal fora descoberto. Surge uma multidão irada, que acaba por massacrar os Cavaleiros, apesar da sua resistência heroica, e levar Oriana presa.

Apenas Silves não caiu ainda em poder dos cristãos. Aos Cavaleiros de Santiago, vem juntar-se o próprio Afonso III, com as suas forças. É Noite de S. João mas o Rei, pesaroso pela ausência da filha, proíbe quaisquer festejos. S. Frei Gil de Santarém, versado em artes mágicas, promete-lhe que “a mesma hora que vir Silves em mãos de portugueses, verá Branca liberta, e Aben punido”.

Entretanto, no palácio encantado, a paixão de Aben-Afan fora arrefecendo, e começa a arrepender-se de levar uma existência inútil e de faltar aos seus deveres de Soberano e guerreiro. Formula o desejo de que o louro possa reverdecer; de imediato se arrepende, mas é tarde  - “O Sol se obscureceu; medonha noite cai sobre o céu, como um funéreo manto sobre a urna cinérea, estala um raio, com límpido lampejo fende as nuvens e horríssono trovão nos ares brama” (bela linguagem, puramente arcádica). Lembram-se os dois amantes de que é a Noite de S. João e, tristes e abraçados, esperam a terrível hora fatal da meia – noite, mantendo Branca, contudo, a esperança de que não lhe poderão arrancar Aben-Afan .

Aben Afan

Por sua parte, S. Frei Gil não perdera tempo. Numa passagem do Poema dum macabro arrepiante, vêmo-lo dirigir-se ao cemitério e dar vida ao esqueleto dum distante antepassado de Aben-Afan; anuncia-lhe que o Reino do Algarve está perdido, mas que o último Rei poderá ainda morrer com honra. Pede-lhe que persuada Aben-Afan a voltar a Silves e, montando-o num hipogrifo, condu-lo ao palácio encantado. Batem à porta, ao mesmo tempo que soam as doze badaladas. O palácio desaparece e os dois amantes dão por si num calvo outeiro. Branca assiste, desolada, ao jovem Rei ser arrastado pela mão seca dum espectro. Com voz severa, Frei Gil diz-lhe “teu execrando amor os céus puniram, o Deus que, desleal traíste, vem aplacar com duras penitências”; leva-a, nos braços, até ao acampamento cristão. (Note-se que o “crime” de Branca não seria tanto o haver amado um mouro, mas o ter faltado às suas obrigações de monja, esposa do Senhor; fora como que um adultério) .

O assalto final começara, mas a aparição súbita de Aben-Afan vem retardar a queda da Cidade, cuja sorte se vem a decidir num duelo entre ele e o Mestre de Santiago, ambos de uma valentia e de um cavalheirismo inexcedíveis. “Foras, sorte, imparcial, nenhum vencera …mas os destinos nas balanças fatídicas pesaram a sorte das Nações, e o maometano Império pende, Aben-Afan sucumbe…e no Algarve d’Aquém Afonso Impera”.

Quanto a Branca, enlouqueceu de dor. Levam-na para Holgas; Oriana, a irmã de Aben-Afan acompanha-a. “Vegeta o tronco ainda, mas é vida este viver, que se alimenta de lágrimas?”.

O Poeta exclamara que os raios do Céu não punem o Amor, mas a paixão de D. Branca e Aben-Afan acabou por ceder, talvez não ao castigo divino mas, certamente, aos imperativos sociais. Contudo, o Rei mouro, ainda que puxado pelo seu longínquo antepassado, já interiorizara o seu dever e bate-se com a maior coragem, até à morte. Branca, pelo contrário, revolta-se contra o seu dever e, apenas porque forçada, segue para Holgas, onde levará uma vida de dor. São, verdadeiramente, um Herói e uma Heroína românticos.
 
                                                        V

“D. Branca” é vista como uma obra precursora do Orientalismo, entre nós. Não é este o momento para falar longamente sobre Orientalismo (embora não deva haver muitos locais, tão apropriados como a Sociedade de Geografia, para debater o tema).

Recordarei, apenas, que o Orientalismo, movimento ou moda que não se confina à Literatura, tivera já grande aceitação no Séc.XVIII, ganhara maior fôlego no seguimento da expedição de Bonaparte ao Egipto e fora adoptado pelo Romantismo. Mas, enquanto que na Europa, em geral, o Orientalismo é uma faceta do Exotismo, tal não é necessariamente o caso em Portugal. Um autor orientalista português não tem que recorrer a cenários como o Egipto, a Terra Santa, Constantinopla ou a Índia, pode situar a acção da sua obra em território português, não tendo que haver uma viagem no espaço, mas apenas no tempo.

Na sua busca das raízes medievais de Portugal, Garrett encontrou o Oriente, corporizado no Reino dos Algarves. Constatou que houvera uma componente árabe, na formação da Nacionalidade portuguesa, e considerava que a memória desse passado devia ser valorizada. Sente-se, no Poema, uma tensão: Garrett exulta com a conquista do Algarve e exalta a gesta dos Cavaleiros de Santiago mas, ao mesmo tempo, entristece-se com a queda do Reino mouro, portador de uma civilização mais refinada. Desejaria que não tivesse havido vencidos. O palácio encantado simbolizaria, assim “ a utopia da convivência (im)possível”, na muito feliz expressão que Eva–Maria von Kemnitz utiliza num contexto um pouco mais alargado, na sua tese sobre “Portugal e o Magrebe (Sécs. XVII/XIX) “.

Na descrição daquele palácio, Garrett terá cedido a um estereotipo de Exotismo orientalista. O edifício,” onde tudo o que o rico Oriente tem de brilho e de gemas resplendece “nem jónio, dório, itálico, misto, gótico, saxónico, caldeu, núbico, Índico, indostan, mogol ou pérsico, “nada disso é e, no entanto é belo”, e os interiores são esplendorosos. Ter-se-á o Autor, que muito apreciava Sintra inspirado nas ruínas do Palácio de Monserrate. Anos antes do nascimento de Garrett, viveu ali William Beckford, autor da famosa novela orientalista “Vathek”, que começa, precisamente, pela descrição de um fabuloso palácio oriental. Beckford realizou obras no Palácio e no seu jardim, incluindo a construção de um Arco de Vathek. Em 1809, Byron visitou Monserrate, já então em ruínas, e refere-o, no “Childe Harold”. Ignoro se Garrett, que leu Byron, terá lido o “Vathek”, mas tal não é impossível; e note-se que  Beckford,  ainda era vivo, aquando do seu exílio em Inglaterra.        

