segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O FIM DA "EUROPA"




Apraz-me transcrever este artigo de José Pacheco Pereira, porque de alguma forma ele corrobora opiniões que tenho já expendido. A minha única dúvida, se dúvida existe, reside no facto de não estar ainda absolutamente certo se a política "comunitária" prosseguida pelos actuais dirigentes europeus resulta da sua inanidade, ambição, obstinação, ignorância da História, etc., ou se, pelo contrário, ela configura uma deliberada vontade de fazer estilhaçar a União Europeia, com propósitos certamente inconfessáveis mas provavelmente bem delineados. 

Escreveu Pacheco Pereira no "Público":

Tudo está armadilhado

A “Europa” actual quer a queda do governo Costa e por isso o humilha com novo pacote de austeridade, e força a ruptura com o BE e o PCP.
Eu já não estou muito para surpresas, mas ainda tenho alguma capacidade de ficar surpreendido. E por isso me surpreende a ligeireza, para não dizer irresponsabilidade, como que os partidos da actual maioria tomam o que estão a fazer, ou melhor, o que não estão a fazer. Ou seja, meteram-se num curso muito arriscado, perigoso, cheio de dificuldades, e comportam-se como se houvesse uma qualquer normalidade na actual situação que ajudaram a criar, e como se pudessem continuar a fazer política “habitualmente”.

Preciso desde já que esse curso — um governo minoritário PS com apoio parlamentar do BE e do PCP — me parece positivo, para puxar a alavanca para o lado oposto daquele para que estava toda inclinada, à direita, e assim abrir caminho a um recentramento da vida política portuguesa. Hoje, a única possibilidade de um regresso ao centro,  centro-esquerda, centro-direita —, é haver sucesso num governo de centro-esquerda que acabe com o estado de excepção que era o “ajustamento” eterno, com uma efectiva limitação à democracia e a perda quase total da soberania.

Se Costa não tivesse rompido com o “arco de governação”, a governação PSD-CDS continuaria exactamente a mesma política, porque ela é pensada como sendo para 20 ou 30 anos, como se isso fosse possível em democracia e, como não teria resultados, teria que ser eterna. Para ser “eterna” teria que ser cada vez mais autoritária, como já estava a ser.

O outro factor positivo foi a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa num quadro de “esquerda da direita”, ou seja, ao centro, que, se o Presidente eleito permanecer fiel à sua campanha, pode ajudar também a virar essa alavanca que Passos, Portas e, no fim do mandato, Cavaco, com o apoio político da Europa do PPE, puxaram praticamente até ao chão. Não sei se isto resulta  governo de centro-esquerda mais Presidente moderado —, mas, aqui sim, não vejo outra alternativa hoje. Pode haver amanhã, mas hoje não há, ou há sucesso ou há desastre. Por isso não me é indiferente esta experiência governativa, não sendo este o “meu” governo, por muito que assobiem as intrigas das claques.

Dito isto, no actual contexto europeu, o que se está a passar em Portugal, sendo na verdade apenas uma tímida mudança, é tratado quase como uma revolução e, como tal, mobiliza as gigantescas forças que estão preparadas para matar no ovo qualquer desvio menor que seja ao cânone alemão. O governo de Costa tem todas as probabilidades de ser derrubado pela Europa do PPE e dos socialistas colados aos alemães, seja directamente por um qualquer “chumbo” europeu, seja indirectamente pela obrigação de aplicar políticas que lhe retirem o apoio parlamentar do BE e do PCP.

O Orçamento de 2016 foi apenas uma amostra e o governo saiu já bastante magoado dessa amostra, que lhe abastardou a política que pretendia seguir, criou desconfianças e distâncias com os seus aliados e colocou-o junto da opinião pública como um governo fragilizado, errático nas finanças e na economia, mesmo incompetente. O comportamento de diktat europeu para as décimas do défice, a sucessão de declarações hostis sobre os “riscos” da política portuguesa de incumprimentos vários às “regras” do Tratado Orçamental, contrasta com a complacência face a idênticos incumprimentos do governo anterior, que, como era “amigo”, tinha margem de manobra e podia no fim esnobar dos relatórios do FMI, que hoje brande contra o PS.

Aliás, a dureza e hostilidade que existem contra o governo de Costa, contrastam com a vontade dos principais dirigentes europeus darem a Cameron medidas que significam recuos importantes (e que também estão nos Tratados) em matéria de liberdade de movimentos e direitos sociais dos emigrantes, para que este volte com um frágil papel para convencer os eleitores ingleses que afinal, com uma longa lista de opting out, ainda podem continuar na Europa. Ou seja, em matéria de direitos sociais, a mesma Europa que não cede a Portugal uma décima no défice sem vilipendiar um governo eleito, está disposta a abdicar perante a pressão inglesa. Na economia do “ajustamento”, não há um milímetro de cedência às “regras”, nos direitos sociais, tudo é negociável. Por tudo isto, a “Europa” actual, Schäuble, Dijsselbloem, Moscovici, Dombrovskis, mais as suas cortes de funcionários zelosos, a última coisa que desejam é que possa haver qualquer mitigado sucesso de um governo que está a cometer esse crime de lesa-economia que é “reverter” salários e pensões, taxar fundos e bancos e não ao contrário.

