quarta-feira, 30 de novembro de 2016

ANTÓNIO FERRO, UMA VEZ MAIS




Acabou de ser publicado um novo livro sobre António Ferro: António Ferro - Um Homem por Amar, da autoria de Rita Ferro, sua neta, e classificado como romance.

Não é ainda (e também não era essa a intenção da autora) a grande obra sobre António Ferro, que se aguarda, mas é um livro que reúne impressões pessoais de alguém que, não o tendo conhecido (nasceu já depois da sua morte), pode todavia testemunhar preferencialmente, devido aos laços familiares, acerca da figura incontornável daquele que foi avant la lettre o primeiro ministro da Cultura em Portugal. E fá-lo com objectividade, apesar da proximidade genealógica, num registo íntimo, real e ficcionado, colocando parte da narrativa na boca do protagonista. A recriação por Rita Ferro de aspectos da vida de António Ferro, a partir das palavras do próprio, é um exercício arriscado mas resulta plenamente.

Ao longo de 300 páginas (o livro contém mais de 500, mas inclui, em apêndice, dezenas de cartas, muitas inéditas, de e para António Ferro [algumas para Salazar], uma cronologia do "biografado", uma bibliografia e uma antologia de citações), Rita Ferro traça a carreira do avô, desde a infância, o tempo do "Orpheu", a convivência com figuras da época, como Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, até à actividade como secretário da Propaganda Nacional e o "exílio" diplomático como ministro plenipotenciário em Berna e em Roma.

Não se trata, todavia, de uma biografia oficial, longe disso. Mas da reinvenção de um percurso singular anacronicamente evocado (como refere a autora), traduzindo a ideia que Rita Ferro concebeu do avô, baseada não só nos testemunhos documentais mas nos testemunhos orais de quem com ele privou, e especialmente nas informações recolhidas "no seio da família". O que permite, também , certos "ajustes de contas".

Sabíamos já muitas coisas a respeito de António Ferro, mas este livro, qual "janela indiscreta", lança um olhar sobre aspectos até aqui ignorados, ou silenciados, da sua vida. E ninguém melhor para o fazer do que Rita Ferro, além de neta, escritora, e senhora de grande perspicácia. Muito interessante a forma como é referida a relação entre Ferro e sua mulher Fernanda de Castro: grande cumplicidade mas vivências diferentes, a ponto de habitarem aposentos distintos na mesma casa da Calçada dos Caetanos. Também de assinalar a referência às visitas da casa, pessoas que não obedeciam, quer no plano político, quer no dos costumes, à norma vigente na época e que causavam certa estranheza a Salazar.

As relações de Ferro com as gentes do "Orpheu" são tratadas com algum desenvolvimento, nomeadamente quando Rita Ferro alude a que a actividade literária do avô pode ter sido ensombrada pelas figuras tutelares que se agigantavam à sua volta (p. 119), em especial Fernando Pessoa, com quem esfriaria provisoriamente relações, depois do que este escrevera sobre o pretenso atentado contra Afonso Costa. Também o Manifesto que Almada Negreiros publicara contra Júlio Dantas provoca descontentamento em Ferro. Júlio Dantas, mestre da língua portuguesa, fora objecto de um ataque violento, ainda por cima com erros de ortografia, por parte de Almada, embora este pretextasse que apenas pretendia atingir o establishment literário. Tratou-se de uma atitude irreverente, própria de um Almada que toda a vida cultivou o exibicionismo e a oscilação de convicções ideológicas, e cujo objectivo era não só atingir a Academia, que Dantas exemplarmente representava, mas obter para si mesmo uma centelha de notoriedade. É curioso que os intelectuais que mais se encarniçam contra as academias são aqueles que estão sempre à espera de uma primeira oportunidade para nelas ingressarem. Estas atitudes de Pessoa e Almada levaram Ferro (segundo a neta), a afastar-se da revista, que entretanto acabaria a sua existência (foram publicados apenas dois números) por falta de financiamento do pai de Mário de Sá-Carneiro.

Também os pintores Carlos Botelho e Eduardo Malta, que tanto deveram a Ferro, não hesitaram em manifestar a sua ingratidão, o segundo em duas cartas a Oliveira Salazar em que se apouca a figura de Ferro (pp. 309 e 457)

Personagem central no livro é obviamente o próprio Salazar, a quem Ferro protestaria sempre a sua indefectível adesão, mesmo quando não se identificava completamente com a orientação do presidente do Conselho de Ministros. António Ferro, homem de pensamento e de acção, propõe-se entrevistar Salazar para dar a conhecer ao país as ideias do que era, no seu entender, o Homem Providencial, depois do período agitado da Primeira República. As entrevistas foram um sucesso e Ferro sugere a criação de um órgão para divulgar a obra do Estado Novo, então nos primórdios, e para desenvolver uma Política do Espírito (segundo a expressão de Paul Valéry). E ninguém melhor do que ele para essa missão. É assim criado o Secretariado da Propaganda  Nacional (1933), chefiado por Ferro, que passou a designar-se em 1945 Secretariado Nacional de Informação. Tudo isto é do conhecimento público e não me deterei em pormenores. Em 1947, António Ferro, (supostamente) cansado de mais de dez anos de actividade e de incompreensões e calúnias, pede a Salazar um posto no estrangeiro, de preferência Paris. Salazar envia-o para Berna (1950), lugar que intimamente detesta. Em 1954, é nomeado ministro plenipotenciário em Roma, vindo a falecer em Lisboa, em 1956, na sequência de uma intervenção cirúrgica.

