quinta-feira, 19 de abril de 2018

UMA SABEDORIA ALEGRE




Acabou de ser publicado o livro Un savoir gai, de William Marx, escritor francês, ensaísta, historiador e professor da Universidade de Paris-Nanterre. Gai e não Gay, o que traduz ab initio uma opção do autor.

Trata-se de uma obra singular, em que a questão da sexualidade, particularmente da homossexualidade, é abordada de uma forma tão distinta da maneira como é habitualmente tratada que faz deste livro um espécime raro, para não dizer único, na ficção/ensaio dedicada à homossexualidade.

Transcrevo um parágrafo do Preâmbulo: «Abécédaire, dictionnaire, encyclopédie, ce livre n'est pas ce qu'il paraît: il peut se lire dans tous les sens, par tous les bouts, et veut surtout être complété par chacun, qui y apportera ses propres références, ses propres expériences. Il n'y sera pas seulement question d'amour, de drague, de fantasmes, de pornographie et de taille du pénis, mais aussi de Vélasquez, Kant, Proust, Oshima et Cat Stevens, des chauffeurs de taxi, des colonies de vacances, du mariage pour tous, d'algèbre et de la longévité des chats et des baleines bleues. De la vie érotique de Jésus, également. Et de la vie tout court.» (p. 13)

O autor entendeu desenvolver o texto utilizando a forma de um diálogo com o leitor, colocando-nos como interlocutor privilegiado. O que nos obriga a reflectir com maior acuidade sobre os temas abordados, especialmente sobre os mais polémicos e susceptíveis de não gerarem consenso. Ao longo de pouco mais do que 150 páginas (33 entradas), William Marx aborda as questões cruciais com as quais são confrontados os homossexuais (e também, pour cause, os heterossexuais) no decorrer da vida, contemplando atentamente as alterações verificadas em matéria de sexo (e afectividade) nas últimas décadas. Não subscrevo integralmente todas as afirmações (ou sugestões, ou propostas) do autor, mas confesso que este livro constitui uma contribuição excepcional para o estudo do objecto proposto.

Na entrada "Altérité" escreve: «Le même constat s'impose également, mutatis mutandis, dans les politiques de discrimination positive fondées sur la différence des sexes: les diverses lois sur la parité dans les institutions, si bénéfiques qu'elles puissent être à maints égards, te paraissent souvent n'avoir qu'un effet d'affichage facile (quoi de plus visible que la distinction d'un homme et d'une femme?) sans toucher véritablement au fonds du problème, c'est-à-dire à l'uniformité persistante des origines et des vécus de celles et de ceux qui administrent, décident et gouvernent. Pour dire les choses de façon plus critique encore, il arrive que l'exigence de parité ne soit que le cache-sexe du maintien des inégalités existantes: tu n'est pas persuadé qu'une femme bourgeoise blanche hétérosexuelle apporte un point de vue fondamentalement différent de sa contrepartie masculine. On attendrait plus aisément à la diversité nécessaire en relativisant ou en pondérant par d'autres critéres celui de la différence  des sexes, qui n'est sans doute pas le plus pertinent ni le plus apte à obtenir la pluralité recherchée.» (p. 19). Muito oportuna observação do autor. De facto, já todos sabíamos que as quotas nos governos, nos parlamentos e em outras instituições são uma falácia do politicamente correcto! E parece que em Portugal, agora, se volta a insistir neste tema, com os resultados desastrosos que se aguardam.

Curiosa a referência ao Gabinete Secreto do Museu Arqueológico de Nápoles [que tive o prazer de visitar há alguns anos]  e às peças nele exibidas e que, durante longo tempo, estiveram ocultas aos olhos do público. A propósito, o autor tece interessantes considerações a propósito do célebre quadro de Vélasquez, "A Forja de Vulcano", exposto no Museu do Prado, em Madrid, em que o pintor transgride todos os códigos da época, ao representar os ferreiros suficientemente despidos para atraírem olhares nada inocentes dos apreciadores da nudez masculina.

A entrada "Évangile" proporciona a William Marx pertinentes reflexões. Uma delas respeita à crise de vocações sacerdotais. Impossível não transcrever o respectivo parágrafo: «Dans une société ou un milieu qui ne tolèrent pas le désir gai, le célibat consacré, avec tout le discours valorisant qui l'accompagne traditionnellement, peut apparaître  comme une solution admissible. Au moins un tiers des prêtres catholiques et des religieux consacrés seraient des gais plus ou moins refoulés. En ce domaine, les enquêtes sont difficiles, mais les chiffres n'ont rien d'improbable. Probable aussi le fait que, dans les pays occidentaux, la crise des vocations dont souffre l'Église catholique soit directement liée à la plus grande tolérance dont jouit désormai dans ces mêmes pays l'existence gaie assumée comme telle: nul besoin de prononcer des voeux si l'objet véritable du désir est connu, acceptable et accessible. Le mouvement de libération gaie a vidé le réservoir de frustration et de refoulement où l'Église aimait à puiser une bonne partie de son clergé.» (p. 71)

Recordo, a propósito, o que me dizia, há uns bons quarenta anos, em Paris, em casa do Manuel Cargaleiro (no Quai des Grands Augustins), um amigo meu que então estudava na Sorbonne: os homossexuais têm apenas três vias profissionais, a carreira militar, a carreira docente ou a carreira eclesiástica. A evolução da sociedade encarregou-se de baralhar os dados. Na carreira militar passou a haver mulheres (lembro-me do general Lemos Ferreira, então CEMGFA, num Coffe break no Instituto da Defesa Nacional, me dizer que enquanto ele chefiasse as Forças Armadas as mulheres nunca seriam admitidas como operacionais, sendo confinadas a secretárias, enfermeiras, etc.), o que reduziu substancialmente as virtudes de tal opção. Na carreira docente, agora com turmas mistas em todos os graus de ensino, e com o espectro do assédio sexual, as possibilidades de êxito estão drasticamente reduzidas. Na carreira eclesiástica, os casos relatados nos últimos anos e a advertência papal de que as pessoas com (simples) inclinações homossexuais seriam excluídas do acesso ao sacerdócio, o problema tornou-se idêntico.

Um excerto da entrada "Étrangement": «Ailleurs, c'est le refus de jouer la mascarade hétérosexuel qui s'impose au héros: "Le dimanche des homosexuels est toujours lugubre. Car ils s'aperçoivent alors que le monde du jour, qui n'est pas leur domaine, règne sans réserve. Où qu'ils aillent, au théâtre, au café, au zoo, dans un parc d'attractions, dans un quartier quelconque de la ville, en banlieue, partout c'est le principe de la majorité qui avance triomphalement. C'était une procession de couples, vieux, entre deux âges, jeunes, amants, de familles, et d'enfants, d'enfants, d'enfants, d'enfants, d'enfants et, pour couronner le tout, de ces maudites poussettes! C'était un défilé qui avançait sous les vivats. Il aurait été très facile pour Yûichi de les imiter en se promenant en compagnie de Yasuko [son épouse]. Mais quelque part au-dessus de sa tête l'oeil de Dieu le surveillait dans le ciel limpide: les faux seront nécessairement découverts.* (p. 68)

 * Yukio Mishima, Les amours interdites

Na entrada "Évangile", o autor interroga-se sobre a sexualidade de Jesus e sobre o sistema sexual proposto pelo Evangelho, que escapa a todas as normas estabelecidas. «Le message central est d'abord celui du refus de la sexualité pour se consacrer à Dieu seul. Quand d'autres religions, le judaïsme et l'islam, promeuvent la procréation comme une poursuite de l'oeuvre de la Création et un hommage au Créateur, le message évangélique primitif se veut infinement plus radical et difficile à entendre: il exhorte à ne pas procréer et à se faire eunuque pour le Royaume des Cieux*. Les mouvements chrétiens dits de défense de la famille n'en ont évidemment cure: les textes évangéliques sont de peu de poids face à l'idéologie haineuse et réactionnaire qui les anime.» (pp.72-3)

* Mateus, XIX, 10-12

Entre outras pertinentes considerações, como o facto do discípulo amado (João) repousar a sua cabeça no seio de Jesus, William Marx manifesta a sua perplexidade sobre esta passagem do Evangelho de Marcos (XIV, 51-52), que transcrevo da tradução portuguesa de Frederico Lourenço: "Um certo jovem seguia-o envolto apenas num lençol por cima da nudez. Prenderam-no, mas ele, deixando o lençol, fugiu nu." (p. 74) Dispenso-me de comentários sobre as observações do autor sobre esta e outras passagens do Evangelho de Marcos, que não cabem neste espaço, mas não prescindo de referir a existência de um Evangelho secreto de Marcos, que, segundo Clemente de Alexandria, seria destinado apenas aos iniciados (Morton Smith, Clement of Alexandria and a Secret Gospel of Mark). Este manuscrito de Clemente, descoberto em 1958 pelo universitário norte-americano no Mosteiro de São Saba, vinte quilómetros a sul de Jerusalém, desapareceu curiosamente alguns anos depois de Smith o ter revelado ao mundo. Apesar das inúmeras referências homossexualizantes nos textos evangélicos, Dan Brown entregou-se posteriormente a uma grosseira manobra de diversão, publicando em 2003 o Da Vinci Code, onde atribui a Jesus uma relação amorosa com Maria Madalena.