O braço armado desta política é, hoje, em Portugal o PSD de Passos, que está convencido de que o seu regresso ao poder é a curto prazo. Passos continua a comportar-se como se fosse um Primeiro-ministro usurpado, de bandeirinha governamental na lapela, a fazer falsas inaugurações, e anda na Europa, o seu grande aliado, a instigar a fronda contra a política do governo e a falar para a as agências de rating e os mercados mostrando-lhes qual o sentido político que pode ter em Portugal uma subida de juros ou um abaixamento de rating: destruir o governo “deles”. Sempre que falam em “preocupações”, mesmo com análises falsas como as das subidas de juros há uma semana, percebe-se muito bem que mais do que preocupações são desejos.

PS, PCP e BE incitaram a sua experiência fora do “arco da governação”, derrubando um governo assente no partido que ganhou as eleições, e apoiando um partido que as perdeu. O primeiro não tinha maioria parlamentar, o segundo tinha, por isso o novo governo tem toda a legitimidade, mas parte sempre fragilizado e só pode superar essa fragilidade pela qualidade e integridade da governação. Ora esse acrescento de legitimidade está a fazer-se no meio de uma ecologia venenosa, num terreno armadilhado e com forças poderosas muito para além de uma apatia desconfiada, numa actuação agressiva.

Tem a hostilidade aberta dos meios de comunicação social, salvo raras excepções, que se comprometeram com as principais ideias do “ajustamento”, quer com proselitismo, como aconteceu com muita imprensa económica, quer interiorizando o modo como se colocam os problemas com a “gramática” dos “ajustadores”. O “não há alternativa” entrou profundamente no espaço mediático e no espaço público e, por isso, qualquer inversão, “reversão” como agora se diz, é vista como uma blasfémia incompetente, uma cornucópia de custos por pagar, um risco de bancarrota ao virar da esquina. A “economia”, como eles a pensam, tornou-se única e inquestionável e por isso o mundo ou é de Sócrates e da bancarrota ou é de Passos e da troika, não há meio termo.

Este comportamento reflecte também o dos principais interesses económicos presentes na governação do PSD-CDS, e que com eles formaram uma forte aliança, assente no primeiro governo em Portugal que se pretendia comportar como uma empresa, pensava como se o país fosse uma empresa, despedia para flexibilizar, diminuía salários e pensões, e acima de tudo queria quebrar a espinha a essas sobrevivências arcaicas do 25 de Abril como eram sindicatos e greves. Esses interesses económicos, que são de uma parte da economia, e não necessariamente da mais eficaz, sentem-se também usurpados do instrumento da governação, e por isso farão a vida negra ao PS, até o derrubarem ou o comprarem em todo ou à peça.

Face a esta ecologia, o PS comporta-se como se pudesse continuar a governar como sempre fez, dá umas coisas a uns e espera sentado pela sua fidelidade; tira umas coisas a outros e depois assusta-se, recua e avança como pode. Ainda não interiorizou o preço que tem a pagar se esta experiência falhar e não tem sentido de urgência face aos riscos, principalmente europeus que estão aí à porta. A “Europa” actual quer a queda do governo Costa e por isso o humilha com novo pacote de austeridade, e força a ruptura com o BE e o PCP. Sim, porque o PS num dilema, vai escolher a “Europa” e deixar o país ao PSD e CDS.

PS, BE e PCP ou reforçam de qualquer modo a coordenação política, que lhes permita ganhar algum ânimo colectivo e defrontar em conjunto e de forma capaz toda a tempestade que cai e vai cair sobre o governo, ou vão ter um lindo enterro. Lindo porque deve estar sol, mas só por isso.

SOBRE FERNANDO PESSOA

 Com a devida vénia, transcrevemos a interessante entrevista concedida ao jornal "Sol" por Teresa Rita Lopes:

Teresa Rita Lopes: ‘O Fernando Pessoa anda por aí todo deturpado’

Estuda a obra de Fernando Pessoa há meio século e já deu a volta aos 27 mil documentos do espólio por mais de uma vez. Teresa Rita Lopes, que acaba de publicar Livro(s) do Desassossego, fala sobre a sua relação com o poeta e sobre ‘o vandalismo’ da edição crítica.



Porque achou que era preciso mais uma edição do Livro do desassossego, quando já existem tantas?