Como a autora evidencia, a relação de Salazar com António Ferro aproveitou a ambos. O presidente do Conselho aproveitou-se de Ferro para a propaganda do Regime, através de um campo que lhe era alheio, as manifestações culturais, ainda que a palavra "propaganda" não tivesse então a precisa conotação política que mais tarde lhe foi atribuída. António Ferro aproveitou-se de Salazar para realizar uma obra de divulgação cultural, acção que lhe era particularmente cara, ultrapassando largamente a missão política de que estava incumbido, incentivando o modernismo, apoiando os criadores, desenvolvendo uma actividade que cobria os mais variados géneros, do teatro e do cinema, às artes plásticas e à literatura, sem esquecer o turismo. Foi a obra de António Ferro que emprestou algum brilho à aridez da política salazarista, prioritariamente ocupada com os aspectos financeiros.

Há quem, por miopia política ou má-fé, acuse António Ferro de "comprar" com os seus subsídios os artistas mais notáveis da época para que as suas obras contribuíssem para o engrandecimento do Regime. Esquecem-se de que sem o apoio do Secretariado muitos desses artistas jamais teriam alcançado a projecção que posteriormente vieram a adquirir.

Já escrevi várias vezes sobre António Ferro neste blogue, nomeadamente aqui, aquiaqui. Não repetirei, por isso, o que disse nos posts anteriores. As linhas que aqui deixo pretendem tão só dar notícia do livro agora publicado e chamar a atenção do leitor para uma obra diferente na bibliografia passiva de António Ferro.

O livro refere também curiosos aspectos da vida de Fernanda de Castro, sua mulher, e especiais referências de António Quadros, seu filho, figura grada do pensamento filosófico português do nosso tempo, autor de uma obra ainda não suficientemente divulgada e de quem tive o privilégio de ser amigo.

Mas mais importante do que digo acima será provavelmente tudo o que não escrevi.

sábado, 26 de novembro de 2016

FIDEL CASTRO




Fidel Castro, líder da Revolução Cubana e chefe carismático do país durante meio século, morreu esta madrugada em Havana, com 90 anos de idade.

Figura controversa, El Comandante marcou indelevelmente a história política ocidental da segunda metade do século XX.  Com a sua morte, desaparece o último grande vulto do movimento comunista e o último estadista de renome que, embora retirado há dez anos, se destacava no panorama amorfo e medíocre da cena internacional.

Amado e odiado, Fidel Castro é uma personalidade incontornável para o estudo das transformações económicas e sociais verificadas após o fim da Segunda Guerra Mundial. O seu activo e o seu passivo são enormes. Autor de modificações profundíssimas em Cuba, que configuraram um país diferente, ousou enfrentar os Estados Unidos da América, que impuseram à ilha um bloqueio desumano e inconsequente, que prejudicou largamente a população e nada contribuiu para a queda do regime.

Para alcançar os objectivos que as suas convicções impunham, não hesitou em utilizar métodos que condenamos mas que ele julgava indispensáveis à criação de um Estado socialista em Cuba.

As suas reformas, que retiraram da pobreza milhões de pessoas, efectuaram-se através de grande repressão, tanto maior quanto foram sistematicamente sabotadas pelas interferências americanas. A redução drástica da taxa de mortalidade infantil, a erradicação do analfabetismo, a educação e saúde gratuitas, permitiram um desenvolvimento social que teve como contraponto a supressão da liberdade de imprensa, a eliminação do direito de expressão que colidisse com a orientação oficial, o controle insuportável da vida privada e a penalização dos "atentados" aos costumes.

No plano económico, a rigidez da planificação e estatização, que obteve inicialmente bons resultados em alguns sectores, viria a revelar-se nociva, pela absoluta exclusão da iniciativa privada mesmo ao nível individual, situação que seria reconsiderada num passado mais recente.

Cabe aos especialistas o balanço dos esplendores e misérias do regime cubano. Mas é inegável o fascínio que Fidel Castro exerceu sobre os seus contemporâneos, desde os tempos de Serra Maestra até à sua morte. Durante décadas, os principais dirigentes mundiais encontraram-se com Fidel Castro e até os três últimos papas, João Paulo II, Bento XVI e Francisco, não recearam visitar Havana e encontrar-se com o líder ateu.

Até mesmo Marcelo Rebelo de Sousa, com a premonição de um breve desenlace, se apressou a rumar a Cuba para uma derradeira entrevista com El Comandante.

Tendo preparado a sua sucessão, não se esperam surpresas de relevo com a morte de Fidel Castro. O regime começou a adaptar-se aos novos tempos ainda sob a sua orientação. O turismo, que é hoje, por razões que nos dispensamos de mencionar, florescente em Cuba, concorreu também para o intercâmbio que o bloqueio pretendia evitar.