Na entrada "Pédophilie", o autor desfaz a confusão que (intencionalmente) se estabeleceu entre pedofilia e homossexualidade masculina, salientando que pode haver pedofilia com homossexualidade feminina, e que uma parte substancial dos casos de pedofilia é praticada a nível heterossexual. Refere expressamente a frenética caça aos "pedófilos" desencadeada a partir de fins dos anos 90 pelos media, pelos governos e por certas instituições mais ou menos respeitáveis, em reacção a actos criminosos de repercussão mundial. Examina a propositada identificação de pedofilia e pederastia (termo grego de contornos bem definidos) e explica a situação a que se chegou hoje: «On confond sous le terme de pédophile trois types de personnes, trois types de comportements fondamentalement différents. Il y a d'abord ceux, de très loin les plus nombreux, qui se contentent de fantasmes sexuels faisant intervenir des enfants et ne passent jamais à l'acte: ils ne sont ni plus ni moins innocents et inoffensifs que  ceux qui rêvent de coucher avec des licornes, de sucer des zombies et d'enculer des dragons. Laissons-les tranquilles ou bien n'envoyons à leur poursuite que la brigade de protection des êtres chimériques. Il y a ensuite ceux qui passent à l'acte avec des enfants réels, lors de contacts sexuels plus ou moins poussés, plus ou moins sollicités ou forcés. Il y a enfin ceux, rarissimes, qui torturent et assassinent des enfants: ceux-là mériteraient plutôt d'être appelés pédophobes que pédophiles. Seules les deux dernières catégories, naturellement, devraient être justiciables de sanctions pénales et d'un contrôle social.» (pp. 125-6)

Na entrada Prostitution", William Marx discorre sobre a mais antiga profissão do mundo. E indigna-se quanto à criminalização quer das prostitutas (parece que a legislação não abrange os prostitutos), quer dos seus clientes. E propõe uma séria discussão sobre o assunto. Escreve: «Or, si tout peut être commercialisé sauf la sexualité, même entre deux adultes consentants, c'est qu'il y aurait en elle ce qu'il faut bien appeler du sacré. Libre à chacun de le croire, mais est-ce à une république laïque de s'en faire l'apôtre? Jusqu'à nouvel ordre, un péché n'est pas un crime. "Oui, te dira-t-on, mais on n'a pas le droit de vendre son corps." Nuance: les prostitués, hommes et femmes, ne vendent pas leur corps; ils vendent un service rendu avec leur corps. Ce n'est pas la même chose. Les acteurs, les danseurs, les sportifs en font autant, de même que les déménageurs ou les ouvriers du bâtiment, chacun selon les modalités propres. Cela peut aller jusqu'au sacrifice de la santé, voire de la vie: ainsi des cascadeurs, ainsi des militaires. Sera-t-il permis de gagner de l'argent en faisant la guerre, mais pas l'amour? "Oui, mais les femmes prostituées ne sont pas libres de leurs actes." Sont-elles plus aliénnées que ces femmes de ménage qui vont tous les jours à quatre heures du matin nettoyer les bureaux des grandes entreprises?» (p. 133)

Continuando: «Où s'arrêtera le processus? Si la prostitution est interdite, la pornographie doit l'être également, ainsi que la nudité sur les affiches, dans les livres, les médias et les expositions: acteurs et mannequins ne font pas moindre commerce de ce corps désormais légalement sacralisé. Une nouvelle brigade des moeurs prendra au piège les clients potentiels par des offres trompeuses d'amours tarifées. Voilà donc déjà la police entrée dans les chambres et les têtes, au mépris des valeurs fondamentales de la République et de la démocratie. Pour en arriver là, quels prêtres ou quels imams as-tu donc sans le savoir élus au Parlement?» (pp. 133-4)

Ao longo das 33 entradas deste precioso livro, muitas são as questões debatidas mas não permite o espaço alongarmo-nos sobre todos os temas. O que fica é por si demonstrativo da imprescindibilidade da leitura da obra, que vivamente se recomenda a todos os interessados na matéria.

Concluo, com a transcrição dos dois últimos parágrafos:

«Zeus passa par mille aventures charnelles: Io, Europe, Alcmène, Ganymède. Il s'ingéra dans les affaires des Grecs et des Troyens. Il s'efforça de faire régner la justice sur le champ de bataille, alors même qu'il éprouvait un faible pour les défenseurs de Troie. Puis il fit encore plus d'efforts, se spiritualisa toujours davantage, devint le dieu des philosophes, de Platon, Aristote, Cléanthe, Plotin, le moteur immuable de l'univers, le garant de la loi universelle, l'auteur de toute concorde, sans désir (puisque la divinité ne saurait rien désirer), mais non sans cette force qui, dans la vision ultime du Paradis de Dante, "meut le soleil et les autres étoiles". (pp. 164-5)

«Au- delà du désir reste peut-être, forgé et initié par lui, mais devenu désormais autonome et volant de ses propres ailes, aveugle mais déterminé, nu mais bardé de flèches, jeune quoique sans âge, celui qui tu n'oses nommer qu'en tremblant, lui qui selon Virgile, triomphe de tout et survit aussi, espères-tu, au désir lui-même: l'amour.» (p. 165)



sexta-feira, 13 de abril de 2018

CONTRA O LIBERALISMO

 

 Hybris


adieu Montesquieu, Locke et Kant !

La philosophie libérale originelle était une pensée de la limite, une quête de frontières à imposer à la toute-puissance des Églises ou des États, une volonté de séparer le judiciaire et l'exécutif, le temporel et le spirituel, le privé et le public, l'économique et le politique. Il s'agissait de saisir l'homme dans sa radicale finitude et de produire un antidote à l'hybris, la démesure qui mène les civilisations à leur perte. Or que voit-on aujourd'hui triompher sous le même nom de « libéralisme » ? Précisément l'inverse.

On voit se propager la confusion des sphères privées et publiques, les tentations monopolistiques, le refus de la finitude humaine, la volonté de toute -puissance. On voit des entreprises multinationales se jouer des lois de nations et leur imposer les leurs. On voit des groupes privés commençant à en savoir  - donc à en pouvoir - plus sur chacun d'entre nous que nos Ètats respectifs. On voit des pontes des Gafa (Google, Apple, Facebook et Amazon) réfléchir à un homme neuf, augmenté, débarrassé des contingences telles que la vie en commun ou la mort individuelle, concevoir les villes de demain, inventer les espaces publics à venir - des espaces publics qui auront la petite spécificité d'être privés - et planifier des îles artificielles échappant à tout État, ce vieux rêve de pirate enfin à portée de main.

On voit Mark Zuckerberg hésiter à se présenter à la présidence des Ètats-Unis, certain de gagner avant de jouer: soit il se porte candidat et confirme la tendance générale à l'abolition de la distinction entre le chef de l'entreprise et le chef d'État (seul un "bon" patron comme lui peut en chasser un "mauvais" comme Trump), soit il ne se lance pas dans la course et on déduira la vacuité de la chose politique ("il a mieux à faire"). On voit Thélème fleurir dans le Silicon Valley. Les commentateurs s'extasient sur le côté cool et désinvolte  de la communauté Google, oubliant que, chex Rabelais, le "Fais ce que voudras" de Thélème conduit au conformisme absolu («Si l'un ou l'une  d'entre eux disait: "Buvons", tous buvaient; s'il disait: "Jouons", tous jouaient. S'il disait: "Allons nous ébattre aux champs", tous y allaient») et suppose des masses des esclaves aux alentours de l'abbaye fantasmée pour que les élus puissent s'adonner à leurs plaisirs.