A última foi uma edição crítica do Jerónimo Pizarro. Quando ele veio para Portugal, no início de 2000, foi meu aluno e do Fernando Cabral Martins, de maneira que acho que lhe pegámos esse interesse pelo Pessoa. Não ficou no meu grupo por razões que não vêm ao caso, e foi trabalhar para o grupo do atual orientador da edição crítica, que se chama Ivo Castro. Sabe disso, não sabe?

Não.

Quando fez 50 anos da morte do Pessoa, em 1985, o António Alçada Batista, que foi um grande obreiro da cultura, constituiu uma comissão para os festejos. E essa comissão decidiu que íamos fazer uma edição crítica do Pessoa, porque até aí cada um fazia as edições a seu bel-prazer. O Alçada Batista convidou-me, mas eu disse: ‘Não entro para esse convento’.

Porquê?

Porque não sou filóloga e aborrecem-me aquelas edições críticas, que são muito chatas, com muitas notas de rodapé. Gosto de fazer edições muito mais depuradas e que deem prazer ler. E foi então designado esse senhor, Ivo Castro, que é filólogo e professor na Universidade de Letras. Só que o homem é medievalista, de Pessoa não percebe patavina, e escreveu um livro em que diz que para se fazer uma edição crítica de Pessoa é preciso não perceber nada de Pessoa.

Para ter distanciamento?

Para ter uma objetividade científica. O que é um perfeito disparate, porque esse método só poderia ser aplicado a textos publicados em vida pelo autor. Antes do Ivo Castro, foi designada para fazer isso uma senhora italiana especialista em Literatura Portuguesa chamada Luciana Stegagno Picchio. E ela dizia-me: ‘Ó Terresa, vamos fazer isso’ [com sotaque italiano]. ‘Mas vamos fazer isso como?’. ‘Meto no computor’ [risos]. Nessa altura eu já tinha estado no espólio e sabia que aquilo é tremendamente difícil.

De decifrar?

Em 1990 publiquei dois calhamaços chamados Pessoa por Conhecer. É que toda a gente fala do Pessoa como se o conhecesse. Estava à procura desse livro para lhe mostrar. Então leia lá este manuscrito do Álvaro de Campos.

‘A alma humana é porca como…’

[Ri-se] Leia por cima que é mais fácil.

‘Um cu’.

O Pessoa faz isto: quando escolhe mesmo, risca o que está na linha corrida. Mas a maior parte das vezes não risca, e põe uma variante em cima, ao lado ou entre parêntesis. As edições críticas tratam da mesma forma a emenda e a variante. Aqui não faz diferença porque o que estava na linha corrida era ‘como um ânus’ e assim até fica mais forte. Agora leia o resto.

‘E a vantagem dos…’.

É o que está a pensar.

‘A vantagem dos cara****”?!

É isso mesmo. Uma das coisas que divertiu muito as pessoas é que na primeira edição crítica eles leram ‘canalhas’ porque acharam que o Pessoa não podia ter escrito um palavrão. Mas neste caso é mais pela curiosidade. No Alberto Caeiro é mais evidente. Eles assassinaram o Alberto Caeiro, com esse processo de confundir a variante com a emenda. Fazem as escolhas que o Pessoa não fez.

Assassinaram? Mas o que lá está não deixa de ser Pessoa…

Quando fazem uma edição crítica e dão notícia das variantes, tudo bem. Agora as edições que o Ivo Castro coordenou para o Expresso já não dão notícia da variante, portanto o texto fica perfeitamente definitivo, e é aquilo que os meninos vão levar para a escola e que os tradutores vão usar.  O Pessoa ainda anda por aí todo deturpado e deformado e é por isso que estou com um espírito de missão de o salvar do vandalismo da edição crítica.

Porque começou a fazer edições do Pessoa se dizia que não queria entrar para esse convento?

Em 1990, o David Mourão Ferreira, que eu estimava muito, chamou-me: ‘Teresa Rita, tem de fazer a crítica a este livro, ao Álvaro de Campos’. E eu disse-lhe: ‘Nem pense, tinha de ir a todos os originais e demorava dois anos.’ Só que ele era um homem inteligentíssimo e percebeu como havia de me convencer. ‘Se a Teresa Rita não fizer ninguém faz, e tem a obrigação cívica de o fazer’. Perante isso, rendi-me. Levei dois anos. Nessa altura era mais difícil porque tínhamos de ir para a Biblioteca Nacional, manusear aqueles papelinhos todos. E saiu uma edição minha do Álvaro de Campos, contestando a do Ivo Castro.

Pode falar-me sobre a sua experiência de lidar com os originais?

Antes de morrer, o Pessoa começou a arrumar os seus livros. Fez maços e esses maços estão hoje na Biblioteca Nacional como foram achados em casa dele. Quando foram arrolados na BN eles respeitaram isso. Agora o nosso trabalho de investigadores está muito facilitado. Já não precisamos de ir consultar os originais na Biblioteca Nacional porque muitos de nós temos um disco externo.