                                                       VI

Logo no início do segundo Canto, o Poeta aborda um dos temas orientais que sempre foram objecto tanto de fascínio, como de escândalo, para os europeus – o harém. “Que sórdidos haréns, que vis eunucos tem o Oriente, sepulcros tristes de oiro, onde geme a virtude e amor corrido cede a brutal desejo o facho e a venda!”. Mas logo interroga “culpas, Europa, o mussulmano bárbaro?”, antes de descrever, com as tintas mais sombrias os mosteiros cristãos: ”cárceres negros e traidores, onde à inocência cândida, à piedade, arma pérfido bonzo o laço astuto”, onde a escravidão só termina com a morte e nem um raio de esperança vem aquentar corações gelados, mortos” etc... A conclusão é clara – antes prisioneira num harém que freira num mosteiro. E, assim, antecipa o destino de Branca – Quão mais feliz teria ela sido no palácio encantado, onde era Rainha, do que Abadessa em Holgas.   

Se Garrett não gostava de mosteiros, também não gostava de frades, pelo menos bernardos; isso, que hoje nos pode parecer estranho, era explicável no ambiente político da Época, em particular pelas posições anti-liberais dos monges de Alcobaça. São apresentados como grotescamente ridículos, glutões, ignorantes, grosseiros, covardes. Ficou célebre a expressão “gorda, cachaci-pansuda figura”, e o episódio da “tremenda”, alusivo a uma real ou suposta lauta refeição, servida aos frades a meio da noite, terá sido das partes do Poema que ganharam mais popularidade. Já os eremitas, personagens rodeadas de mistério, como Frei Hugo, não incorrem na condenação do Poeta romântico. E S. Frei Gil de Santarém, conhecedor de magia negra e que Garrett considerava “o nosso Doutor Fausto”, intervém na acção, quase como Deux ex-machina; não é, porém, personagem simpático e transparece, na forma como descreve os seus diálogos com Afonso III, o desagrado do Poeta pela arrogância do clero Igreja perante o Poder político.  Toda a sua admiração, porém, vai para os Cavaleiros de Santiago, não tanto por serem monges, mas por serem guerreiros intrépidos; apresenta-os, no entanto, como moços galanteadores, uma imagem talvez mais apropriada aos Cavaleiros de Malta do Séc. XVIII, que aos de Santiago do Séc. XIII.

Compreende-se que Garrett não tenha querido figurar como autor, quando “D. Branca” surgiu, em 1826, ao mesmo tempo que multiplicava os protestos da sua fidelidade ao Catolicismo, que diríamos quase que repassadas de ironia. O Poeta assume-se como cristão, mas é-o em termos de valores culturais, éticos e estéticos. Quando diz ser “vate cristão”, é apenas no sentido de que rejeita a mitologia greco-romana, para a substituir por uma mitologia nacional, que tem pouco ou nada a ver com o Catolicismo oficial. A Fada Alina está acima da divisão entre cristãos e muçulmanos, e quanto ao próprio “glorioso S. João, que tudo alegra, abençoado protector d’amantes, até descridos moiros o festejam e canibais pedreiros o veneram” (alusão jocosa à Maçonaria, à qual, aliás, o próprio Garrett pertencia).

A religião de Garrett era a dos filósofos do Século das Luzes, que ele exprime, pela boca de Aben-Afan. Tendo-lhe dito Branca que seu Deus era falso e pedido que adorasse a Cruz, o Rei mouro responde, indignado: ”Falso o meu Deus! E o teu é verdadeiro! Quantos Deus há pois na natureza? Eu adoro o que fez este Universo, o que nos ares suspendeu, magnífico, estes orbes de luz que nos aclaram (…) o Deus que me criou, que no teu rosto pôs o traslado da beleza eterna. Este, este é o meu Deus,  e falso é ele.

                                                         VII

Segundo Teófilo Braga, Garrett seguiu, em “D. Branca”, o estilo digressivo e faceto do “Oberon”. Por outro lado, num tese de José Joaquim Dias Marques, considera-se que Alina tem mais a ver com as fadas do “Oberon”, que com as do folclore português. Não li a obra de Wieland, traduzida para português por Filinto Elísio, em 1802, sabendo, porém que, no seu enredo, figura uma Princesa moura, raptada por um cavaleiro cristão. Assim, irei abordar, agora, outras obras, com laços reais ou apenas aparentes com a “D. Branca”.

Na mesma Cidade (Paris) e no mesmo ano (1826) da publicação de “D. Branca”, surgiu um livro que viria a ganhar celebridade. A heroína chama-se Doña Blanca, cristã, o herói, Aben-Hamet, muçulmano; a acção decorre em Granada, algum tempo depois da conquista pelos Reis Católicos e o Alhambra, que os dois enamorados visitam, lembra um palácio encantado; um duelo, entre Aben-Hamet e o irmão de Doña Blanca, recorda, pelo cavalheirismo dos dois, a luta entre Aben-Afan e D. Paio Correia. Trata-se de “O último Abencerragem”. Entre a novela de René de Chateaubrind, na realidade escrita dez anos antes, e o poema de Almeida Garrett, pouco há em comum, além de serem histórias de paixões infelizes, entre um muçulmano e uma cristã. Doña  Blanca e Aben-Hamet teriam podido realizar o seu amor,  se um deles  aceitasse renunciar à sua religião e adoptar a do outro; ambos preferem manter-se fiéis à sua fé respectiva, sacrificando a felicidade terrena. Chateaubriand lia, por vezes, em certos salões, excertos da sua obra, mas é pouco provável que a eles tivesse acesso o modesto empregado da “Maison Laffite”.