On voit, en un mot comme en mille, les individus les plus riches du monde produire une utopie, le transhumanisme, et avoir les moyens de la réaliser. Car il ne s'agit pas là simplement de business, mais bien de vision du monde. De philosophie. Les Rockefeller d'aujourd'hui se voient en réincarnations 2.0 des rois philosophes de Platon. Ces jeunes milliardaires proclament la mort de la mort: «Elle était hier un mystère, elle est désormais un problème à résoudre», avance Peter Thiel, ancien étudiant en philosophie devenu investisseur phare de la Silicon Valley, décidant de ses placements en fonction de ses idées plutôt que l'inverse. Nous allons vers quelque chose qui est loin, très loin de Locke. Ou de Smith. Certes, nous y allons en bermuda et en claquettes, sans costume ni cravate, à coups de "likes" et "smileys", mais nous y allons quand même, à toute vitesse. L'histoire retiendra qu'en ce début de siècle le libéralisme poussé à son paroxysme donna naissance à son antithèse: l'hybris ultralibérale des Gafa. Il est temps d'explorer la doctrine des maîtres-penseurs de l'époque. Pour comprendre ce vers quoi nous avançons. Et, peut-être - qui sait? - saisir l'impérieuse necessité de ne pas s'y rendre.

Montesquieu, reviens, ils sont devenus fous!

 

domingo, 8 de abril de 2018

SOBRE O BRASIL




Transcrevo:

Operação: Abate Da Asa Sul
BRICS



O Brasil sempre foi alvo da famosa e subterrânea rede Atlas!
 

Uma rede de esperações especiais, meio civil meio militar, constituída por contractors para-"civis" (mercenários), corporações, ONGs, e Fundações como a Open Society do Soros e outras que tais, e agentes da CIA, mais ou menos reformados, que impõem os interesses americanos e a influência americana na América do sul, sempre considerada como seu quintal!
 

Rede Atlas essa, herdeira das antigas intervenções de canhoeira, iniciadas pela América com a guerra das Bananas em 1898, e que se tornaram demasiado escandalosas depois do caso Noriega!...
A que ainda acresce no caso Lula/Dilma, a Acção conjunta destes, e dos interesses urgentes do DEP de Estado Americano, para separar e fazer cair a asa Sul do BRICS, aproveitando e saqueando as riquezas do pré-sal, as terras raras, e demais matérias primas, e aproveitando para ir vendendo, às corpoações do norte, tudo a patacos, como a Embraer à Boing e a concessão do Aquifero Guarani à Coca-Cola e Nestlé por tuta e meia, veja-se o que Temer tem feito!
 

Neutralizando assim a saída do Brasil da zona de influência americana!
É 2 em 1.


»»»» "Encontro do BRIC lança desafio à ordem econômica mundial
 

Nádia Pontes
In DW


Encontro do BRIC (16.04.2010) lança desafio à ordem econômica mundial
 

A pedido de Hu Jintao, presidente Lula antecipa o segundo encontro entre líderes do Brasil, Rússia, Índia e China. Lideranças emitiram documento em que pedem mais espaço e mais autoridade na ordem econômica mundial.

A segunda Cúpula BRIC foi cheia de imprevistos: programado para acontecer nesta sexta-feira, o encontro entre Brasil, Rússia, Índia e China foi antecipado para a quinta-feira (15/04). E as declarações finais dos líderes ficaram aquém das expectativas.

O motivo da improvisação foi um pedido do presidente chinês, Hu Jintao, a Lula para que as negociações fossem antecipadas. Jintao voltou para a China logo após seu pronunciamento, devido ao terremoto que abalou o país asiático.

Devido às alterações no programa oficial, a movimentação no Itamaraty foi acima do normal – a sede do Ministério de Relações Exteriores abrigou dois encontros de cúpula num único dia: depois da quarta reunião do IBAS entre os líderes da Índia, Brasil e África do Sul, os representantes do BRIC se encontraram e estenderam as conversas até tarde da noite da quinta-feira.

Declaração padrão

E a declaração conjunta assinada ao fim do segundo encontro também acrescentou pouco ao que já havia sido dito anteriormente: os líderes pedem mudanças em instituições como as Nações Unidas, Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial. "Brasil, Rússia, Índia e China têm papel fundamental a desempenhar na construção dessa ordem internacional mais justa, representativa e segura", disse Lula.

"Acreditamos que uma maior cooperação entre os nossos países é boa para o mundo. O BRIC não nasceu da crise, mas da fé do nosso povo e da nossa economia. Mas a crise deu uma relevância maior ao BRIC", ressaltou o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh.

Já Hu Jintao destacou a proximidade do grupo: "Desde junho do ano passado, estreitamos relações entre os países para enfrentar a crise econômica mundial". E chamou a responsabilidade para os países emergentes: "Queremos promover a retomada da economia mundial", afirmou.

Debates paralelos

Outros assuntos também foram debatidos na cúpula "É consenso nossa disposição em combater desafios globais como o terrorismo, a criminalidade organizada, o narcotráfico. Tudo o que estamos discutindo reflete os problemas com os quais nossos governos se deparam", declarou Dimitri Medvedev, presidente da Rússia.

Vários convênios de cooperação foram assinados entre os quatro países em diversas áreas, dentre elas agricultura, justiça e estatísticas – o BRIC publicará anualmente uma série de dados referente à economia do grupo.

A expectativa era que a segunda Cúpula BRIC focasse um assunto que ficara de fora do primeiro encontro: a discussão de uma moeda regional, que pudesse facilitar as trocas de comércio, de investimento entre os países sem intermediação do dólar. Mas não houve avanços nesse campo, além de a declaração conjunta citar o encontro entre os ministros da área para discutir mecanismos para criação de uma moeda regional.

Brasil e China mais próximos

Lula e Hu Jintao assinaram um Plano de Ação Conjunta 2010-1014 com o objetivo de estreitar as relações bilaterais em campos como energia e agricultura. Apesar de o texto falar de "um espírito de igualdade", há diferenças entre as duas nações que podem comprometer principalmente o Brasil.

"Não podemos descuidar da competitividade da indústria e diversificar para mercados que compram da gente produtos de maior valor agregado. O Brasil pode se tornar apenas um grande fornecedor de matéria-prima, e isso é perigoso. A relação com a China precisa ser mais bem discutida", ressaltou Luciana Acioly, coordenadora de estudos de relações econômicas internacionais do Ipea, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.

A intenção de aproximar os dois países vai além dos acordos comerciais: Brasil e China e anunciaram que a intenção de criar uma rota direta ligando-os. Para tal, contam com o engajamento das empresas aéreas de ambos os lados."

»»» "BRICS desafiam a ordem econômica internacional
 

Rodolfo Alves

Durante a V Cúpula do BRICS, em 27 de Março de 2013, os países do eixo decidiram pela criação de um Banco Internacional do grupo, o que desagradou profundamente os Estados Unidos e a Inglaterra, países responsáveis pelo FMI e Banco Mundial, respectivamente. A decisão sobre o banco do BRICS ainda não foi oficializada, mas deve se concretizar nos próximos anos. A ideia é fomentar e garantir o desenvolvimento da economia dos países-membros do BRICS e de demais nações subdesenvolvidas ou em desenvolvimento.

Outra medida que também não agradou aos EUA e Reino Unido foi a criação de um contingente de reserva no valor de 100 bilhões de dólares. Tal medida foi tomada com o objetivo de garantir a estabilidade econômica dos 5 países que fazem parte do grupo.

Com essas decisões, é possível perceber a importância econômica e política desse grupo, assim como também é possível vislumbrar a emergência de uma rivalidade entre o BRICS, os EUA e a União Europeia."