Dito isto, os funerais de Fidel Castro constituirão certamente o último acto público de um grande actor político, que ocupou a cena mundial durante meio século.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

HOMENS BONS E HOMENS MAUS



Acabei de ler, a conselho de um amigo, o romance Homens Bons, tradução portuguesa de Hombres Buenos (2015), penúltimo livro publicado do escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte (n. 1951). Conheço razoavelmente a literatura de língua castelhana (de Espanha e das Américas), clássica e contemporânea, onde figuram obras notáveis, mas foi a primeira vez que li um livro de Pérez-Reverte, autor de cerca de quarenta romances e novelas, traduzido em trinta idiomas e, desde 2003, membro da Real Academia Española.


Começando a sua actividade como repórter de guerra, a partir dos anos 90 Pérez-Reverte passou a dedicar-se exclusivamente à escrita, num registo entre o policial e o romance histórico (erudito). Muitos dos seus livros resultaram autênticos best-sellers e o seu nome tornou-se mundialmente conhecido.


O enredo do romance de 500 páginas pode resumir-se numa dúzia de linhas. Em finais do século XVIII, Hermógenes Molina e Pedro de Zárate, membros da Academia Espanhola, são enviados por esta instituição a Paris, com a missão de adquirirem a primeira edição da Encyclopédie francesa (28 volumes), obra proibida em Espanha, e mesmo em França, mas cuja compra fora autorizada pelo rei Carlos III, soberano discretamente iluminado. Destina-se a mesma à ilustração dos académicos e a fornecer contributos para a nova edição do Dicionário da Academia.


Uma das características mais interessantes do livro é que Pérez-Reverte intercala na narrativa o making-of do romance. É, aliás, a partir da contemplação da Encyclopédie na biblioteca da Academia que lhe surge a ideia de descrever, a partir das actas existentes, o que foi a aventura de trazer de França tão volumosa e preciosa encomenda. Tarefa facilitada pelo facto de ser ele mesmo membro da Academia, fundada em 1713 por Juan Manuel Fernández Pacheco, marquês de Villena, sob o patrocínio do rei Felipe V.


Estamos, pois, face a um romance, não propriamente um romance histórico mas um romance baseado numa história real a que a efabulação do autor confere perfeita verossimilhança. Nos intermezzi ao longo do livro, Reverte vai-nos contando como foi construindo a narrativa, as fontes que consultou, os livros e mapas que procurou, as deslocações que teve de realizar, inclusive a visualização aérea de regiões através dos mapas do Google! Todo este trabalho de pesquisa constitui uma história dentro da história e revela as qualidades extraordinárias do autor, a sua vastíssima cultura e a invejável capacidade para prender o leitor da primeira à última página.


A nobre missão dos dois a académicos, dois "homens bons", conforme a acta da sessão plenária da Academia onde se encontra registada a sua designação, vai sofrer vários contratempos, pois dois dos seus colegas, um, católico ultramontano, o outro, ateu progressista, decidem contratar um sicário para lhes dificultar a tarefa. Por quaisquer meios. Importa, para os seus colegas, por razões diametralmente opostas, que a obra não chegue a Espanha. Para um porque o seu conteúdo é demoníaco, um ataque ao Trono e ao Altar, para o outro, porque a sua divulgação iria retirar-lhe o exclusivo de ser ele o paladino das ideias progressistas no reino. Enfim, dois tratantes, conjunturalmente aliados pela força das conveniências.


As peripécias da viagem e a estada em Paris ocupam meio milhar de páginas. Por isso, apenas breves apontamentos. Encontrado um exemplar da Encyclopédie à venda, por morte do seu proprietário, os académicos decidem adquiri-lo e um deles (o outro estará ausente por motivos de que a seguir falarei) acompanhado de uma personagem bizarra que conheceram na Embaixada de Espanha em Paris, o abade Bringas, vai levantar o dinheiro ao banco, sendo roubado e agredido em plena rua pelo bandido a soldo e seus sequazes.


Refira-se agora que o outro académico, o almirante Pedro de Zárate recebera um convite galante para passar a manhã da ida ao banco em casa de uma senhora da sociedade, Margot Dancenis, e aceitara-o. [Devo dizer que me espanta esta opção do autor, já que o perfil do almirante é descrito ao longo do livro como um homem austero e rigoroso cumpridor dos seus deveres. Não deveria ter consentido que o outro académico, pessoa muito menos capaz de defender-se em caso de ataque, se tornasse portador de tão avultada quantia (mil e quinhentas libras da época - não diz Reverte, nem eu sei, a quanto equivaleriam nos nossos dias). O estrito sentido do dever impunha-lhe a declinação do convite para aquele dia].


Continua a história com os académicos, privados do dinheiro para a aquisição da já apalavrada e ambicionada obra, numa visita à Embaixada de Espanha, fazendo um relato ao embaixador do assalto sofrido e pedindo um empréstimo para a satisfação do compromisso assumido. O diplomata, o conde de Aranda, que é sovina, recusa polidamente, mas o almirante invoca, por palavras, toques e sinais (não os autênticos mas os suficientes para a narrativa), a sua condição de maçon, a que o embaixador, também ele franco-maçon, corresponde, autorizando o empréstimo da almejada quantia. Aqui, Pérez-Reverte (não sei se ele é maçon) evoca a solidariedade maçónica e, en passant, presta homenagem à  Venerável Ordem.