Com tudo digitalizado?

Sim, a senhora da BN deu isso aos investigadores. Depois os investigadores passaram aos seus discípulos – foi o meu caso. Hoje em dia todos os que trabalham em Pessoa têm isso. Às vezes é mesmo necessário ver o original, mas no computador a gente pode ampliar, de maneira que eu, de cada vez que faço um livro destes, volto sempre a ver os originais. Já dei a volta aos 27 mil e tal documentos mais de uma vez – estou muito distraída a ver aquilo. Ainda ontem tive o prazer de descobrir dois novos poemas do Ricardo Reis que estão metidos no meio de outras coisas. Às vezes ele escrevia até no rol da roupa suja, aproveitava todos os papelinhos, e nós temos que ver cada papelinho como um detetive, à lupa.

A caligrafia muda consoante o heterónimo que está a escrever?

É verdade que sim, porque ele faz questão de se despersonalizar. Isto tem qualquer coisa de espírita.

Como se o médium encarnasse o espírito da pessoa?

Ele fazia escrita mediúnica, escrita automática, a ver se os espíritos se manifestavam através dele. Veja aqui, isto é a assinatura dum espírito. Ele fez este poema e depois o espírito disse-lhe: ‘No good’ – não presta. Ele estava sempre nesse limiar entre acreditar e brincar com isso. Olhe este aqui: ele faz este poema e no fim assina ‘Vardur [um dos espíritos] + Pessoa’. E depois o Vardur diz-lhe assim: ‘This poem is yours, my boy’.

Além do espiritismo e da astrologia, Pessoa interessava-se por outras áreas?

Ele era um extraordinário estudioso. Deve ter havido poucas pessoas tão cultas neste país como ele. Porque ele vivia para essa ânsia de saber. Lia, lia, lia – já desde miúdo que era assim – comprava todos os livros que conseguia, depois vendia-os para comprar outros. Interessava-se por tudo. Escreveu sobre sociologia. Sobre as ciências da psique – meu Deus, o que ele escreveu! As pessoas pensam que ele era só um poeta, mas não. Mais de metade dos textos do espólio continuam inéditos. Ainda há muitos livros de Pessoa que deverão ser feitos.

Porquê o interesse pela psicologia?

A avó paterna dele morreu louca e ele assistia aos acessos de loucura da avó em pequenino. Toda a vida ele se preocupa com o que chama ‘génio e loucura’. O Pizarro até reuniu esses textos – ele é um grande trabalhador, não digo mal do meu aluno. Só tenho pena que tenha seguido o método da edição crítica.

Pode falar-me da sua relação com o Pessoa, como o descobriu?

A minha relação com esse rapaz… Descobri o Pessoa aí pelos meus 13 anos no Liceu de Faro. Ia à Biblioteca do liceu e depois tinha um caderninho onde escrevia os poemas de que gostava. O Álvaro de Campos é que me caiu no goto.

Mais tarde vai para França. A relação com Pessoa mantém-se?

Em Novembro de 63 a PIDE não sabia que eu tinha mudado de casa e foi-me prender à antiga casa. Entretanto fui avisada e raspei-me no dia seguinte no Sud Expresso. Em Paris nessa altura não se sabia quem era o Pessoa. O meu diretor de tese, um homem muito célebre na altura, quando eu lhe falei do Pessoa, disse: ‘Eu não conheço’. Hoje não há nenhum estudioso ou mesmo pessoa culta em França que se atreva a dizer que não sabe quem é o Pessoa.

Ainda assim podia estudar bem Pessoa a partir de Paris?

Comecei a vir a Portugal em 1969, depois de o Salazar cair da cadeira. E a primeira coisa que eu fiz foi ir para o baú, em 69. E de 69 a 75 mexi no espólio diretamente.

Recorda-se da primeira vez que foi ao baú?

Para consultar o que estava na casa da irmã tinha de ter uma autorização e fui ao ministério para a pedir. O senhor que lá estava não ma deu e eu estava a ver aquilo muito mal parado. O Veiga Simão, quando soube do que se tratava, mandou-me chamar e disse que sim. Comprei uma máquina de fotocópias muito complicada e comecei a ir para a casa da irmã, que me recebia muito bem.

Era a única pessoa lá?

Na altura aquilo estava a ser arrolado por umas senhoras da BN que nem sei donde vinham, mas tiveram um excelente papel, porque numeraram aquilo tudo. Aqui há tempos fiz para o SOL um texto sobre a segunda arca do Pessoa. Na altura descobriu-se que a família tinha ficado com dois mil e tal documentos que não vendeu à BN e que estava a vender em leilões. Isso é grave porque refazer a obra do Pessoa não é como refazer um puzzle. É refazer vários puzzles. Quando faltam peças é uma chatice.