»»»» "De Dilma a Temer: o que mudou e o que segue igual no Brasil
 

João Paulo Charleaux
In Nexo


O afastamento de Dilma Rousseff (PT), no dia 12 de maio de 2016, e a ascensão do vice Michel Temer (PMDB) à presidência da República deu início a uma série de mudanças econômicas e políticas que completam dez meses em março. Na economia, o ajuste fiscal prometido por Dilma acabou acelerado e aprofundado. Temer conseguiu aprovar a criação de um teto de gastos públicos por um período de 20 anos e tenta emplacar agora propostas de mudanças profundas na Previdência e nas leis trabalhistas. Na política, o primeiro escalão do governo perdeu representantes do PT e do PCdoB para dar lugar à antiga oposição, capitaneada pelo PSDB e pelo DEM. O PMDB e outros partidos que romperam com Dilma durante o impeachment voltaram a se unir em torno de Temer. A Lava Jato, operação contra corrupção com impactos tanto na política quanto na economia, ganhou força com a delação premiada de ex-executivos da Odebrecht, principal empreiteira do país. Se no momento pré-impeachment a operação se concentrou no PT, as novas revelações mostraram um envolvimento mais amplo dos partidos, incluindo as cúpulas do PMDB e do agora governista PSDB. A partir dessas constatações, o Nexo conversou com dois economistas e dois cientistas políticos a fim de que analisassem, de forma mais ampla, o que de fato mudou e o que seguiu igual no país com a troca de Dilma por Temer."

»»»» Supremo nega habeas por 6 a 5 e abre caminho para prisão de Lula
 

Rafael Moraes Moura, Breno Pires, Amanda Pupo, Teo Cury e Julia Lindner
In Estadão.


Após quase 11 horas de julgamento, Corte frustra pedido de habeas corpus preventivo do ex-presidente

»»»» Lula pode ser candidato e eleito presidente mesmo se estiver preso? Ana Carla Bermúdez Do UOL, em São Paulo... -

Derrotado no Supremo e condenado em segunda instância, o ex-presidente ainda poderá ser candidato à Presidência da República? Ele poderá ser eleito mesmo se estiver preso? "A legislação brasileira permite que qualquer cidadão rea... - Veja mais em https://eleicoes.uol.com.br/…/com-habeas-corpus-negado-lula…

»»»» Generais brasileiros assumem o golpe
 

Daniel Oliveira
In Expresso 04.04.2018 às 18h00


Em Estados democráticos de direito os miliares obedecem aos políticos e nada dizem sobre a justiça. No Brasil, os militares dão ordens à justiça e esta decide o futuro da política. Todos sabíamos que isto era um processo político, mas com as armas apontadas à cabeça dos juízes fica tudo mais claro

Tenho acompanhado, em todos os momentos, o golpe político em curso no Brasil. Do impeachment de Dilma Rousseff (AQUI, AQUI e AQUI) ao grotesco processo contra Lula da Silva (AQUI e AQUI), passando pela perversidade política de processos como o Lava-Jato (AQUI e AQUI) e pelo clima que está criado no Brasil (AQUI). Para não repetir tudo o que fui escrevendo, e não se conhecendo ao certo a decisão tomada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o pedido de habeas corpus de Lula da Silva, à hora a que escrevo este texto, concentro-me apenas no comportamento dos militares nas horas antes da decisão ser tomada. Porque ele é o melhor retrato do que está a acontecer.

 

quarta-feira, 4 de abril de 2018

O APELO



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O "Nouveau Magazine Littéraire" (nº 4, deste mês de Abril), publica um Apelo ao presidente da República francesa, Emmanuel Macron, subscrito por mais de uma centena de personalidades das artes e das letras. 

Trata-se de um pedido ao chefe do Estado para que condene a violação como arma de guerra utilizada na Síria e intervenha para que cesse a impunidade dos carrascos.

Publicamos abaixo o texto de "L'Appel" e o nome dos signatários:

Monsieur le président de la République,

Le viol comme arme de guerre en Syrie est un crime passé sous silence depuis le début de la révolte syrienne en 2011. 

Des milliers de femmes syriennes en ont été les victimes. Des milliers sont aujourd’hui encore dans les prisons du régime syrien où elles subissent les pires exactions.

Le viol est un sujet tellement tabou en Syrie que ces femmes connaissent une double peine. Une fois sorties de prison elles sont rejetées par leurs familles ou victimes de crime d’honneur. Coupables d’être victimes.

Pour la première fois certaines de ces femmes osent parler, parfois à visage découvert, dans un documentaire, Syrie, le cri étouffé, réalisé par Manon Loizeau, coécrit avec Annick Cojean, en collaboration avec la chercheuse libyenne Souad Wheidi.

Dans ce film des femmes syriennes racontent douloureusement ce qu’elles ont subi en détention. Elles donnent les noms de leurs bourreaux et des lieux de torture. La politique du viol comme arme de guerre a été délibérée et systématique depuis le début du conflit pour briser la révolte et la société syrienne.

Un crime parfait car les victimes ne parlent jamais. 

Toutes les femmes qui témoignent sont des mères de famille. Un jour elles ont rêvé, elles ont eu l’immense espoir que la démocratie, la liberté puissent être à leur portée. Alors elles sont sorties dans les rues manifester avec leurs enfants, leurs familles. Elles ont parfois filmé le réveil de leur peuple. Et puis la répression est arrivée, vite, très vite, brutale très brutale. Alors elles ont pansé les plaies des blessés, parfois même les plaies des soldats de l’armée du régime. Elles ont tenté de sauver des vies. Puis elles ont été arrêtées, et leur destin a basculé dans l’obscurité et la barbarie. 

Si elles osent aujourd’hui briser le silence, avec tous les risques que cela comprend, c’est parce qu’elles veulent nous interpeller et que nous les aidions enfin, nous nations occidentales, à faire en sorte que le régime de Bachar al-Assad libère toutes les femmes qui sont encore détenues et que leurs bourreaux répondent un jour de leurs crimes.

Parce que nous ne pouvons rester sourds à leur souffrance et à leur appel, nous vous demandons, Monsieur le président de la République, d’aider à ce que leurs voix soient entendues et à faire tout ce qui est en votre pouvoir pour obtenir la libération des milliers de femmes encore en prison en Syrie.

Les signataires : 