Obtida a obra, novos incidentes no regresso a Espanha, graças ao famigerado meliante, com mortos e feridos mas com os nossos académicos sãos e a Encyclopédie salva. Finalmente, a justa recepção na Academia, a exposição da obra e a frustração dos seus antagonistas.


Ao longo do livro, Reverte, através da História, ajusta contas com a Espanha actual, critica indirectamente políticos e instituições, mesmo Rajoy (sem o citar) a quem acusa de nunca ter lido um livro. Denuncia a Espanha retrógrada do século XVIII e a sua tentativa de abafar o Iluminismo, e projecta no presente o eterno confronto entre as Duas Espanhas, de que tão bem nos falou Fidelino de Figueiredo.


Apesar de traduzido segundo o sinistro Acordo Ortográfico de 1990, Homens Bons é um livro interessante, culto e estimulante que bem merece o tempo gasto com a sua leitura.


sábado, 12 de novembro de 2016

MALEK CHEBEL




Morreu esta noite, com 63 anos, o grande antropólogo argelino Malek Chebel, cujas obras sobre a sexualidade no Islão são fundamentais e indispensáveis a qualquer estudioso do tema.

Possuo quase todos os livros deste especialista do mundo árabo-muçulmano, das religiões e da sexualidade.

Partilho uma entrevista concedida em 28 de Março de 2002, ao "Nouvel Observateur":

  • Malek Chebel, qui était né en 1953 à Skikda, en Algérie, est mort dans la nuit du 11 au 12 novembre 2016. 
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  • Psychanalyste, philosophe, il était surtout connu pour ses travaux comme anthropologue des religions, spécialiste du monde arabo-musulman et adepte d'un "islam des Lumières".
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  • Auteur de nombreux essais, depuis "le Corps en islam" (PUF, 1984), il avait notamment publié un "Dictionnaire amoureux de l'islam" (Plon, 2004), un "Dictionnaire encyclopédique du Coran" (Fayard, 2009) ou encore une vaste anthologie consacrée à "l'Erotisme arabe" (Bouquins, 2014). 
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  • En 2002, à 48 ans, il publiait "le Sujet en islam" (Seuil). L'occasion de faire le point sur ses travaux, dans cet entretien au "Nouvel Observateur". 

 Malek Chebel : "La vocation de mon travail a consisté à réhabiliter le désir féminin"

« Passeur de sens entre l'Orient et l'Occident», le psychanalyste et anthropologue Malek Chebel est surtout connu pour ses écrits fondateurs sur la sexualité en Islam (1). Originaire de Skikda, ville côtière de l'Est algérien, il s'est installé en France en 1977 pour suivre les cours de Jean Laplanche et questionner l'univers arabo-musulman. A 48 ans, il publie son quatorzième ouvrage, «le Sujet en islam», aux Editions du Seuil.

Le Nouvel Observateur. Depuis vingt ans, vous travaillez à une «Histoire des mentalités dans le monde arabe» dont vous nous livrez aujourd'hui le sixième et avant-dernier tome: «le Sujet en islam». N'était-il pas audacieux d'y pointer l'intime relation que noue le gouvernement de la cité musulmane avec la sexualité de ses leaders politiques les plus charismatiques? 

Malek Chebel. Certainement, mais mon regard n'est pas celui du théologien. Hors de toute polémique, je me situe en observateur, en historien. Ce livre peut paraître offensant pour les musulmans, car j'évoque des versets du Coran qui viennent avaliser le désir du prophète Mohammed. Son mariage «de volonté divine» avec la belle Zaïnab, la femme de son fils adoptif, en est un exemple éloquent. Depuis le mariage avec les femmes des fils adoptifs a été autorisé. Mon souci dans ce livre a été de montrer le visage humain du Coran. Or c'est «le» grand scandale.

Vous n'en êtes pas à votre premier scandale, depuis vingt ans que vous parlez orgasme, excision, hymen, homosexualité?

Effectivement, au départ mes conférences en Sorbonne se terminaient en véritables pugilats. A présent, on me présente comme un «libérateur» de la femme. Car le combat que je mène contre les formes archaïques de l'expression de l'islam passe forcément par la femme, cet épicentre de la transgression, lieu de tous les complexes, refoulements et blocages. Pour le machiste, pour le misogyne musulman, la femme n'était qu'un «entre-cuisses», une momie privée de jouissance. La vocation de mon travail a consisté à réhabiliter le désir féminin. 

Or le droit à la jouissance donne accès au statut de sujet? 

A la liberté et au sujet. Dès l'instant où une personne commence à jouir, à être maîtresse de sa jouissance, elle exprime son autonomie. Et dès qu'elle est sujet, elle n'est plus un bon soldat pour la morale collective et archaïque. C'est donc à partir de cet individu acteur que l'islam se réformera et qu'il gagnera la bataille face à tous les démagogues, théologiens et imams corsetés jusqu'au cou. Pour l'instant, le sujet n'existe dans l'univers arabe que sous la forme d'un potentiel qui n'a pas encore révélé son étendue. Son affranchissement est contrecarré par la prééminence du divin sur l'humain et par l'obéissance qui conditionne, puis verrouille, la foi des fidèles. 

Quel espoir nourrissez-vous pour l'islam de demain? 