É quase como uma escavação arqueológica?

Refazer a obra do Pessoa exige de nós gosto e o talento para a arqueologia, porque é reunir as pedras dispersas daqui e dali. As senhoras da BN davam-me os envelopes, e eu ficava ao pé delas a ver aquilo tudo, a fotocopiar e a assistir às conversas. O Pessoa, prevendo que ia morrer, deixou aquilo arrumado. Só que a irmã era uma senhora muito simpática e deixava toda a gente mexericar naquilo. Quando as arroladoras lá chegaram, aquilo já estava tudo misturado. Elas pegavam num papel, uma lia alto e a outra dizia assim: ‘O homem era mesmo maluco’.

A irmã partilhou memórias consigo?

A irmã disse-me uma coisa de que já desconfiava: que o Pessoa era extremamente pudico da sua obra e da sua vida particular. Falava pouco de si. A irmã dizia-me: ‘Ai, nós não fazíamos a mínima ideia de que o Fernando viesse a ser tão importante’. [risos] Eles não davam nada por ele.

Pessoa trabalhou até morrer?

Sim. O que vem na certidão de óbito é que morreu com uma cólica hepática. Agora estão a fazer diagnósticos depois de morto – em que eu não acredito muito – um médico até escreveu um livro sobre isso.

Temos dados suficientes para reconstituir um dia na vida dele?

Mais ou menos. Ele viveu toda a vida com apertos de dinheiro, apesar de ter recebido cinco contos de réis do prémio da Mensagem. Tinha de ganhar o pão com o suor do rosto. Simplesmente exigia não ter horários fixos. Era a sua liberdade. Como era muito conceituado pelos patrões – escrevia cartas comerciais em francês e inglês – além do mais tinha feito um curso comercial no último ano em que esteve em Durban, 1904.

Era um bom funcionário?

Os patrões prezavam-no imenso, davam-lhe muito valor. Mas ele queria ganhar à peça, não ganhava ao mês nem à semana, para ter a liberdade de ir lá quando lhe apetecia. Passava pelos escritórios – tinha mais do que um – para fazer as cartas que deixavam para ele. Mas tinha crises do que ele chamava neurastenia – uma vez escreveu a um amigo: ‘Tive uma crise de neurastenia que me atou o cérebro’ – havia períodos em que não podia trabalhar. Ele foi um homem muito infeliz, de certa maneira.

Mas também deve ter tido momentos de grande exaltação criativa e satisfação.

A gente percebe pelos manuscritos que ele escrevia num frenesi, numa exaltação. A sua mão não acompanhava a vertigem do seu pensamento. Devia ser aquilo que chamam um ciclotímico [alguém que alterna períodos de euforia com períodos de depressão].

Como é que consegue isto nas horas livres? Roubava ao sono?

Ele normalmente ia à tarde. Provavelmente escrevia à noite. E tinha insónias. Por isso é que não durou muito tempo. Além do mais curtia as suas bebedeiras.

Em casa?

Em casa. Aliás ninguém o via bêbedo. Conheciam-no por isso. Às vezes levantava-se do escritório e ia beber um bagaço durante as horas de trabalho. Mas isso deixava-o imperturbável.


domingo, 19 de fevereiro de 2017

O ANTIGO TESTAMENTO

Frederico Lourenço
Porquê o Antigo Testamento grego?

Eu diria em primeiro lugar porque, graças à sua maravilhosa urdidura literária e ao seu grande interesse histórico, o Antigo Testamento grego é de inestimável importância para o estudo diacrónico do Cristianismo. É a partir da versão grega do Antigo Testamento que Jesus Cristo, pela mão dos evangelistas, cita a Escritura judaica. Paulo, por seu lado, é um profundo conhecedor do Antigo Testamento grego e é com base nele que está construída a sua teologia. Na verdade, a primeira Bíblia das primitivas comunidades cristãs foi justamente a versão grega (recorde-se que o latim só passou a ser a língua da Igreja romana a partir do final do século II, quando pela primeira vez houve um bispo de Roma falante de latim: o Papa São Vítor, que morreu em 199). Para todos os padres da Igreja que escreveram em grego até ao fim da Idade Média, a Bíblia dos Setenta («Septuaginta») era, simplesmente, a Bíblia.

Mas há outro aspecto enriquecedor, que faz do Antigo Testamento grego um universo (até hoje desconhecido em língua portuguesa) que é fascinante conhecer: o facto de o texto da versão grega nos trazer subtis (e por vezes flagrantes) diferenças relativamente ao texto hebraico. Ler o livro de Génesis ou o Cântico dos Cânticos por esta versão é ler um texto que nos revela novas iluminações. Recorde-se que, mesmo em meios da diáspora judaica no século I da nossa era (e para intelectuais judeus de comprovado discernimento como Fílon de Alexandria), “a versão grega da Escritura judaica era tida como inspirada e correcta em todos os aspectos e o texto dos Septuaginta era frequentemente considerado melhor do que o original hebraico” (E. P. Sanders, Paul, 2015, p. 27). Assim, para estudiosos da Escritura Sagrada, do Judaísmo e do Cristianismo, o Antigo Testamento grego é um marco da cultura universal que – pela seu valor religioso, estético e histórico – urge conhecer.