Anne Alvaro, comédienne ; Marie Amachoukeli, réalisatrice ; Raja Amari, réalisatrice ; Christophe André, psychiatre ; Sophia Aram, humoriste ; Ala Alabdallah, réalisatrice ; Ariane Ascaride, comédienne ; Yvan Attal, comédien, réalisateur ; Jacques Audiard, réalisateur ; Anne Azoulay, comédienne ; Lisa Azuelos, comédienne ; Élisabeth Badinter, philosophe ; Ali Baddou, journaliste ; Jeanne Balibar, comédienne, chanteuse ; Christophe Barratier,  réalisateur ; Bérénice Bejo, comédienne ; Emmanuelle Bercot, comédienne, réalisatrice ; Diane Bertrand, réalisatrice ; Enki Bilal, dessinateur, réalisateur ; Juliette Binoche, comédienne ; Sandrine Brauer, productrice ; Geneviève Brisac, écrivaine, éditrice ; Caroline Broué, journaliste ; Isabelle Broué, réalisatrice ; Michel Broué, mathématicien ; Claude Calame, historien ; Emmanuel Carrère, écrivain ; Caroline Casadesus, artiste lyrique ; Sorj Chalandon, écrivain ; Kim Chapiron, réalisateur ; Claire Chazal, journaliste ; Caroline Broué, journaliste, productrice ; Jeanne Cherhal, chanteuse ; Philippe Claudel, écrivain, réalisateur ; Hélier Cisterne, réalisateur ; Jean-Louis Comolli, réalisateur ; André Comte-Sponville, philosophe ; Pascal Convert, plasticien ; Catherine Corsini, réalisatrice ; Boris Cyrulnik, psychiatre ; Daniel Cohn-Bendi, ancien député européen ; Marie Darrieussecq, écrivaine ; Antoine de Caunes, animateur, réalisateur ; Émilie Deleuze, réalisatrice ; Claire Denis, réalisatrice ; Arnaud Desplechin,  réalisateur ; Vincent Dieutre, réalisateur ; Cyril Dion, écrivain, réalisateur ; Lola Doillon, comédienne, photographe, réalisatrice ; Dominique A, chanteur ; Valérie Donzelli, comédienne, réalisatrice ; Mathias Énard, écrivain ; Raphaël Enthoven, philosophe ; Jérémie Elkaim, comédien, réalisateur ; Abbas Fahdel, réalisateur ; Pascale Ferran, réalisatrice ; Laurence Ferreira-Barbosa, comédienne, réalisatrice ; Luc Ferry, philosophe ; Isabelle Filiozat,  auteur, psychothérapeute ; Jean-Pierre Filiu, historien ; Dan Franck, écrivain ; Denis Freyd, producteur ; Tony Gatlif, réalisateur ; Julie Gayet, comédienne, productrice ; Delphine Gleize, réalisatrice ; Raphaël Glucksmann, essayiste ; Yann Gonzalez, réalisateur ; Romain Goupil, réalisateur ; Joana Hadjithomas, réalisatrice ; Lucile Hadzihalilovic, réalisatrice ; Michel Hazanavicius, réalisateur ; IAM, groupe de rap ; Agnès Jaoui, comédienne, réalisatrice ; Khalil Joreige, réalisateur ; Sam Karmann, comédien, réalisateur ; Reda Kateb, comédien ; Maylis de Kerangal, écrivaine ; Cédric Klapisch,  réalisateur ; Héléna Klotz, réalisatrice ; Nicolas Klotz, réalisateur ; Gérard Krawczyk, réalisateur ; Serge Lalou, producteur ; Louis-Do de Lencquesaing, comédien, réalisateur ; Frédéric Lenoir, philosophe ; Vincent Lindon, comédien ; Bernard-Henri Lévy, philosophe, écrivain ; Manon Loizeau, réalisatrice ; Emily Loizeau, chanteuse ; Tonie Marshall, comédienne, réalisatrice ; Patricia Mazuy, réalisatrice ; Agnès Merlet, réalisatrice ; Radu Mihaileanu, réalisateur ; Ariane Mnouchkine, metteuse en scène et directrice de la troupe du Théâtre du Soleil ; Dominik Moll, réalisateur ; Edgar Morin, sociologue, philosophe ; Jean-Marc Moutout, réalisateur ; Safy Nebbou, réalisateur, metteur en scène ; Michel Ocelot, réalisateur ; Rithy Panh, réalisateur ; Antonin Peretjatko, réalisateur ; Élisabeth Perceval, réalisatrice ; Nicolas Philibert, réalisateur ; Bruno Podalydès, réalisateur, comédien ; Thomas de Pourquery, chanteur ; Jérôme Prieur, réalisateur, écrivain ; Katell Quillévéré, réalisatrice ; Reza, photographe ; Mathieu Ricard, docteur en génétique cellulaire ; Brigitte Roüan, comédienne, réalisatrice ; Daphné Roulier, journaliste ; Atiq Rahimi, écrivain ; Christophe Ruggi, réalisateur ; Martine Saada, éditrice ; Stephane Sanseverino, chanteur ; Éric-Emmanuel Schmitt, écrivain, dramaturge ; Colombe Schneck, écrivaine ; Barbara Schulz, comédienne ; Albin de la Simone, chanteur ; Florence Seyvos, écrivaine ; SMITH, artiste ; Juan Solanas, réalisateur ; Salomé Stévenin, comédienne, réalisatrice ; Chantal Thomas, romancière ; Mélissa Theuriau, journaliste, productrice ; Trân Anh Hùng, réalisateur ; Justine Triet, réalisatrice ; Colette Tron, auteur, critique ; Thomas Vincent, réalisateur ; Hyam Yared, écrivaine ; Samar Yazbek, écrivaine ; Rozschdy Zem, comédien ; Érick Zonc, réalisateur ; Ruth Zylberma, réalisatrice

 * * *

É evidente que todos estaremos de acordo em condenar a violação a que foram sujeitas mulheres sírias, aliás uma prática infelizmente nada invulgar em teatros de guerra. Parece, mas o manifesto não o refere, que também terão sido violados muitos rapazes, nas prisões ou no cenário de operações, neste caso não se sabe por quem. Assim como as mulheres violadas não o terão sido exclusivamente nas prisões.

Todavia, o verdadeiro objectivo do "Apelo", mais do que o interesse pela situação das mulheres sírias, é obter de Macron, se não uma intervenção na Síria, o que nesta altura se afigura improvável, pelo menos uma condenação pública de Bashar Al-Assad, e do regime legal do país, preocupação constante de muitos dos signatários, demonstrada ao longo dos últimos anos.

Entre os subscritores, não poderia faltar o inefável Bernard-Henri Lévy, famigerado arauto da invasão da Líbia e que deveria estar calado se ainda possuísse um mínimo de vergonha, e grande parte dos seus compagnons de route, incansáveis apoiantes do governo de Israel. Pelos apelidos os conhecereis.

AO PEDIREM QUE OS CARRASCOS (isto é o Governo e o Exército Sírio) RESPONDAM UM DIA PELOS SEUS CRIMES (como se não existissem também crimes dos terroristas islâmicos e até da chamada Oposição moderada) NADA MAIS É NECESSÁRIO ACRESCENTAR.


terça-feira, 3 de abril de 2018

REVISITANDO FRANÇOIS AUGIÉRAS





Conto entre os meus amigos do Facebook alguns importantes escritores franceses. Acontece que um deles referiu em recente post, não me recordo a que propósito, o livro de François Augiéras, Une Adolescence au Temps du Maréchal.

François Augiéras

Descobri François Augiéras (1925-1971) há pouco mais de vinte anos. Comprei então num alfarrabista francês a edição original de Le Vieillard et l'Enfant (1949), e posteriormente as reedições de Une Adolescence au Temps du Maréchal (2001; orig., 1968) e Le Voyage des Morts (2006; orig., 1959). Li oportunamente o primeiro (edição de autor publicada sob o pseudónimo Abdallah Chaanba) e o último, mas Une Adolescence au Temps du Maréchal et de Multiples Aventures, talvez por ser mais volumoso, ficou adormecido na minha biblioteca. A referência deste meu amigo suscitou-me a curiosidade de o resgatar do pó das estantes e de lê-lo prioritariamente a outros que se encontram em espera.

Marechal Pétain

Importa fornecer alguns dados biográficos sobre Augiéras, escritor singular e maior da literatura francesa, hoje praticamente esquecido mesmo no seu país (já nem falo no estrangeiro), com excepção de uma elite suficientemente informada sobre o homem e a obra.

François Augiéras nasceu em Rochester (New York), em 1925 e morreu em Périgueux, em 1971. O pai, um reputado pianista francês, que se instalara nos Estados Unidos, faleceu antes do seu nascimento, o que provocou o regresso a França da mãe e da criança, que foram viver para Paris, que François sempre detestou. Quando este tinha oito anos, mudaram-se para Périgueux, onde o jovem permaneceu até 1942, data em que ingressou num teatro ambulante. A sua vida torna-se depois errante, tal como o próprio a descreve no livro em apreço.

Esta vocação para o teatro fora despertada pela sua frequência dos movimentos de juventude, inspirados pelas juventudes hitlerianas, que proliferaram em França no tempo do marechal Pétain, então considerado como um herói nacional. Augiéras recorda a sua admiração pelos jovens soldados nazis que chegaram a Périgueux e que, numa primeira fase, eram extraordinariamente cordiais. Pétain gozava também de uma popularidade considerável na maioria da população, que só começou a desvanecer-se em 1942. Escreve no seu livro: «Une autre raison me pousse à partir en Afrique, au desert: le régime de Pétain tourne mal. Archaïque, paternaliste, idyllique, magique au début, il devient odieux, me semble-t-il, pour autant que je sois renseigné, c'est-à-dire assez peu. Depuis longtemps déjà je m'en suis écarté, sans y être entrer vraiment, mais enfin je regrette qu'il finisse honteusement. C'est une déception pour moi, une souffrance. Est-ce cela que me tourmente: l'écroulement d'une illusion, d'un univers candide, ancien, qui m'allait bien? J'ai frequenté tous les mouvements de Jeunesse; Pétain était "le père de tous les jeunes"; comme je n'ai pas eu de père cela m'en faisait un, symbolique; je le respectais cet homme-là, qui maintenant se trompe.» (pp.177-8)

Em 1944, Augiéras inscreve-se na frota, em Toulon, e dirige-se a Argel, onde não fica muito tempo, pois o apelo do deserto é muito intenso. Segue. assim, para El Goléa, no Sahara, onde vive o seu tio, militar francês do exército colonial, já na reforma. As relações com o tio são singulares, caracterizadas por uma atracção que não deixa margem para ambiguidades, mas ao mesmo tempo tempestuosas. O autor descreve-as em Le Vieillard et l'Enfant e também no presente livro.