( Um parêntese para sublinhar como, em muitos aspectos, foram paralelas as vidas destes dois escritores de primeira grandeza, que fizeram, nas suas obras, a transição para o Romantismo. Ambos sofreram as agruras do exílio, ambos foram sedutores, amaram a vida, ambos brevemente Diplomatas e Ministros dos Negócios Estrangeiros, ambos Viscondes. Situados, porém, em polos opostos do espectro político, um legitimista, liberal o outro) 


Já outra obra, porém, “Miragaia”, de Garrett e por ele  classificada como  “romance reconstruído “, está estreitamente relacionada com “D. Branca”. Garrett ouvira a lenda a criadas de sua casa, desde criança e, numa quinta ao Sul do Douro, onde passou longas temporadas, gostava de brincar na ruína de um castelo mourisco e de beber a água duma fonte chamada “do Rei Ramiro”.

Segundo o romance, o Rei Ramiro rapta Zahara, irmã do Rei mouro Alboazar. Este vinga-se, raptando Gaia, mulher de Ramiro. O Rei cristão organiza uma expedição e, com um ardil, mata Alboazar, cujo castelo incendeia, e traz consigo Gaia de volta. Ao atravessarem o Douro, ela chora e, interrogada, responde: “mataste o mais belo moiro, mais gentil mais para amar, que entre moiros e cristãos, nunca mais não terá par”. Ramiro, furioso, degola-a e atira a cabeça à água. Garrett “reconstruiu” o romance, mantendo a toada e o espírito populares.

“Miragaia” foi publicada, pela primeira vez, apenas em 1843, 17 anos depois de “D. Branca”  mas, como escreve o próprio Garrett, ”foi das primeiras coisas deste género em que trabalhei: e é a mais antiga reminiscência da poesia popular que me ficou da infância”. Tinha-a, pois, na sua mente, quando escreveu “D. Branca”- nos dois poemas, uma dama cristã é raptada por um Rei mouro, valente e cavalheiresco, por quem se apaixona. A libertação, isto é, o regresso à Cristandade, tem, para ambas, consequências trágicas, punidas por adultério (Gaia era mulher de Ramiro, Branca, freira, logo esposa do Senhor); perdem a cabeça, Gaia no sentido literal, Branca metaforicamente. Por outro lado, Aben-Afan e Alboazar também são castigados, mas morrem com honra, lutando, os seus domínios são devastados.  Os dois têm irmãs, Oriana e Zahara, respectivamente Oriana, já anteriormente baptizada, vai, por vontade própria, para um Mosteiro. Quanto à irmã de Alboazar, que Ramiro raptara, o poema “Miragaia” nada acrescenta mas, no Livro de Linhagens de D. Pedro, que dá uma versão da lenda, o Rei Ramiro leva-a até Leão, onde ela é baptizada (com o nome de Ortiga), e, da união de ambos, descenderiam os Senhores da Maia. As irmãs como que vêm compensar as “perdas” de Branca e Gaia.

E no enredo da obra-prima da maturidade, “Frei Luís de Sousa”, encontramos alguns pontos em comum com “D. Branca” e “Miragaia” – o regresso de um cristão que esteve preso em terra de mouros, um casamento que se desfaz, um adultério, real ou imaginado, o convento como expiação.

Com as duas últimas obras, que apenas brevemente abordarei, voltamos a ter D. Branca como heroína.

A 6 de Janeiro de 1840, isto é, 14 anos após a primeira publicação de “D. Branca”, subiu à cena, no Teatro S. João, do Porto, “O Almançor Aben-Afan, último Rei do Algarve”, peça em três actos e em verso. O autor, José Freire de Serpa Pimentel, 2º Visconde de Gouveia, exerceu cargos na Magistratura, foi Governador Civil do Porto, Par do Reino. Escreveu ainda, entre outras peças, “D. Sisnando, Conde de Coimbra “, “D.Sancho II” , “A moira de Montemor”.   

“O Almançor Aben-Afan” põe de novo em cena os dois protagonistas de “D. Branca”, mas a história é radicalmente diferente, assim como o estilo e o espírito. A Infanta D. Branca, religiosa em Holgas, e D. Pero Esteves Carpentos, Cavaleiro de Santiago, amam-se. Decidem ir a Roma, procurar ser desvinculados dos seus votos. Ao largo do Algarve, o navio, que os transporta, naufraga, vindo ambos, separadamente, a cair em poder de Aben-Afan. O Rei de Silves não tem, aqui, qualquer semelhança com o “moiro gentil” de Garrett, lembra mais o mouro de Veneza, mas Otelo assassinou Desdémona num momento de loucura, de que logo se arrependeu, enquanto Aben-Afan se revela verdadeiramente sanguinário. Deseja ardentemente Branca, desde o dia em que a avistou, ao participar, incógnito, num torneio em Lisboa, do qual saiu vencedor; apresentara o pedido da mão de D. Branca, que não foi aceite por Afonso III.

Agora, multiplica rogos, promessas, ameaças terríveis. Chega a dizer-lhe que se fará cristão, se ela for sua uma só hora, e que se matará depois, mas Branca recusa sempre o que diz ser pior que o amor de um tigre. O Mestre de Santiago envia um mensageiro comunicar a Aben-Afan que, se não libertar a Infanta e os outros prisioneiros, ele virá ocupar Silves. A obcecação do Rei é tal que diz aos seus próximos “ou ganhar D. Branca ou perder tudo, que me importa a Pátria, que me importam palácios e diademas, sem os braços gentis de D. Branca?”.   

Por fim, não conseguindo os seus propósitos, manda executar Branca de forma atroz. Já antes, para atormentar D. Pedro, ordenara que fosse gravada, num mausoléu, esta inscrição “Da vingança o punhal cravou-lhe o seio/ Violada e morta ao despontar da vida/ Do leito do Almançor desceu à campa”. Mas, entretanto, os cativos cristãos soltam-se e chegam as tropas portuguesas. Aben-Afan acaba por suicidar-se. Branca, em nome do seu Pai, ordena o perdão e a paz, respeito aos de Mafoma, honrosa sepultura a Aben-Afan, aos prisioneiros vida e liberdade.