Como se isso não bastasse: por um acaso do destino – e por estranho que isso possa parecer a muitas pessoas –, o texto grego do Antigo Testamento chegou até nós numa forma mais antiga do que a forma sob a qual nos chegou o texto hebraico completo (não obstante o texto hebraico ser naturalmente anterior e – numa forma diferente da que chegou completa até nós – ter servido de base ao texto grego).

Na verdade, o mais antigo manuscrito completo do texto hebraico (o Codex Leningradensis, de Sampetersburgo) é do início do século XI d.C. (a data foi registada pelo copista: 1008).

Por outro lado, os dois manuscritos mais antigos que nos preservam o Antigo Testamento grego foram copiados 600 anos antes do Codex Leningradensis, pois são dos séculos IV d.C.

Ora o afastamento temporal de 600 anos entre as duas versões do Antigo Testamento (a grega e a hebraica) explica, em parte, as muitas diferenças de pormenor (e outras mais avultadas) que detectamos entre o texto grego dos Septuaginta e o texto do Tanakh (Antigo Testamento hebraico). Estas diferenças (pelo menos as mais relevantes e expressivas) são comentadas nas notas que acompanham a minha tradução, pois as divergências entre o texto grego e o texto hebraico do Antigo Testamento constituem um tema de primacial importância para todos aqueles que se interessam pela história do judaísmo e do cristianismo.

Sobretudo para historiadores dos primeiros séculos do cristianismo, o conhecimento do Antigo Testamento na versão dos Septuaginta afigura-se absolutamente obrigatório. Isto porque o Antigo Testamento pressuposto pelo Novo Testamento, e citado no Novo Testamento, é o Antigo Testamento grego – e não o hebraico.

Colocando a questão da forma mais objectiva possível: só a quem lia o Antigo Testamento em grego é que ocorreria aduzir, como comprovativo profético da virgindade de Maria, a frase de Isaías 7:14 sobre a virgem que «terá no ventre um filho e o parturirá» (cf. Mateus 1:23). Só quem lia o Antigo Testamento em grego é que confiaria, como Paulo faz três vezes (Romanos 4:3, 9; Gálatas 3:6), que a forma verbal por ele citada a partir de Génesis 15:6 está na voz passiva. A realidade é que, no texto hebraico de Isaías 7:14, não está a palavra «virgem»; nem no texto hebraico de Génesis 15:6 encontramos a forma verbal, repetidamente citada por Paulo, na voz passiva. Tanto Mateus como Paulo estão a fundamentar o seu próprio texto com base em realidades linguísticas que não existem no Antigo Testamento hebraico. Só existem no Antigo Testamento grego: no texto dos Septuaginta.
Ora as passagens referidas do Novo Testamento (a que poderíamos juntar uma lista infindável de outras) mostram-nos quanto os primeiros autores cristãos estavam condicionados pela sua leitura do Antigo Testamento em grego. Assim, para percebermos, historicamente, o enquadramento conceptual dos primeiros cristãos, o estudo dos Septuaginta é nada menos que imprescindível. É lendo aquilo que os autores do Novo Testamento liam que compreenderemos melhor o que eles escreveram.




sábado, 18 de fevereiro de 2017

LA QUERELLE DE L'ISLAMOPHOBIE

Pela oportunidade, transcrevemos do nº 2726 (2 a 8 de Fevereiro 2017) de "L'OBS" a seguinte entrevista:

La querelle de l'islamophobie : Pascal Bruckner face à Olivier Roy

 

C'est une bataille sémantique à travers laquelle se joue notre regard sur l'islam en France. Le politologue Olivier Roy a accepté de dialoguer sur la notion d'“islamophobie” avec l'essayiste Pascal Bruckner , qui publie “Un racisme imaginaire”.





Islamophobie : littéralement «peur de l'islam». Depuis quinze ans, la notion divise la pensée française. Pour ceux qui en ont fait leur cheval de bataille (en particulier le CCIF, le Collectif contre l'Islamophobie en France), elle permet de désigner une nouvelle forme de racisme qui ne dit pas son nom. Pour ceux qui la contestent (Gilles Kepel, Caroline Fourest, Alain Finkielkraut…), elle est une construction des islamistes, une «arme d'intimidation massive», estime Pascal Bruckner, destinée à faire taire toute critique sur l'islam.