Durante a permanência no deserto, Augiéras, que sempre se sentira atraído por rapazes e por raparigas, tem um encontro com um rapaz árabe (terá tido muitos!) que descreve assim: «Je connais un jeune Arabe, presque un enfant. Cet amour-là satisfait le meilleur de moi-même. Que faisons-nous? Ça reste extérieur, manuel. Cela se passe ainsi: C'est un rituel de la montée vers le ciel. Il y a d'abord la joie du premier regard échangé, la nuit, à l'angle d'un coin, la rencontre d'un visage soudain fraternel, d'un autre moi-même; moi, si j'étais arabe; d'un garçon indigène qui me ressemble un peu. C'est cela qui m'émeut: ce dialogue avec tous mes masques possibles.» (p. 217)

Continuando: «Je pose une main sur son épaule ronde, puis à sa taille que couvre une légère djellaba déchirée. Son visage est là, près du mien; ses yeux brillent, ses joues sont belles et divin son sourire. ses lèvres larges, sa gorge nue sentent la fumée des feux: il est beau, simple et tranquille devant les astres. Accoudé sur les dernières dalles, mon pistolet automatique posé près de moi, j'appuie ses douces lèvres chaudes contre les miennes. Monter là-haut, de nuit, s'est risquer de mourir, d'être égorgé, émasculé, enlevé, torturé, d'autres silhouettes, à chaque instant, en ces temps troublés, pouvant sortir de l'obscurité, m'attaquer au couteau. Je demeure attentif aux moindres bruits qui décéleraient une approche, sur mes gardes, prêt à tirer, prêt á fuir. Puis il y a la douceur des caresses. J'enlace sa taille souple, je touche ses yeux. Ses vêtements usés par le sable sentent l'Afrique, l'odeur des troupeaux, des feux de bivouac; ils sentent le plus lointain passé. Lèvres jointes, c'est alors la joie, l'ineffable joie que nous arrachons à nous-mêmes, chacun pour soi, dans un flot de plaisir - la joie lumineuse, les yeux fermés; du fond de mon être monte une flamme qui brille un instant sous mes paupières closes; une seconde intensément lumineuse. C'est cette flamme que je cherche sur les rochers près du ciel, au risque d'y laisser ma peau: une intense fraternité sauvage; une magie, une aventure de l'esprit. De la joie, pas du plaisir, car je suis monté sur les rochers après m'être à demi assouvi chez les filles du quartier réservé; un dernier assouvissement, mais de l'âme. J'appuie doucement contre mon visage, contre mes lèvres, un autre moi, un masque de moi se détachant obscurément sur les constellations du désert. Sur les rocs je cherche la lumière tirée des profondeurs de mon coeur, de mes entrailles, et sans doute aussi une qualité particulière de la tendresse qu'on ne rencontre que chez les adolescents primitifs, une tendresse arabe, ancienne, une douceur des gestes qui date des premiers temps du monde, quand je ne sais quoi de Dieu persistait chez les hommes.» (pp. 218-9)

Regressado a França, após variadas peripécias, Augiéras recorda: «Octobre 1949. Je rentre en France. Je suis ereinté par la vie infernale que j'ai connue cet été chez mon oncle. Je reviens chez ma mère: le premier acte d'une bien curieuse pièce est fini; je quitte mon théâtre qu'illuminaient chaque soir les constellations du désert, je laisse mon oncle à son musée saharien, à son grand lit de fer. Je passe par Laghouat, et pour une nuit je descends à l'hôtel; il y a une armoire à glace dans ma chambre, je m'y regarde; je ne me suis vu depuis plusieurs mois: je suis beau, j'ai vingt-quatre ans; je suis très brûlé, tanné par le soleil, amaigri, vêtu presque de loques. Il y a un terrible sourire sur mes lèvres, inquiétant, sauvage, heureux; j'arrive du sud.» (p. 222-3)

Importa realçar o estilo límpido de Augiéras e a precisão das suas imagens, que iluminam a estória que conta. Na sua prosa, o não-dito é tão perceptível como o que escreve. A crueza das situações é sempre transmitida com uma particular elegância. Por vezes, talvez pudesse economizar na descrição de certas situações, mas sente-se que uma necessidade interior o leva até ao pequeno pormenor, nomeadamente quando evoca a natureza.


De França, Augiéras ruma a Taormina (1950) para encontrar André Gide, que lhe escrevera uma carta felicitando-o por Le Vieillard et l'Enfant, que alguém lhe fizera chegar às mãos. Descobre o hotel em que Gide se hospedara, e apressa-se a encontrá-lo. «Mais c'est la mer Ionienne, me dis-je, penché à ma portière, en regardant des jeunes filles de quatorze ans se baigner en combinaison dans une eau chaude et plate! Leurs fréres nus se sèchent sur le sable, se lèvent au passage du train, montrant gaiement leur virilité, tandis que leurs soeurs s'accroupissent pudiquement dans un faible ressac, qui agite doucement leurs dessous de coton. Rien que des enfants nus sur les plages, et de grandes fillettes, depuis cent kilomètres - Gide ne doit plus être très loin.» (p. 229)

A descrição do encontro com Gide pode estar ficcionada, mas pode ser muito bem real. O encontro no hotel horroriza os hóspedes ingleses em férias: «Un sourire malicieux plisse ses lèvres minces. Il se passe alors cette chose insensée: devant les regards absolument horrifiés de plusieurs officiers de Sa Gracieuse Majesté - unanimes dans la réprobation - et en présence de leurs épouses - elles aussi unanimes dans la réprobation - Gide me prend fermement dans ses bras, et m'embrasse les joues, plus près des lèvres que des yeux.» (p. 231) - Talvez os ingleses não soubessem quem era André Gide, apesar de, naquela data, ele ter já recebido o Prémio Nobel da Literatura.

Mas François Augiéras é, na verdade, um homem só, como se conclui na segunda parte do livro "Et de Multiples Aventures". Um incompreendido e um revoltado. Viaja pela Argélia e pela Grécia e faz um retiro no Monte Athos. As aventuras perigosas seduzem-no, poderão constituir sempre matéria para livros.

Um texto pouco conhecido, que não li, é L'Apprenti sorcier (1964), uma obra considerada de uma força invulgar, em que um adolescente mantém relações masoquistas com um sacerdote, junto de quem vivia.

Em 1960, Augiéras casa com uma prima, mas a união dura pouca tempo. Continua a escrever. As condições de uma vida precária agravam o seu estado de saúde, sucedendo-se múltiplos internamentos no hospital de Périgueux. As dificuldades em ser editado contribuem para o seu desespero. Acaba por ser internado numa casa de repouso em Fougères e depois num hospício para pobres em Montignac. Morre no hospital de Périgueux em 13 de Dezembro de 1971.

Um dos seus raros amigos, Paul Placet, empenha-se em fazer conhecer a sua obra, quer divulgando os seus manuscritos, quer organizando exposições dos seus quadros, porque Augiéras também era pintor.


sexta-feira, 30 de março de 2018

A HOMOSSEXUALIDADE DE FERNANDO PESSOA





Comecei a ler o livro Homossexualidade e Homoerotismo em Fernando Pessoa, de Victor Correia. Quase 500 páginas compactas. A obra inclui uma introdução de 100 páginas e cerca de 400 páginas de transcrições dos livros hoje publicados de Pessoa (ortónimo, heterónimos, semi-heterónimo e pseudónimos) e de manuscritos existentes no espólio da Biblioteca Nacional.

Do pouco que já li, infiro que o autor está plenamente convencido da homossexualidade de Fernando Pessoa, ainda que o poeta possa não ter passado do pensamento ao acto. O que é duvidoso, ainda que possível.

Desde que mergulhei, há muitos anos, na obra de Pessoa, que, aliás, não conheço integralmente, sempre estive convicto de que o autor de Mensagem era homossexual. O trabalho exaustivo de Victor Correia, agora dado à estampa, vem confortar-me nessa convicção.

Não haverá, na infinidade de papéis de Pessoa, algum manuscrito que comprove uma prática homossexual? Ainda existem, hoje, centenas ou mesmo milhares de papéis por exumar. Ou dar-se-á o caso de se terem ocultado alguns escritos para "salvaguardar a sua imagem"! Tudo é possível.

Vou prosseguir a leitura do livro.

terça-feira, 27 de março de 2018

D. JOÃO VI E A ORDEM DE MALTA NO OCASO DO ANTIGO REGIME (III)

 


Concluímos, com a publicação da 3ª parte, a apresentação do texto da conferência do embaixador Fernando Ramos Machado, na Sociedade de Geografia, em 20 de Março passado:



Na verdade, a vida do Grão-Priorado do Crato parece seguir o seu rumo próprio, sem aparecer afectada por qualquer ingerência russa. Registam-se, aliás, alguns desenvolvimentos de relevo.