A peça poderia, pelo carácter das personagens e pela linguagem, servir de base para o libreto de uma ópera. Não faltam, também, passagens melodramáticas, como quando se revela que o velho escravo Mustapha é, na verdade, o Pai do Cavaleiro, que Aben-Afan lhe ordenara assassinar. Parecem-me bem representativos desta fase do Romantismo, e não resisto a transcrevê-los,  os últimos versos do primeiro acto, nos quais o Cavaleiro exclama: “E ao vil Aben-Afan irei raivoso / C’o dente furibundo abrir-lhe as veias/Rasgar-lhe o coração/trincar-lhe a vida”.

Finalmente, “Donna Bianca”, ópera com prólogo e quatro actos, composta por Alfredo Keil, com libreto, em italiano, de César Féréal. Estreou, a 10 de Março de 1888, no São Carlos. Foi lá apresentada trinta vezes, entre 1888 e 1899 e, novamente, em Setembro de 2010, numa série de quatro espectáculos, em versão de concerto.

No plano da música, o compositor foi fortemente influenciado por Massenet. O libreto pretende basear-se na obra de Garrett, mas é mais uma recriação que uma adaptação. O primeiro encontro de Aben-Afan com a Fada Alina tem lugar na “Floresta encantada de Sagres” (sic).  Avista Branca em Burgos, no momento em que ingressa no Mosteiro; não a rapta, ela segue-o de livre vontade, já que a paixão de ambos é imediata. Cavalgam para o Paraíso e vivem a sua felicidade, na Mansão das Huris. Mas Adaour, o confidente do Rei, vai lá contar-lhe a triste situação do Algarve e condenar o abandono a que votou a Pátria, convencendo-o a regressar. Por um vale deserto dirigem-se para o Algarve, seguidos à distância por Branca, que Aben-Afan repelira. Perante a conquista iminente de Silves pelas tropas cristãs, D. Branca promete ao Mestre de Santiago renunciar a Aben-Afan, e voltar para junto do Pai, se for passado um salvo-conduto para o mouro, caso ele ainda viva. Adaour crê que Branca está a atraiçoar Aben-Afan e tenta matá-la. Aben-Afan entra, mortalmente ferido, lamenta ter deixado secar a murta e despede-se de Branca. Expira e ela desfalece sobre o seu corpo.

Se D. Branca inspirou uma ópera, cabe mencionar que, na “Suite El-Gharb “, composta pelo pianista Eurico Thomaz de Lima, o primeiro andamento se intitula “Aben-Afan”.  
     
                                

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

TEIXEIRA GOMES




Está em exibição em alguns cinemas (muito poucos) o filme Zeus, de Paulo Filipe Monteiro. Trata-se de uma película sobre a vida (nomeadamente o seu exílio em Bougie) do escritor português Manuel Teixeira Gomes, que foi o sétimo presidente da República.


Esta revisitação de uma personagem tão rica, e também controversa, do Portugal contemporâneo é uma oportunidade rara de conhecer um dos homens mais singulares que ocuparam entre nós a chefia do Estado. O filme deveria ser projectado em todos os cinemas, mas certamente o público seria escasso, como escasso é nas poucas (e pequenas) salas onde é agora apresentado. Hoje, quase ninguém conhece Teixeira Gomes, quer como escritor, quer como presidente. Não admira. Ainda há dias, falando com moços de vinte anos, de uma razoável classe média, estes ignoravam quem fora Mário Soares!!! É isto o estado a que chegámos.


Não é agora o momento para me debruçar mais demoradamente sobre a figura de Teixeira Gomes. Fá-lo-ei quando tiver oportunidade, tanto mais que foi publicado muito recentemente um livro, Manuel Teixeira Gomes - Biografia (2016), de José Alberto Quaresma, grosso de mais de 600 páginas, que ainda não tive tempo para ler.


Apenas algumas notas.

Manuel Teixeira Gomes nasceu em Portimão (1860), junto ao mar que tanto amava, filho de um comerciante de frutos secos, negócio que lhe valeu um razoável desafogo de vida. Estudou em Coimbra, viajou pela Europa, especialmente pelos países do Mediterrâneo, envolveu-se na política (republicano que era), foi ministro plenipotenciário em Londres, depois em Madrid, regressou ao posto de Londres, e chegou a ser vice-presidente da Sociedade das Nações. Em 6 de Agosto de 1923, é eleito presidente da República pelas duas Câmaras do Congresso. Os tempos que passou em Belém foram de agitação, intriga, confrontos, tentativas revolucionárias. Não conseguindo um apaziguamento nacional, afrontado pelos seus opositores, inclusive pelo teor da sua obra literária, que foi considerada (talvez não sem razão) sensualista, acusado de ser pederasta, no parlamento e na rua, Teixeira Gomes renunciou ao cargo em 10 de Dezembro de 1926, prevendo o advento da ditadura militar.

Um dos seus mais acérrimos adversários foi Cunha Leal, um catavento político, arauto dos bons costumes, defensor da "moral" da Primeira República, a mesma que em 1923 não hesitara em proibir a representação da peça Mar Alto, de António Ferro, por ultraje ao pudor!!!

Em 17 de Dezembro, deixando a sua casa da Gibalta, os seus livros, os seus papéis, as suas obras de arte, Teixeira Gomes embarcou no primeiro navio que saía de Lisboa, o "Zeus" (nome premonitório) com destino a Oran. Viaja depois pela Argélia, pela Tunísia, pela Itália, até se instalar definitivamente em Bougie (hoje, Bejaia), no quarto nº 13 do Hotel de L'Étoile, aonde virá a morrer em 18 de Outubro de 1941. Não mais voltaria a Portugal.

A par da sua actividade política e diplomática, Teixeira Gomes foi um escritor notável, autor de obras de referência na literatura portuguesa, como Agosto Azul, essa evocação do Algarve mediterrânico com gregas reminiscências ("Uma copejada de atum" é um texto de antologia), ou Maria Adelaide, o seu único romance, de características eminentemente autobiográficas.