 L'auteur du «Sanglot de l'homme blanc» publie ces jours-ci un nouvel essai virulent, «Un racisme imaginaire» (Grasset), pour réprouver, voire bannir, l'usage du mot. Nous avons proposé au grand spécialiste de l'islam Olivier Roy - qui ne s'était jamais encore exprimé sur le sujet - de venir débattre avec lui. Si tous deux pointent les failles du concept, ils défendent deux visions diamétralement opposées des réalités qu'il recouvre et de l'évolution de l'islam dans nos sociétés. L'un nous prédit des heures toujours plus sombres, l'autre nous donne les raisons d'espérer une paix sociale. Entretien.

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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O GRANDE INCÊNDIO DO CAIRO


 Pelo seu interesse, transcrevemos de "Al-Ahram" o artigo seguinte, sobre o grande incêndio do Cairo (e de outras cidades egípcias), em 26 de Janeiro de 1952. Foi durante este incêndio, em que foram destruídos importantes edifícios, que o fogo atingiu a antiga Ópera, mandada construir pelo khediva Ismaïl, e em cuja inauguração deveria ter sido estreada a Aida, de Verdi, que, por motivos técnicos, acabou à última hora por ser substituída pelo Rigoletto. A famosa ópera de Verdi, que fora encomendada expressamente para a abertura do Teatro, situado numa praça que ainda hoje se chama Praça da Ópera (embora a actual Ópera esteja localizada em Zamalik, na ilha de Gezira, no Nilo), só viria a ser apresentada no Cairo em 1871. A Ópera Khedivial do Cairo, entretanto restaurada, acabou por ser completamente destruída, também por um incêndio, em 28 de Outubro de 1971.

The ‘Cairo Fire’ revisited 65 years later

Lack of access to official state documents leaves significant gaps in the understanding of Egypt's modern history, the "Cairo Fire" of January 1952 being a prominent example, says historian Khaled Fahmy

Dina Ezzat , Sunday 29 Jan 2017


The Cairo Fire on 26 January 1952 (photo: Courtesy of Al-Ahram Weekly)

 Some 65 years later, the true story of the Cairo Fire is still untold, the mastermind and culprits behind one of the worst acts of arson to hit the capital still unknown to the public.

Almost 24 hours after the soldiers of the British occupation killed 50 Egyptian auxiliary policemen in Ismaliya a serious wave of agitation took over the capital leading to a sudden outbreak of violence and the burning of hundreds of key buildings, including the exquisite Cairo Opera House and some of the capital’s top restaurants, bars and stores.

In the last week of January 1952, many narratives were offered up on who really “burned the city." One particularly prominent narrative suggested it was the palace, to further increase the political dilemma the British occupation was facing in the wake of its confrontation with police in Ismaliya.

Another narrative blamed angry students and demonstrators who had already protested the killing of the police officers in front Abdin Palace, adding that most of the burned and looted buildings were associated with the Western presence in Cairo.

A third narrative blamed the fire on political forces opposed to King Farouk and that wished to further complicate his already confused relation with the British occupation.

“But we don’t know and we cannot know, or rather start the path to know, before we start to put our hands on the documents related to whatever happened on that day. The Egyptian police must have conducted some form of investigation and there must have been some findings registered in official documents.

Accessing these documents is simply the first step to reveal the true story of this particularly significant political event that hit the country – not just the capital – 65 years ago,” says prominent historian Khaled Fahmy.

Speaking to Ahram Online, Fahmy, currently visiting professor at Harvard University, lamented the continued lack of access to documents that relate to significant moments in 20th century Egyptian history.

The Cairo Fire, Fahmy said, “was a particularly significant” moment in the sense that it revealed the structural problem that the regime of King Farouk was facing with an aggressive occupation, a barely functioning parliament, and an undermined opposition represented in Al-Wafd Party.

And this all happened only a few months before the 23 July 1952 when the Egyptian government was neither in an open confrontation with the occupation nor in direct negotiations to end the occupation.

According to Fahmy, in Ismailya, one day before the fire, British soldiers told the Egyptian police that they had to choose between the guerillas fighting the occupation and the British army in Egypt, and where the police decided to not to turn their backs on their compatriots, even though the government was not demanding an end to the British occupation.

“This is why there are so many questions about what really happened on 26 January in Cairo and it is such a pity that 65 years later we remain unable to access the necessary documents to inform us – not just as concerned researchers but as a public – about what was happening there and then,” Fahmy said.

Fahmy argued that this denial of access to basic information appears almost deliberate, “because in the end the documents of state institutions might be incomplete or designed to fit with a particular line or another.”

“This is really a pattern, and I am sure that the relevant state institutions in Egypt keep documents and conduct necessary classification of information. But I am not sure whether they turn in these documents over to the National Archives, as they should, and whether the National Archives is willing to make these documents, if they have them, readily available to researchers,” Fahmy lamented.