A 6 de Novembro, seis dias antes do ofício triunfalista do Ministro russo em Lisboa, o Príncipe Regente enviara ao Grão-Priorado o Regulamento Provisional que ele apresentara a Hompesch e que este, como vimos, aprovara em Maio, dois meses antes de resignar. Com este diploma, procurava-se ultrapassar o impasse criado pela desestruturação dos organismos centrais da Ordem, no seguimento da ocupação da Ilha pelos franceses. Era criado, na Corte, um Tribunal do Venerando Priorado de Portugal, que substituía a Assembleia da Língua de Castela e Portugal, que, anteriormente, funcionara em Malta, enquanto, numa fórmula que já encontrámos, se esperava “um feliz resultado de circunstâncias, em que seja estabelecida a Religião de Malta na sua antiga independência e unidade”. A primeira reunião teve lugar, a 11 de Novembro, no Palácio da Bemposta. Como Presidente do Tribunal, foi nomeado o Bailio de Acre e Fregim, Rodrigo Manuel Gorjão, como “anciano”, isto é, o Cavaleiro mais antigo.

A 27 de Novembro, D João comunica ao Grão-Priorado que, por motivos políticos, não poderia usar a Cruz da Ordem, que lhe fora oferecida, permitindo, porém, que seu filho, o Infante D. Pedro, a recebesse. Quais seriam os motivos políticos, invocados pelo Regente? Acharia, porventura, que não deveria acumular a Chefia do Estado com a Chefia do ramo de uma Ordem religiosa? Escrúpulos que, no outro extremo da Europa, Paulo I não teve.
 
 
Palácio dos Grão-Mestres da Ordem de Malta, em La Valetta

A 14 de Dezembro de 1799, D. Pedro, com pouco mais de um ano de idade, recebeu, das mãos de Frei Francisco de Carvalho Pinto, Gão-Prior de Hibernia, a insígnia de Grã-Cruz, marcando a sua instalação e reconhecimento como Grão-Prior hereditário do Crato. Essa dignidade cabia-lhe, já que era filho secundogénito, mais novo três anos que seu irmão D. António. Na menoridade de D. Pedro, seu pai seria Administrador do Grão-Priorado.

A Ordem de S. João de Jerusalém e a Ilha de Malta continuavam, entretanto, a ser objecto de disputas. Ainda em 1798, a Marinha inglesa, sob o comando de Nelson, impõe um bloqueio à Ilha. A Rússia tentou, em vão, assumir o domínio de Malta, quer fomentando uma revolta interna, quer aliando-se a Nápoles. Os franceses vieram a render-se, a 4 de Setembro de 1800. Os ingleses contaram, em dois períodos, com o apoio de uma Esquadra portuguesa, sob chefia do Marquês de Niza, tendo a sua actuação merecido os maiores elogios. Não deixa de ser tristemente irónico que, no ano seguinte, Portugal tenha sido “persuadido” a aceitar a ocupação da Madeira, por forças inglesas.

Um acontecimento imprevisto veio alterar substancialmente a situação na Europa – a 23 de Março de 1801, Paulo I era assassinado. Alexandre I retomou o título de Protector da Ordem de S. João de Jerusalém, mas procurou pôr termo à situação irregular em que seu pai a colocara. Desistiu de pretensões sobre a Ilha e, não pretendendo ser Grão-Mestre, devolveu aos Cavaleiros a escolha do seguinte. Na impossibilidade, dadas as circunstâncias, de reunir um Capítulo Geral, foi decidido um procedimento excepcional, submetendo-se ao Papa uma lista de nomes apresentados pelos Priorados (dela constando os portugueses Rodrigo Manuel Gorjão e Francisco Carvalho Pinto, já aqui mencionados). Pio VII acabou por escolher, em Fevereiro de 1803, Giovanni Battista Tommasi.

O Tratado de Amiens, de 17 de Julho de 1802, entre França e Inglaterra, reconhecia o direito da Ordem à Ilha de Malta, sob a alta protecção do Rei das Duas Sicílias, mas os ingleses nunca cumpriram. Quando o Grão-Mestre Tommasi manifestou vontade de se dirigir para Malta, não foi autorizado, pelo que ficou na Sicília (primeiro Messina, depois Catânia). Quando morreu, em 1805, Pio VII considerou não estarem reunidas as condições para a eleição de um Grão-Mestre, pelo que, até 1879, a Ordem de Malta foi dirigida por lugar-tenentes.

O Czar encerrou o “episódio russo” da Ordem de Malta, confiscando, em 1810-1811, as propriedades dos dois Grão-Priorados Russos, católico e não-católico, e confirmou, em 1817, a sua completa dissolução. Todas as associações que, actualmente, se apresentam como Ordens de Malta, reivindicando uma qualquer filiação russa ou ortodoxa, são de fantasia, não assentando em nenhum fundamento histórico ou jurídico.

Foram sendo formuladas alternativas, para proporcionar uma base territorial à Ordem. Ainda no final do Séc. XVIII, um Bailio alemão sugeriu a fusão daquela Ordem com a Teutónica (como, séculos antes, se havia ponderado uma fusão do Templo e do Hospital), a sua instalação em Ilha adriática pertencente aos Habsburgos e a criação de uma Língua Russa, aberta aos gregos desejosos de lutar contra o Império Otomano.

Em 1806, Gustavo IV da Suécia que, numa visita a S. Petersburgo, havia, de Paulo I, recebido a Grã-Cruz, veio colocar, à disposição da Ordem, a Ilha de Gotland, no Báltico, que, na Idade Média, chegara a ser momentaneamente ocupada pela Ordem Teutónica. A oferta foi declinada, pois os Cavaleiros ainda conservavam a esperança de recuperar Malta.                                                                          
Em Novembro de 1807, o Príncipe Regente, a Família Real e grande parte do escol dirigente partem para o Brasil, quando as tropas invasoras napoleónicas já tinham entrado em Território português. Nove anos antes, ao ocupar Malta, Napoleão não quisera aprisionar os Cavaleiros, que preferiu expulsar. Agora, Junot via frustrada a sua intenção de aprisionar o Príncipe Regente, colocando-o numa posição idêntica à de Carlos IV e do futuro Fernando VII de Espanha. Napoleão não abolira a Ordem de Malta, mas esta, sem Território e desestruturada, mantinha apenas uma sombra da sua Soberania. Napoleão podia decretar que a Casa de Bragança deixava de governar pois, no Brasil, o Príncipe Regente mantinha a base territorial da Soberania portuguesa.

 
Co-Catedral de S. João, em La Valetta

Com a queda de Napoleão, o Congresso de Viena ocupou-se em reorganizar a Europa. Portugal teve uma participação condigna naquele encontro, admitido no círculo das oito principais Potências. Já a ordem de Malta não conseguiu fazer ouvir a sua voz. Apresentou um memorial aos Soberanos e Plenipotenciários, no qual figura a seguinte passagem: ”Tendo a Ordem sempre beneficiado da alta protecção do Príncipe magnânimo que governa Portugal, podemos recear a perda das Comendas que foram conservadas pelo Priorado com tanto zelo e vigilância?” É confiança que se exprime, mas não isenta de dúvida. Com modéstia, afirma-se, no documento, que não cabe à Ordem, mas aos Soberanos, designar o local dum futuro estabelecimento, mas adianta-se que não deveria ser muito longe do centro do Mediterrâneo, ter um porto seguro e capaz de acolher todos os navios, bem como espaço para um arsenal, um lazareto, uma igreja, um hospital “ essência da nossa instituição”. Acrescentava ainda: “A Ordem não pede grandes coisas, mas o estabelecimento tem de ser independente e livre”.

Dois protagonistas do Congresso de Viena, Metternich e Talleyrand, tinham planos relativamente à Ordem de Malta. O primeiro sugeria que lhe fosse dada a Ilha de Elba, mas punha a condição de os Habsburgos terem o direito de nomear os Grão-Mestres. Já Talleyrand, nas instruções que redigiu para os Embaixadores franceses ao Congresso, afirmava que seria honroso, para a Inglaterra, juntar-se às Potências católicas, para obter uma reparação para a Ordem, à qual se “poderia atribuir Corfu, sem comprometer os interesses de nenhum Estado da Cristandade”. Mas, nem no Congresso de Viena nem, anos depois, no de Verona, a Ordem de Malta haveria de conseguir obter uma base territorial.