Voltando ao filme, pode dizer-se que é uma obra conseguida, dispondo certamente de limitados recursos, mas reconstituindo o ambiente da época e fornecendo uma moldura adequada à personalidade do escritor-presidente. A maior parte da película é rodada na Argélia, utilizando parcos meios mas obtendo o resultado bastante para nos transmitir a imagem do homem apaixonado pela cultura clássica e pela civilização árabe, cultura e civilização em que floresceu a sensualidade que viria a ser mais tarde objecto de tabus e perseguições, como a história regista e a humanidade experimentaria ao longo dos séculos. Em plano de fundo, há uma discreta atmosfera homoerótica que Paulo Filipe Monteiro convoca e que está de acordo com o testemunho dos contemporâneos. Um filme que confirma os méritos do realizador e que assinala o regresso ao cinema de Sinde Filipe, grande actor português, que empresta ao protagonista os traços que nos permitem apreender Teixeira Gomes na sua real dimensão de homem, de intelectual e de estadista. No elenco, cumprindo devidamente o seu papel, alguns outros actores portugueses e vários actores e figurantes árabes, que conferem uma particular autenticidade a esta evocação que só peca por tardia.

Os restos mortais de Teixeira Gomes seriam trasladados para Portugal no contratorpedeiro "Dão", enviado por Salazar à Argélia, em 18 de Outubro de 1950, precisamente nove anos depois da sua morte, e sepultados no cemitério de Portimão.

São contraditórios os depoimentos sobre a orientação sexual de Teixeira Gomes. Embora nunca tendo casado, foi pai de duas filhas, oficialmente reconhecidas, e conhecem-se-lhe diversas aventuras femininas. Todavia, a exaltação nos seus escritos dos corpos dos rapazes, fazendo lembrar estátuas gregas, e alguns testemunhos coevos, permitem supor que o escritor não desdenhava o sexo masculino. Aliás, a violenta campanha de que foi alvo enquanto presidente assentava também na condenação de tais preferências sexuais.

O historiador Rui Ramos escreve: «No entanto, a insistência no tema [a homossexualidade] não pode ser explicada por mera inclinação pessoal. Outros escritores gozavam de sólida reputação de pederastas, e não era por isso que sentiam necessidade de elocubrações sobre o tema ou de se exporem. Estavam neste caso João Chagas, jornalista republicano e embaixador em Paris, Júlio Dantas, o presidente da Academia de [sic] Ciências, e Manuel Teixeira Gomes, o presidente da República - todos publicamente tidos por homossexuais convictos.» (História de Portugal, direcção de José Mattoso - Volume VI, p. 661 - 1994)

E o crítico Vasco Pulido Valente (VPV), com a sua proverbial acrimónia, escreveu no PÚBLICO (cito de cor porque não encontro de momento o recorte do jornal), «que tivemos um presidente da República pedófilo, Manuel Teixeira Gomes.»

Ainda o mesmo VPV escreveu no blogue "O Espectro": «O dr. Jorge Sampaio, antes de acabar o mandato, foi à Argélia prestar homenagem ao penúltimo Presidente da I República, Teixeira Gomes. Todos nós podemos, aliviadamente, repousar na certeza que o dr. Jorge Sampaio nunca leu os romances (em geral, autobiográficos) do escritor Teixeira Gomes. Mas mesmo um ingénuo devia perceber que a veneranda figura que se refugiou em Bougie (e não, por exemplo, em Nice) tinha razões de um peso particular. Em 1924, o norte de África, como Gide amorosamente descreveu, era o paraíso dos pedófilos. Teixeira Gomes queria rapazinhos. E, de quando em quando, virgens de 11,12 anos, para como ele disse, lhes "colher as primícias". Costumes.» (5 de Março de 2006)

Permita-se-me uma referência particular. Desde miúdo, ia passar férias ao Algarve com os meus pais. Depois, mais crescidinho, talvez a partir dos vinte anos, comecei a ir sozinho ou com amigos. Não só nas férias, mas várias vezes ao ano, mercê de circunstâncias propícias. Inicialmente, como no tempo dos meus pais, a minha base era Portimão. Mais tarde, instalar-me-ia também em Armação de Pera e Albufeira, mas nunca esquecendo Portimão e a sua Praia da Rocha.

Nas minhas frequentes idas a Portimão, nos anos sessenta, conheci naturalmente alguns habitantes daquela acolhedora terra. Entre eles, um grupo em que pontificavam alguns cavalheiros, já na casa dos sessenta anos, que se reuniam todas as noites num dos muitos cafés que existiam na altura na simpática cidade. Se a memória não me falece, um deles era a Casa Inglesa, mas havia outros. Possivelmente, hoje todos destruídos em nome do turismo e do "progresso"!

Vem isto a propósito de conversas com esses cavalheiros - bem informados quanto aos costumes da sociedade algarvia - acerca de Teixeira Gomes, cuja importância na altura eu apenas superficialmente conhecia. Todos eles sabiam de "estórias" sobre Teixeira Gomes, referindo em particular os seus passeios noturnos na ponte, sobre o rio Arade, que liga Portimão à vizinha aldeia de Fegarrudo. Envolto numa capa preta, Teixeira Gomes encontrava muitas vezes, quase sempre, jovens solícitos, imbuídos dessa sensualidade mediterrânica dos tempos em que o Algarve era ainda o Al-Gharb.

Um destes sujeitos, o mais velho, já aposentado de uma Conservatória, ou das Finanças, não me recordo, ainda conhecera pessoalmente Teixeira Gomes, aquando das suas raras visitas a Portimão. Todos sabiam, porém, dos costumes do escritor-presidente, que não era objecto da mínima censura, sendo, pelo contrário, enaltecido pela sua independência de espírito e pelo seu apego às raízes magrebinas daquela província meridional de Portugal.

Nunca qualquer desses cavalheiros me referiu que Teixeira Gomes privasse com crianças, isto é, que fosse "pedófilo", na exclusiva acepção que a palavra deveria revestir, mas que foi, infelizmente, prostituída pela justiça e pela comunicação social.  Gostava, sim, de rapazes jovens e seria por isso um "pederasta", no sentido helénico da palavra que a História nos transmitiu.