Je propose que l'islam soit une chance et non une contrainte ou un enfermement. Cherchons les espaces de liberté et d'intelligence qu'il nous propose, plutôt que le rigorisme d'un dogme dont on connaît les effets réducteurs. Un musulman nouveau est sans doute en train de naître sous nos yeux. Et son double défi consiste à gagner sa modernité sans perdre sa foi.
En France, par exemple, c'est par la part inaliénable de la citoyenneté que le musulman aspire à s'intégrer. Et il se méfiera même de ceux qui veulent le cantonner à la mosquée, parce que c'est nier chez lui la possibilité qu'il puisse être laïque, aimer la laïcité et la défendre en tant que telle. Finalement, le gage que la modernité a pris sur l'islam, c'est que le sujet musulman sera fabriqué ici en Occident avant qu'il n'advienne là-bas. 
Propos recueillis par Marie Lemonnier
(1) «La Psychanalyse des Mille et Une Nuits», Payot.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O CEMITÉRIO DA SÉ




Pelo seu interesse, transcrevemos o artigo publicado pelo jornal PÚBLICO :

Que histórias têm para contar os 70 cadáveres encontrados junto à Sé de Lisboa?


Os trabalhos destinados à instalação de um elevador de ligação ao Campo das Cebolas revelaram a existência de um cemitério que poderá remontar à segunda metade do século XII.

*****

O espaço é exíguo, não ultrapassando os 15 m2, mas no seu interior foram já descobertos perto de 70 cadáveres, que se pensa terem sido sepultados antes do terramoto que abalou Lisboa em 1755. Qual terá sido a causa de morte destas pessoas? Padeceriam de alguma doença? Qual seria a sua idade? E a sua actividade profissional?

Descoberta feita, estas são algumas das muitas perguntas às quais se procurará agora dar resposta. “Vai ser feita uma análise osso a osso”, explica o director científico dos trabalhos arqueológicos que estão a decorrer nas Cruzes da Sé, do outro lado da rua do monumento nacional.

Esse trabalho, explicita José Sendas, será coordenado por uma antropóloga, que através das ossadas encontradas tentará perceber que idade tinham as pessoas, o que esteve na origem da sua morte, se tinham “doenças, patologias, fracturas”. E até, diz o arqueólogo, “qual era o tipo de trabalho que tinham”, algo que será possível perceber, nalguns casos, “pelo desgaste ossário e por marcas” que venham a ser detectadas.

Igual esforço será colocado na datação das dezenas de cadáveres descobertos no local. Para tal, sublinha José Sendas, as moedas que foram encontradas junto a alguns deles (e que foram já enviadas para laboratório) constituirão um contributo valioso.

Numa análise que sublinha ser “preliminar”, o arqueólogo admite que o cemitério agora revelado “possa ter sido abandonado com o terramoto” de 1755. “Em potência podemos ter um cemitério a partir da segunda metade do século XII”, admite, acrescentando que dada a localização em causa “não seria de estranhar” que abaixo da área que agora está a ser explorada haja “vários níveis” de deposição de cadáveres.

O director científico dos trabalhos arqueológicos destaca que mesmo ali ao lado fica a Sé de Lisboa, uma igreja que teve “uma importância fulcral” ao longo de toda a história da cidade. “Ainda que fosse previsível a localização de um cemitério associado à Sé, não existe qualquer estudo ou documento que comprove que existia aqui”, refere.

José Sendas observa ainda que apesar de a área escavada ter menos de 15m2 foram nela encontrados cerca de 70 cadáveres. “É um espaço mesmo exíguo. Temos uma intensa utilização enquanto cemitério”, conclui, enquanto explica que num dos limites da área está agora à vista um muro que “surge na planta da cidade de 1540”.

Além das já referidas moedas, nas Cruzes da Sé foram também encontrados objectos como alfinetes de cabelo e outros alfinetes que se supõe serem de mortalhas que envolviam os corpos sepultados. No local há ainda várias lápides. José sendas admite que algumas delas possam ali estar “desde o século XII, XIII” e tenham sido “reaproveitadas ao longo dos séculos”.

Já fora do poço que foi escavado, e no qual na manhã de sexta-feira estavam à vista vários cadáveres (incluindo o de uma criança), há vários elementos pousados no chão, enquanto decorre o processo de estudo pelos arqueólogos da empresa Arqueologia e Património.

Entre eles está “uma tampa de sepultura”, na qual é visível, como destaca o director dos trabalhos, “uma sigla do pedreiro” que a terá talhado. Ao lado está uma estela funerária “com uma cruz de Malta”, também designada por “cruz românica ou patada”.

José Sendas não tem dúvidas de que “o conhecimento científico sobre a cidade que esta obra traz é imenso”. Destacando que o trabalho em curso “exige muito método, muita paciência” e um cuidado especial por se estar “a tratar com pessoas”, o arqueólogo reconhece que ele não estará concluído tão cedo.

“Ainda nos faltam muitos séculos de história”, remata, lembrando que foi junto da Sé de Lisboa (e também do Castelo de São Jorge) que foram recuperados os mais antigos vestígios da cidade, provenientes dos séculos VI e V antes de Cristo.