Em 1823, no quadro da luta dos gregos pela independência, houve um projecto, de contornos pouco claros, visando restabelecer a Ordem na sua antiga posse sobre Rodes. Chegou a haver diligências e negociações, mas a iniciativa acabou por fracassar.

Em 3 de Julho de 1821, chamado pela Revolução Liberal, D. João VI estava de volta a Portugal, deixando seu filho D. Pedro no Brasil.    

Por cartas de Janeiro de 1824, dirigidas ao Marquês de Palmela, Ministro dos Negócios Estrangeiros, Frei António Busca, Lugar-Tenente do Grão-Mestrado, oferece ao Rei e ao Infante D. Miguel, futuro Grão-Prior do Crato, a Grâ-Cruz da Ordem, em sinal de regozijo pelo regresso do Brasil da Família Real. D. João, que um quarto de século antes, declinara ostentar a Grã-Cruz de Malta, invocando motivos políticos, recebia-a, agora, a 12 de Janeiro, em cerimónia no Palácio da Bemposta. Mas, diferentemente do que ocorrera, em Dezembro de 1799, com D. Pedro, a insígnia não pôde, nesta ocasião, ser entregue a D. Miguel, que se encontrava em Viena, no seu primeiro exílio.

 
Paço da Bemposta

D. João VI faleceu naquele mesmo Palácio, a 10 de Março de 1826, muito provavelmente vítima de envenenamento. Vivera no ocaso do Antigo Regime, do qual, ele próprio, em certa medida, era também a imagem. Tendo reinado em dois Continentes, atravessou duas vezes o Atlântico, algo que, jamais, nenhum Monarca europeu fizera. E, entre todos os Reis portugueses, foi o único a ter sido, no decurso da sua vida, Rei absoluto e Monarca constitucional. Grão-Prior do Crato, seguiu atentamente as vicissitudes da Ordem de Malta, num período atribulado.

Seus filhos, D. Pedro e D. Miguel, que também assumiram a dignidade de Grão-Prior do Crato (VII), também reinaram, um como Monarca constitucional, o outro como Rei absoluto. Uma guerra civil, duplamente fratricida, dividiu o País e, só no final dela, se pôde considerar abolido, definitivamente, o Antigo Regime, em Portugal. Em Junho de 1834, D. Miguel parte para o segundo exílio, menos de quatro meses depois, falecia D. Pedro IV. No quadro do Decreto de 30 de Maio desse ano, que extinguia as Ordens Religiosas, o Grão-Priorado do Crato fora abolido e, até ao fim do século, não haveria presença da Ordem de Malta em Portugal.

Mas, nesse mesmo ano, 1834, a Ordem de Malta fixava a sua Sede em Roma, onde ainda hoje se encontra, em instalações que beneficiam da extra-territorialidade. Terminava, assim, a errância que, desde 1798, levara a Ordem, de Malta, a Trieste e S. Petersburgo, Messina, Catânia e Ferrara. Era também o termo de uma peregrinação, começada em Jerusalém quase 800 anos antes Despida do carácter militar que, durante séculos, assumira tão gloriosamente, a Ordem regressava ao seu propósito inicial, humanitário, ao serviço dos pobres e dos doentes.

* * * * *

 (I) Por uma aparente ironia, não incluo, neste número, aquele que ficou, na História Portuguesa, como “o” Prior do Crato, D. António, sendo a razão para tal a circunstância de não ser consensualmente reconhecido como Rei de Portugal.

(II) A designação oficial é, actualmente, Ordem Soberana Militar Hospitalária de S. João de Jerusalém, de Rodes e de Malta.

(III) Outros cargos eram os de Grão-Preceptor (Provença), Grão-Marechal (Auvergne), Grande Hospitalário (França), “Drapier” (Aragão), Almirante (Itália), “Turcopilier” (Inglaterra),  Grão-Bailio (Alemanha).

(IV) Gáfete, Sertã, Amieira, Proença-a-Nova, Cardigos, Oleiros, Belver, Envendos, Gavião, Tolosa, Carvoeiro e Pedrogão Pequeno.
(V) Designadamente Leça (Bailiado), Vila Cova, Oliveira do Hospital, Vera Cruz e Portel, Oleiros, Santa Eulália da Ordem, Águas Santas, Chavão, Ansemil, Sernancelhe, Barrô, Frossos e Rossas, Rio Medo, Alvações, Freixiel, Abreiro, Moura Morta, Elvas e Montoito, Fontes, Trancoso. 

Num trabalho recente, de António Brandão de Pinho, reproduzem-se 87 Brasões autárquicos, nos quais figura a Cruz de Malta, o que ilustra bem a implantação que os Hospitalários alcançaram no Território português.

(VI) Os membros do Grão-Priorado, conforme vejo numa relação da altura, seriam 74, provenientes sempre de famílias com poder e influência. O seu número deveria ser mais ou menos constante, pois, da leitura de outras listas, verifica-se que, entre 1692 e 1775, quase 100 portugueses terão sido admitidos na Ordem de Malta.

(VII) Devo ao meu caro Colega e Amigo Dr. Paulo Santos, actualmente Conselheiro na nossa Missão junto da ONU e, anteriormente, na Embaixada em Moscovo, o ter chamado a minha atenção para esta publicação.

(VIII) Há alguma indefinição quanto às datas em que D. Pedro e D. Miguel foram Grão-Priores do Crato. Como vimos, D. Pedro foi investido naquela dignidade a 14 de Dezembro de 1799. Na capa interior da “Lista dos Cavalleiros, Freires Capellães Conventuais e Serventes D’Armas do Venerando Priorado de Portugal”, de 1800, figura um retrato do “Sereníssimo Senhor Infante D. Pedro, Grão-Prior do Crato”. A “Nova História da Militar Ordem de Malta e dos Senhores Grão-Priores della em Portugal”, de José Anastácio de Figueiredo, também de 1800, porém, é “oferecida a S.A.R. o Grão-Prior actual, o Príncipe Nosso Senhor”, isto é, o Príncipe Regente; mas D. João seria, mais propriamente, Administrador do Priorado, dada a menoridade de D. Pedro.

A “Dissertação Histórico-Jurídica sobre os Direitos e Jurisdições do Grão-Priorado do Crato”, de 1809, da autoria de Pascoal José de Melo Freire, contém uma passagem, pelo menos, que aponta noutro sentido: ”mas o Príncipe Nosso Senhor conhecendo que a ele só, como Grão-Prior na menoridade de S.A.R. o Sereníssimo Senhor Infante D. Miguel, a quem Deus prospere (…)”. Haveria plausibilidade para tal afirmação – com a morte de seu irmão mais velho, D. António, em 1801, D. Pedro tornou-se Príncipe Herdeiro. A seu irmão D. Miguel, nascido em 1802, caberia a titularidade da Casa do Infantado e do Grão-Priorado, mas tal não se teria concretizado, em 1809, pelo que haveria um lapso na obra (aliás póstuma, de Pascoal de Melo).

Dois documentos de 1821, das Cortes Gerais, saídas da Revolução do ano anterior, afiguram-se relevantes:

Num debate, a 9 de Maio, um Deputado, que teve conhecimento que, nesse dia, iria ter lugar uma reunião do Grão-Priorado do Crato, no Paço da Bemposta, pretende que seja impedida a sua realização, ainda que a mesma contasse com autorização “de S. Majestade e do Sereníssimo Príncipe, o Senhor D. Pedro, Grão-Prior do Crato” (a votação não vai nesse sentido).

A 7 de Julho, escassos dias após o regresso de D. João VI a Lisboa, as Cortes aprovam o Decreto nº 103, cujo art.º 6 estipula “Continuará El-Rei no Administração da Casa do Infantado, consignando ao Sereníssimo Senhor Infante D. Miguel as mezadas que julgar convenientes”. Estariam, nesse momento dissociadas as duas titularidades, D. Pedro com o Grão-Priorado, D. Miguel com a Casa do Infantado.  

D. João VI manteria a Administração desta última, ou talvez de ambas, mais provavelmente, ainda, no que toca ao Grão-Priorado, quando D. Pedro decidiu ficar no Brasil e quando, pouco depois, D. Miguel partiu para Viena, no seu primeiro exílio. D. Miguel veio a assumir ambas as titularidades, após a morte de seu pai, em 1826, e até ao final do seu Reinado, em 1834.