Estes testemunhos  valem o que valem, lamento não tê-los então registado com pormenor, sendo-me agora impossível, decorrido mais de meio século, reconstituir detalhadamente aquilo que ouvi, e que era suposto ser do conhecimento geral das gentes de Portimão.

* * * * *

Em 1938, o jornalista Norberto Lopes entrevistou Teixeira Gomes em Bougie, tendo publicado O Exilado de Bougie - Perfil de Teixeira Gomes (1942)


Postal encontrado na edição encadernada de "O Exilado de Bougie", adquirida a um alfarrabista

Em 1946, Urbano Rodrigues publicou A Vida Romanesca de Teixeira Gomes.


Em 1950, Urbano Tavares Rodrigues publicou Manuel Teixeira-Gomes - Introdução ao estudo da sua obra.


Em 1961, David Mourão-Ferreira publicou Aspectos da Obra de M. Teixeira-Gomes.


Em 1982, Urbano Tavares Rodrigues publicou a sua dissertação de doutoramento: M. Teixeira Gomes - O Discurso do Desejo.


Ficarão para mais tarde algumas considerações sobre a obra literária de Manuel Teixeira Gomes, que urge revisitar.

Deixo uma pergunta. Quando, num passado recente, algumas inutilidades pátrias foram trasladadas para o Panteão Nacional, onde repousam chefes de Estado e escritores, porque não conceder essa honra ao único presidente da República verdadeiramente consagrado como escritor? Não sei se o mesmo apreciaria a convivência de muitos dos que o precederam, mas não me eximo a registar a sugestão.

sábado, 14 de janeiro de 2017

AINDA ERDOĞAN




A propósito da trajectória política de Recep Tayyip Erdoğan, já várias vezes evocada neste blogue, transcrevo, pelo seu interesse, o artigo de Chantal Verdeil, publicado no site OrientXXI, acerca do livro Erdoğan, nouveau Père de la Turquie ?, de Nicolas Cheviron e Jean-François Pérouse:



Erdogan, « nouveau père de la Turquie » ?

Une irrésistible ascension



Paru quelques mois avant la tentative de coup d’État et l’épuration toujours en cours qui l’a suivi, Erdoğan, nouveau Père de la Turquie ? de Nicolas Cheviron et Jean-François Pérouse permet d’inscrire ces évènements dans une perspective plus large, en éclairant le parcours de l’homme fort de la Turquie et les fractures qui divisent la société et la vie politique turques.


Il y a une fracture entre les héritiers d’Atatürk, « le père des Turcs » selon le surnom donné à Mustafa Kemal depuis 1934 et les partisans de Recep Tayyip Erdogan. Pourtant, les deux auteurs présentent ce dernier comme le « nouveau père de la Turquie », un qualificatif que ne renierait pas l’intéressé lui-même, qui inscrit son action dans la continuité de celle de son illustre prédécesseur. Mustapha Kemal avait œuvré pour que la Turquie accède à l’indépendance et à la modernité ; Erdogan lui aurait fait retrouver « son essence et son esprit », avec un régime de fer, conservateur sur le plan des mœurs (valorisation de la femme comme gardienne de la famille), bien plus libéral au plan économique, et affichant sans complexe ses convictions religieuses (restriction à la vente d’alcool, autorisation du port du voile dans la fonction publique et les universités, développement des écoles d’imams et de prédicateurs…). Dirigeant autoritaire d’une Turquie nouvelle que la longévité de son pouvoir a tout autant façonnée que révélée, telle est l’image qui se dégage de cette biographie solidement documentée et remarquablement équilibrée.

Pour présenter cette figure qui domine la vie politique turque depuis plus de vingt ans, les deux auteurs ont adopté un plan chronologique, évoquant successivement la « formation », l’« ascension », la « métamorphose », la « consolidation » puis enfin le « vertige » : parvenu au sommet du pouvoir, Recep Tayyip Erdogan dirige une Turquie au bord du gouffre, gagnée par la violence terroriste, entretenue par ses dissensions internes entre partisans et opposants du Parti de la justice et du développemente (AKP), entre Kurdes et Turcs… et le conflit syrien. Depuis une dizaine d’années, il s’est engagé dans un de bras de fer contre tous ceux qui pourraient contester son pouvoir : procès qui permettent d’épurer la magistrature ou l’armée, répression des manifestations comme le mouvement de Gezi, intimidation des journalistes et censure d’organes de presse. L’épuration, qui touche les différents corps de la fonction publique turque prolonge — avec une tout autre ampleur il est vrai — une politique menée depuis des mois, voire des années. Elle est soutenue par une large partie de la population qui est descendue dans les rues à l’appel du président menacé, et qui vote massivement en sa faveur. Ce sont ces succès électoraux répétés qui ont permis à Erdogan et à ses partisans d’occuper les différents rouages du pouvoir turc d’où ils peuvent désormais mener la répression.

L’expérience islamiste


Le livre s’intéresse d’abord aux premiers pas en politique de Recep Tayyip Erdogan au sein de l’Union nationale des étudiants turcs (MTTB). Cette vieille institution de la droite turque dont la création remonte à 1916, farouchement anticommuniste, se lie dans les années 1960 à la Ligue islamique mondiale et promeut alors le retour à des valeurs morales, religieuses et nationales. Dans les années 1970, elle forme bien des militants d’une « mouvance conservatrice en quête de revanche » sur le kémalisme, dont Recep Tayyip Erdogan.

Né en 1954, Erdogan est issu d’un milieu modeste. Son père, récemment immigré du Rize — une région de la mer Noire — à Istanbul travaille comme capitaine d’un bateau sur le Bosphore. Footballeur au sein de l’équipe de la Régie de l’électricité, des tramways et des funiculaires d’Istanbul, Recep Tayyip Erdogan fait ses premiers pas de militant au MTTB et y rencontre bon nombre de ses futurs compagnons de route, dont Abdullah Gül et Ahmet Davutoglu. Son ascension est inséparable de celle de l’islam politique en Turquie dont le « père », Necmettin Erbakan, fonde successivement le Parti de l’ordre national (MNP) en 1970, interdit après le coup d’État de septembre 1980 qui épargne relativement la mouvance religieuse, puis le Parti de la prospérité (Refah Partisi) en 1983. Ce dernier promeut un « ordre juste » (adil düzen), fondé sur la libre initiative et le soutien aux plus démunis dans un esprit paternaliste et charitable. Contre un capitalisme jugé « esclavagiste », il exalte l’être humain, la justice et le droit divin, celui qu’invoquent les « opprimés » au plan religieux par la laïcité kémaliste.