A visita do PÚBLICO às escavações arqueológicas foi acompanhada pelo presidente do conselho de administração da Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa (Emel), Luís Natal Marques, e por um dos seus vogais, Jorge Oliveira. Nas Cruzes da Sé, a empresa pretende instalar um elevador que fará a ligação às Escadinhas das Portas do Mar, junto ao Campo das Cebolas, e que se integra no Plano Geral de Acessibilidades Suaves e Assistidas à Colina do Castelo que a Câmara de Lisboa está a desenvolver.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

E SE O ÊXODO DO EGIPTO NÃO EXISTIU?

 

Pourquoi ne trouve t-on aucune mention des pyramides d’Egypte dans la bible ?

 

Et si toute l’histoire de l’exode d’Egypte n’était qu’une fadaise et si nous pouvions le prouver ?

Je ne me rappelle pas une époque où je n’ai pas été mal à l’aise au sujet de l’histoire de l’exode des israélites d’Egypte. En fait, mal à l’aise est une sous-estimation, car j’ai toujours été vraiment irrité par cette fameuse histoire de Moïse et le pharaon d’Egypte. Quelque part, ce conte israélite ne semblait pas coller avec l’histoire ancienne de l’Egypte, ni avec ma façon de voir la chose. A l’encontre de bien des gens, je n’ai jamais pu accepter cette incroyable conte comme vérité.

A chaque fois qu’on prononce le mot “exode”, tout le monde, inconsciemment et instantanément reconnaît l’histoire des Israélites fuyant la poigne du Pharaon sanguinaire, emmenés par Moïse hors d’Egypte. Grâce à l’église, la synagogue, la mosquée et bien sûr les films d’Hollywood, l’histoire de l’exode (biblique) s’est profondément ancrée dans l’inconscient collectif des masses, si profondément que l’histoire de Moïse et du Pharaon est devenue presque une vérité inamovible que tout le monde croit s’être déroulée dans l’ancienne Egypte.

Mais en fait, rien dans cette histoire et son contexte n’indique que ceci s’est produit en Egypte, mis à part peut-être la fausse association entre le mot “pharaon” et “roi” d’Egypte.

De la même manière, il n’y a rien dans les archives de l’ancienne Egypte ou dans ses traditions orales qui ne fasse ne serait-ce qu’allusion à ce conte de Moïse se produisant en Egypte. Plus choquant même est le fait que les archives de l’Egypte antique ne se réfèrent JAMAIS aux rois d’Egypte comme étant des “pharaons”. Et oui, pharaon n’a jamais été le titre porté par un roi d’Egypte. Associer le mot pharaon à l’Egypte antique n’est qu’un mythe propagé par des siècles de mensonge amené par une interprétation erronée de l’histoire biblique.

La seule et unique raison pour laquelle nous savons que l’histoire de l’exode des Israélites s’est produite en Egypte est parce que la bible le dit. Nous continuons à croire que ceci est le cas parce que les égyptologues acceptèrent le narratif biblique et désignèrent inconsidérément les rois d’Egypte comme “pharaons”. Mais si nous examinons ce que le texte hébraïque de la bible ancienne (que nous avons en ce moment même entre nos mains…) a utilisé en référence, nous ne trouvons alors bizarrement pas l’Egypte mentionnée dans ce texte comme le site, la terre de l’histoire de l’exode. Toute cette sombre affaire, cette tromperie s’est produite durant la traduction des histoires bibliques écrites en hébreu et en araméen vers le grec au IIIème siècle AEC. C’est à ce moment que l’Egypte fut placée de force dans la bible hébraïque comme le théâtre des histoires israélites. Ironiquement, cet acte de duplicité fut perpétré sur le sol égyptien, plus spécifiquement dans sa légendaire grande bibliothèque d’Alexandrie.

Et si la bible telle que nous la connaissons avait été falsifiée ?
  • Et si la toute première traduction occidentale des soi-disant histoires des israélites, ce que nous connaissons comme étant la bible des septantes ou bible septante, était en fait une traduction déformée ?
  • Et si toutes les histoires des Israélites que nous croyons tous s’être passées en Egypte, simplement ne se déroulèrent pas là ?
  • Et si l’Egypte fut frauduleusement introduite dans la bible comme le théâtre de l’action des histoires des Israélites ?
  • Et si la patrie du judaïsme et des anciens Israélites n’était pas la Palestine ?
  • Et si l’Egypte antique n’avait jamais connu aucun soi-disant pharaon ?
  • Et si Abraham, Joseph et Moïse n’avaient en fait jamais mis un pied en Egypte, ni même rêver de le faire ?
Et si toute l’histoire de l’Exode d’Egypte était fausse et que nous pouvions le prouver ?

Ne vous êtes-vous jamais demandé pourquoi les pyramides égyptiennes et les grands temples ne sont pas mentionnés dans la bible ? Savez-vous que l’Egypte est mentionnée dans la bible environ 600 fois ? Ce chiffre est phénoménal et laisse perplexe en même temps, car personne ne peut revisiter l’Egypte tant de fois et ne jamais se référer une seule fois à ses icônes passées: les Pyramides.

D’un autre côté avez-vous une idée du nombre de fois où Israël et les Israélites furent mentionnés dans les archives (NdT: très complètes et méticuleuses) égyptiennes antiques?
Préparez-vous à une surprise: seulement une fois ! Ne sautez pas à une conclusion hâtive, ceci n’est pas notre preuve que l’Egypte ne fut pas la terre de l’Exode, ceci n’est qu’un prélude à notre recherche (comme détaillée dans notre livre “Egypt knew no Pharaos nor Israelites”).