Si Recep Tayyip Erdogan ne fait pas partie des membres fondateurs du Parti de la prospérité, il y adhère et devient très vite un de ses cadres pour la région d’Istanbul. Les campagnes électorales qu’il y mène lui offrent l’occasion d’imprimer sa marque. Recep Tayyip Erdogan n’hésite pas à faire appel à des femmes militantes, voilées ou non, pour mieux conquérir les électeurs au-delà des cercles religieux conservateurs. En 1994, son activisme paie : il est élu à la mairie d’Istanbul, une ville qui accueille à l’époque 350 000 migrants chaque année, nécessitant la construction de 80 000 logements, 50 écoles primaires, 16 collèges, 6 lycées (selon un rapport publié par la mairie, cité p. 147).

Necmettin Erbakan est quant à lui nommé premier ministre en juillet 1996. Mais le 28 février 1997, le Conseil de la sécurité nationale met fin à l’expérience islamiste. Le Parti de la prospérité est contraint de céder aux exigences de l’armée et de la magistrature. Il est supprimé en 1998, et Recep Tayyip Erdogan, accusé d’avoir tenu des propos antikémalistes, envoyé en prison. Sa courte détention est l’occasion d’une « métamorphose ». Il rompt avec son « maître » Erbakan, et fonde le Parti de la justice et du développement (AKP), qui sera sa machine de guerre pour atteindre le sommet du pouvoir.

Une corruption généralisée


La classe politique est alors complètement discréditée : le séisme d’octobre 1999, qui a fait près de 20 000 morts a mis en lumière des vices de construction synonymes de corruption généralisée. L’instabilité politique a des conséquences dramatiques sur l’économie : dévaluation de la monnaie, forte inflation, rebond du chômage qui dépasse 10 % de la population active en 2002. Aux élections générales de novembre 2002, le nouveau parti rafle plus de 34 % des suffrages. Recep Tayyip Erdogan devient premier ministre de Turquie le 14 mars 2003, poste qu’il va mettre à profit pour consolider son pouvoir en réduisant l’opposition laïque héritière du kémalisme, en attaquant successivement ses différents bastions que sont l’armée et la haute magistrature.

Après quelques années d’ouverture démocratique (2003-2007) qui coïncident avec de nouvelles démarches en faveur de l’entrée de la Turquie dans l’Union européenne, l’heure est à la « confrontation » (2007) à coup de grands procès ( Ergenekon)1, tandis que les victoires électorales de l’AKP lui permettent d’occuper tous les hauts postes de l’État. Recep Tayyip Erdogan acquiert une stature internationale, proche un moment de Silvio Berlusconi et de Vladimir Poutine, artisan avec Ahmet Davutoglu d’une politique « néo-ottomane » tournée vers l’Asie centrale et le Proche-Orient, héraut de la cause palestinienne dans le monde arabe après l’attaque de la flotille destinée à briser le blocus de Gaza en mai 2010.

Proche des milieux d’affaires dont plusieurs figures ont financé les études de ses enfants en Occident selon une pratique courante de la haute bourgeoisie turque, il met en scène son ascension lors des somptueuses cérémonies de mariage (plusieurs milliers d’invités) qui scellent des alliances avec cette même classe d’entrepreneurs.

D’autres transformations moins visibles sont pointées du doigt par les auteurs dans une conclusion remarquablement équilibrée. Les identités secondaires se manifestent davantage, l’Assemblée compte désormais trois députés d’origine arménienne et une chaîne publique en kurde a été lancée. Avec les Kurdes, Recep Tayyip Erdogan a oscillé entre l’ouverture au nom d’une commune appartenance à l’islam sunnite et la répression au nom d’un nationalisme étroit.

Le temps du raidissement


Le début des années 2010 est pourtant moins favorable à Recep Tayyip Erdogan : les révolutions arabes mettent à bas sa politique « néo-ottomane ». Il rompt avec Bachar Al-Assad, puis avec l’Égypte reprise en main par les militaires. Son régime est accusé de complaisance avec les djihadistes, et doit faire face à de nouvelles oppositions : celle de la confrérie de Fethullah Gülen dont il a longtemps été un allié et celle qui s’est cristallisée autour de la défense du parc de Gezi à Istanbul. La seconde est sévèrement réprimée, la première réduite par une épuration de corps d’État particulièrement « infiltrés » (magistrature, police) tandis que ses médias sont muselés. Ce raidissement est perceptible jusqu’à ces derniers mois, comme en témoignent les menaces qui planent sur le monde universitaire, les milliers d’arrestations et d’emprisonnement arbitraires d’opposants, et plus généralement l’effrayant recul des droits humains. La démocratisation espérée au début des années 2000 paraît bien loin.

En août 2014, Erdogan est élu président de la Turquie avec des pouvoirs très étendus. En juillet 2016, un coup d’État fait vaciller son pouvoir pendant quelques heures. L’énorme épuration en cours dans tous les corps de l’État ne devrait que le consolider et faire de lui le « père » d’une société profondément bouleversée.

 NDLR. Les «  procès Ergenekon  » désignent un ensemble de seize procès monstres, débutés en 2008 contre un réseau composé de militaires et civils accusés de former un État parallèle. Le procès Balyoz, en 2010, concerne des militaires accusés de fomenter un coup d’État contre le gouvernement AKP. Les procès KCK se déroulent à l’encontre des journalistes, avocats et élus politiques du KCK accusés d’être le paravent civil du PKK.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

LIBERDADE, IGUALDADE, DELITO DE SOLIDARIEDADE



(Clique na imagem para aumentar)

Pelo seu interesse, e  não estando disponível online, publicamos a crónica de Raphaël Glucksmann na página de "L'OBS" (nº 2723, de 12 a 18 de Janeiro 2017) :

Um Estado que entrega a Legião de Honra a um príncipe wahhabita, a um autocrata russo ou a Isabelle Balkany e envia a julgamento Cédric Herrou, camponês do Vale da Roya porque veio ajudar os migrantes, é verdadeiramente «republicano»? Pode falar-se de «modelo social» quando «coabitam» 2 800 000 habitações vazias e 140 000 sem abrigo?

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

MÁRIO SOARES POR JEAN DANIEL





No nº 2723 de "L'OBS" (12 a 18 de Janeiro 2017), Jean Daniel evoca Mário Soares:

Notre ami Mário Soares 

Peu de lecteurs et même d’amis peuvent se douter des liens qui nous unissaient avec Mario Soares, le chef de l’Etat portugais qui vient de nous quitter. Un moment donné, nos locaux étaient rue des Pyramides, il arrivait que l’ambassade du Portugal adresse chez nous certaines personnalités intéressées par cette «trop chère Révolution des œillets». Déjà, le titre était à la fois un vers de Sully Prudhomme et de Verlaine. Evidemment, nous étions en 1974, dans la nostalgie et le regret, et nous avons cru voir revenir Mai-68. Entre-temps, on s’était habitué à voir régner Salazar au Portugal comme Franco en Espagne sans apercevoir les signes d’une impatience insurrectionnelle. Le Portugal avait alors avec la France une situation coloniale commune. La guerre d’Algérie n’était pas terminée lorsque les Portugais régnaient en Angola, au Mozambique et en Guinée-Bissau. Les chroniqueurs du colonialisme français étaient très attentivement suivis par les militaires des colonisateurs portugais.

 Un sourire large et accueillant 

 Mais revenons au cher Mario, dont la disparition met notre journal véritablement en deuil. Tous les journalistes voyageurs ou aventuriers ont l’occasion de croiser des fortes personnalités, des hommes hors du commun, mais pas souvent des chefs d’Etat qui défient la postérité. 

Lorsque j’ai rencontré Mario Soares, il était en exil en France entre deux séjours en prison dans les colonies. 

 Je ne savais rien de lui. Et puis je l’ai revu lorsqu’il est revenu pour sa Révolution des œillets. Ce fut un coup de foudre, le seul peut-être que j’aie eu avec un homme d’Etat. Comme si nous avions été intimes auparavant, il savait tout sur moi. Je savais peu de choses sur lui. J’avais quelques années de plus que lui et il me traitait en aîné, ce qui m’intimidait. Et puis, au fur et à mesure des événements se sont succédé, il m’a impressionné. Il ressemblait à un personnage de Simenon, comme un "Français radical-socialiste" avant que l’on dise « social-démocrate ». Il avait un sourire large, accueillant, et capable soudain de se crisper, surtout quand il était question des communistes ou des extrémistes. Il avait comme rival une personnalité remarquable, Alvaro Cunhal, d’une grande allure, d’une grande beauté, autorité implacable. Claude Roy, le grand romancier, notre collaborateur, l’admirait, et Mario s’en impatientait. 

Socialistes et communistes 

 J’ai mille choses à raconter sur mon ami Mario. Une seule aujourd’hui, car elle n’est pas tellement reconnue. C’était à l’époque où les communistes et tous les groupes extrémistes de frondeurs, de casseurs, de révoltés donnaient à la révolution sa jeunesse, sa gaîté, son idéal. Ailleurs, en Europe, ils avaient des solidarités multiples, notamment en Allemagne, en Italie, mais aussi en Espagne. Les communistes portugais ont commencé à collaborer d’une manière organisée avec les Russes qui ne cessaient d’observer la faiblesse croissante des révolutionnaires et qui avaient infiltré plusieurs régions militaires. Après un voyage inattendu, Henri Kissinger fit un rapport : selon lui, le Portugal était déjà perdu pour l’Occident, car les Russes, eux, n’avaient pas perdu de temps. Les réactions américaines n’ont pas été immédiates. En revanche, le conflit recommençait entre Portugais.  

Au journal, nous étions très attentifs et préparés à nous inquiéter. Nous avions des amis partout, qui d’ailleurs n’étaient pas d’accord entre. Il reste que, une nuit d’émeute, un colonel que nous allions souvent visiter et qui a fini bien plus tard comme ambassadeur à l’Unesco, m’a dit que je pourrais rendre service à mon ami Mario Soares. C’était le colonel Melo Antunes (homonyme du romancier). Il me chargeait de faire comprendre qu’il ne fallait pas que mon "leader socialiste" prît des risques de passer la nuit soit à Lisbonne, soit même dans les environs. Un complot se préparait où les Russes n’étaient pas étrangers, et où se mêlaient à la fois les officiers extrémistes et les communistes. Je me suis acquitté de cette mission avec l’impression de participer à l’Histoire, sans me rendre compte qu’il s’agissait de son meilleur côté. 

Pendant ce temps-là, à Paris, il y avait autour de François Mitterrand des groupes de personnalités hostiles à Mario Soares parce qu’il était socialiste, et les autres farouches partisans pour la même raison. Cette querelle, bien dans la tradition socialiste, nous sépara Jean-Pierre Chevènement et moi. Il n’en est rien resté, sauf que les amis de Chevènement ont sincèrement cru qu’ils protégeaient la démocratie au Portugal. 

Un démocrate passionné 

Alors, voilà le mot, « démocratie », sur lequel je voulais insister et finir. Il est partout question des racines et de la philosophie de la démocratie. Les uns la disent déjà morte et les autres l’ont toujours cherchée. Personnellement, l’appellation de "démocrate" s’est toujours identifiée à Mario Soares. Parce qu’il était un passionné naturel de la liberté, parce que la fraternité était un don chez lui, et parce que l’égalité ne le conduisait pas à la violence. Nous aimions beaucoup Mario Soares, aujourd’hui nous l’aimons plus encore, car dans l’état où nous sommes c’est un miracle de rester un exemple. 

Jean Daniel
  
Nota: este texto transcrito do "site" não é exactamente igual ao publicado em papel na revista.