On nous a gavés de l’idée que les Israélites furent maintenus captifs, en esclavage pendant près de 400 ans (certains disent 260 ans) en Egypte et pourtant toutes leurs histoires n’ont aucune trace de l’influence égyptienne. De plus et à notre grand étonnement, l’esclavage ne fut pas une pratique commune et courante dans l’Egypte antique dans un premier temps. A l’encontre de la culture répandue de l’esclavage dans les histoires israélites, l’Egypte antique n’a jamais eu de marché public pour commercer les esclaves.

Tout au sujet de la culture antique égyptienne, son art, son architecture, ses monuments, son peuple, sa théologie, sa mythologie et son panthéon des dieux, est de manière unique fort et culturellement marquant et ce même encore de nos jours. Après un tel long séjour dans le pays de la vallée du Nil, on pourrait s’attendre à trouver quelques traces d’influence culturelle égyptienne dans l’histoire et le narratif israélite, mais ce ne fut pas le cas. Bien que les Israélites ne passèrent qu’environ 70 ans durant la “captivité babylonienne”, et bien cette période fut documentée à la fois par les Israélites et les Babyloniens et des références à cette période se trouvent toujours dans les archives perses.

D’un autre côté, la bible hébraïque clame que les Israélites séjournèrent 400 ans en Egypte et nous ne trouvons aucune documentation en dehors de la bible, ni aucune mention du séjour des Israélites en Egypte, ni même de leur exode dans les archives égyptiennes ou même non-égyptiennes.

Il n’y a même pas eu une mention des pyramides, une des merveilles du monde ancien, dans les histoires israélites. Vous ne pouvez pas demeurer si longtemps en Egypte sans remarquer les pyramides. La très vaste majorité des historiens et des leaders militaires qui vinrent en Egypte depuis l’antiquité comme Alexandre le Grand, Strabo, Diodorus Siculus et bien sûr Hérodote, tous mentionnèrent et documentèrent leurs souvenirs et commentaires au sujet de ce site si célèbre.

“Le huitième roi, Chemmis de Memphis, régna pendant 50 ans et construisit la plus grande des trois pyramides, qui sont parmi les sept merveilles du monde”, Diodorus Siculus (90-30 AEC), Librairie de l’histoire

Mais quand on en vient aux Israélites, leur bible hébraïque est complètement silencieuse non seulement au sujet des pyramides mais aussi de toute caractéristique de l’ancienne culture ou architecture égyptienne ancienne.

70 ans de captivité à Babylone ont laissé leur marque sur la culture hébraïque, le talmud et la bible hébraïque. Des thèmes de la mythologie sumérienne et babylonienne comme ceux du déluge, d’Adam et Eve et de l’arbre de la connaissance peuvent être reconnus dans la bible hébraïque. Bien des parallèles pourraient être tracés entre la légende de la naissance du roi Sargon d’Akkad et celle de Moïse.

Le séjour de 400 ans en Egypte aurait dû laisser une empreinte sur les Israélites et leur culture, mais on ne la trouve nulle part pour la simple et bonne raison qu’ils n’ont jamais mis les pieds en Egypte. Et non, l’argument disant que les Israélites résistèrent à être affectés par des croyances païennes et une telle culture ne peut pas être considéré comme valide, car toutes sortes d’influences sumériennes, assyriennes et babyloniennes (toutes païennes) et références culturelles en cela connectées furent bourrées dans leur torah.

La comparaison pas si fréquente entre le monothéisme du roi Akhenaten et celui des Israélites n’est pas non plus valide par essence car le culte juif est tribal, militariste et manque (en fait par interdit) de toutes manifestations artistiques véritables, tandis que celui d’Akhenaten était universel par nature (bâti sur la croyance ancienne égyptienne d’un dieu suprême), qui fut célébré et marqué par des travaux artistiques et architecturaux révolutionnaires. De plus, le dieu Aten d’Akhenaten était une déité inclusive qui embrassait tous ses enfants et non pas une seule tribu bien spécifique dans le désert.

Peu importe la profondeur à laquelle vous creusez dans les histoires israélites, vous ne trouverez aucune influence égyptienne, pas un gramme d’impact culturel, à part peut-être la seule mention du mot “pharaon”. Devinez la nouvelle: l’Egypte n’a pas non plus connu de “pharaons”. Ré-examinez vos propres croyances pour réaliser comment elles en sont venues à vous définir. De fait, vous êtes limité, si pas pré-conditionné, par nos vieilles croyances et histoires. Comme elles ont jadis marqué notre histoire ces mêmes vielles histoires continuent de façonner notre présent. Seule une observation critique de quelques unes de nos vieilles croyances décidera si elles garderont leur autorité (injustifiée) sur nous dans le futur.

Si vous recherchez la vérité et désirez mettre à jour la vérité qui a été bloquée pendant plus de deux mille ans, alors vous pourriez être intéressé de lire le livre du Dr Ashraf Ezzat: “Egypt Knew no Pharaohs nor Israelites” (sur plateforme Kindle en anglais)

On nous a donné des mensonges à téter depuis bien trop longtemps. Il est grand temps d’être sevré.

Dr. Ashraf Ezzat


url de l’article original: https://ashraf62.wordpress.com/2016/07/24/why-are-the-pyramids-not-mentioned-in-the-bible/

Traduit de l’anglais par Résistance 71

source:https://resistance71.wordpress.com/2016/10/30/au-coeur-du-mensonge-historique-suite-ou-sont-passees-les-pyramides-dans-les-contes-bibliques-dr-ashraf-ezzat/



THOMAS PIKETTY, A ECONOMIA E AS PRESIDENCIAIS FRANCESAS


Thomas Piketty

aqui referi Thomas Piketty, aquando da publicação do seu livro Le capital au XXIe siècle.

O eminente economista deu esta semana uma entrevista a "L'Obs", a propósito das próximas eleições presidenciais francesas, onde denuncia a "improvisação permanente" do chefe do Estado em matéria de economia e julga "marciais" as propostas dos candidatos às primárias da direita.

Na impossibilidade de transcrever integralmente a entrevista, registo algumas das afirmações de Piketty:

- Pour moi, il n'y a pas de trente-six solutions; s'il n'y a plus de critères automatiques, il faut permettre des choix démocratiques et donc instaurer un parlement de la zone euro. Il peut prendre plusieurs formes: celle que je privilégie serait une chambre composée de parlementaires nationaux en proportion de la population de chaque pays. Ce qui importe, c'est d'avoir une formation démocratique dotée d'une légitimité forte, pour prendre des décisions sur les niveaux de déficit, sur la restruturaction de la dette - on ne pourra pas éternellement repousser les décisions sur la dette grecque ou celles des pays de l'Europe du Sud - ou sur un impôt commun sur les grandes sociétés. C'est la responsabiité de tous les candidats, de droite comme de gauche, d'ouvrir ce débat et d'exposer des propositions, qui seront ensuite soumises à l'Allemagne, à l'Espagne, à l'Italie et à nous autres partenaires. Mélenchon parle de plan B - sortir des traités - mais je voudrais bien l'entendre sur son plan A - quelle réforme des traités il imagine. Si on avance une proposition sérieuse pour une vraie gouvernance démocratique capable de décider des niveaux de déficit, je ne doute pas qu'on arrivera à un compromis.

- Il faut aussi mutualiser une partie des dettes et bâtir un impôt comnun, qui toucherait au moins, pour commencer, les plus grandes sociétés. Cet impôt financerait un budget commun de la zone euro, qui pourrait relancer l'économie et investir dans les infrastructures, la recherche, l'enseignment supérieur. Typiquement, le budget d'Erasmus - 2 milliards d'euros pour toute l'Union - devrait être multiplié par dix. Les intérêts de la dette, même avec des taux très faibles, atteignent, eux, 200 milliards d'euros. Qu'est-ce qui prépare le mieux l'avenir? On gâche nos chances. L'Europe a le meilleur modèle social du monde. J'aimerais aussi qu'elle ait le meilleur avenir, et donc les meilleures universités, les meilleures centres de recherche, la jeunesse la mieux formée. Ce n'est pas le cas.

- Dès qu'il y a des propositions qui sortent du cadre, on les repousse en leur apposant l'étiquette de "populistes". Pourtant, que ce soit le candidat aux primaires démocrates Bernie Sanders aux États Unis, Syriza en Grèce, Podemos en Espagne, ces nouvelles voix ne proposent rien de radical.  Renoncer à la mise en concurrence généralisée des territoires ou des pays n'est pas une proposition extrême. Suggérer de se débarasser des dettes du passé pour construire la croissance non plus: c'est ainsi que s'est construite l'Europe dans les années 1950. La dette publique c'est de l'argent que l'on se doit finalement à nous-mêmes. La réaménager, ça n'est rien d'autre qu'organiser des transferts des uns vers les autres. Il y a aujourd'hui des enjeux plus importants: le réchauffement climatique, les jeunes générations... La réponse de gauche à la mondialisation n'est pas parfaite, mais si on ne se appuie pas sur elle, c'est la réponse "trumpienne" ou lepéniste qui risque de prendre la place.

Muitas outras afirmações constantes desta entrevista mereceriam transcrição, mas estou a fazê-la directamente da revista em papel, por falta de acesso ao texto online.


Acrescentarei tão só que Piketty acabou de publicar Aux urnes citoyens!, uma recolha de crónicas de 2012 a 2016.

sábado, 29 de outubro de 2016

VERLAINE/RIMBAUD - O CASAL ESCANDALOSO




Publica o nº 573 (do próximo mês de Novembro) do "Magazine Littéraire" um interessante dossier sobre "Verlaine/Rimbaud - Le couple scandaleux". Nunca é demais ler Verlaine, ler Rimbaud, ler a história das suas vidas.

Outros trabalhos impedem-me de elaborar aqui sobre a matéria, mas não quero deixar de partilhar a referência ao livro que aborda o relacionamento simultaneamente apaixonado e tempestuoso dos dois poetas, organizado por António Moura para a Hiena Editora, em 1993, com o título Graças e Desgraças de um Casal Ventoso.


Trata-se de uma obra sucinta, apoiada documentalmente, que relata numa centena de páginas a vida comum de ambos, desde a altura em que se conheceram até à data da separação.

Recomenda-se, para os mais interessados, a leitura, sempre edificante, das várias biografias dos dois escritores.