Any attempt to revisit a day as significant as that of the Cairo Fire, Fahmy relates, is thwarted by the state's style of withholding information, even when it should by law be made public, “especially documents of the ministries of the interior and defence."

“Whatever we have learned from the archives about the work of the police in Egypt, prior and after 1952, was essentially thorugh the archives of the Ministry of Justice, and this relates to criminal cases that the police referred to a court of law. But otherwise we are really mostly uninformed,” Fahmy said.

Any attempt to revisit the Cairo Fire or any other significant moment in modern Egyptian history prompts “the very serious question of access to information,” Fahmy asserts.

“Did we get to see the documents about the state’s take on the 18 days of the January 2011 Revolution? The answer is not really. We got to learn of a situation assessment that was put together by State Security and we got some glimpses of some information made available upon the subsequent break-in at the State Security headquarters after the ouster of the Hosni Mubarak regime,” Fahmy said.

Fahmy was a member of a committee entrusted with documenting the 18 days of the January 2011 Revolution, and whose work remains largely inconclusive. Recently, when reading the memoires of an Australian medical examiner who headed forensic investigations in Egypt in the early decades of the 20th century, Fahmy came across information about the many bodies of protestors that were found around the city having been killed during the 1919 Revolution.

“Now we know that there were also bodies that were found in the wake of the confrontations of 28 January 2011," he added, "but there again we don’t have the official say on this matter. And we haven’t read substantial and free testimonies about 28 January 2011 — at least not yet,” Fahmy noted.

“Acts of arson do happen during moments of political upheaval, and confrontations between the police and demonstrators end up with causalities, but it is important to know what really happened, not to vindicate but to understand,” Fahmy said.

For example, there is no clear understanding of the way the shift happened in the responsibilities and mandate of the police following the establishment of three parallel intelligence systems under Nasser by Zakaria Moheiddine.

“But it is important that we learn what happened there because it would help us decipher the power dynamics among state instutitons in charge of collecting information – and this is not a minor issue because these dynamics remain significant, as we saw during the January Revolution and beyond,” Fahmy said.

Fahmy is worried not just about access to historical documents but also their preservation.

Following the fall of the regime of East Germany, the Stasi's documents were carefully kept intact as a significant testimony on the history of the country during the Cold War era. Access to these documents was allowed under certain constraints designed to protect society from the full consequences of the ugly truth whereby the secret police recruited one out of every six people to spy on friends, neighbours and family.

However, as Fahmy noted, even constrained access to these documents helped to have them properly classified and kept for present and future research by historians and sociologists. Short of this, Fahmy said, the truth would always be elusive to the public and often enough manipulated by the state to serve political purposes.

domingo, 29 de janeiro de 2017

UM LOUCO NA CASA BRANCA




As medidas adoptadas por Donald Trump após a sua tomada de posse como presidente dos Estados Unidos não são propriamente surpreendentes.

O candidato tinha-se desdobrado em anúncios bombásticos durante a campanha eleitoral. E dúvidas não restavam quanto à aplicação dessas (ou parte delas) medidas, não obstante a imprevisibilidade das suas acções.

A eleição de Trump para a Casa Branca decorre de factores diversos, nomeadamente do facto de a sua adversária ter sido Hillary Clinton, uma mulher de má memória, que primeiro como esposa de Bill e depois como secretária de Estado é responsável por milhares de mortos e, ao que consta, por ter ordenado a eliminação de diversas pessoas (coisa que hoje se tornou banal, como ainda há semanas o presidente francês François Hollande, em entrevista, informou os jornalistas  ter determinado diversas execuções sumárias, através dos serviços secretos, numa flagrante violação da Constituição da República). Isto é, Trump foi eleito pela negativa, pelo facto de muitos cidadãos se terem abstido ou recusado conceder o seu voto a uma mulher odiada, a única alternativa de que dispunham, e que, apesar de tudo, ainda obteve em relação a ele, mais de um milhão de votos.

Mas Trump também foi eleito contra o establishment vigente no país há décadas, com dinastias de presidentes corruptos e ao serviço de interesses anti-americanos. Só há a lamentar que a escolha tenha, pela força das circunstâncias, recaído em semelhante personagem. As promessas de reconduzir a América à sua perdida grandeza (qual ?) foram ouvidas e acreditadas por milhões de crédulos eleitores, num país com uma das maiores taxas de analfabetos funcionais do mundo. Num país onde mesmo a maior parte da classe política não possui os conhecimentos mais elementares de história ou de geografia, para já não evocar a flagrante ausência de cultura geral. Com a agravante de que a maioria das promessas de Trump são obviamente incumpríveis, pela natureza das coisas.

Tem sido dito que Trump não é louco e que sabe muito bem o que quer. É evidente que ele não é louco no sentido clássico em que se costuma utilizar o termo, mas o seu comportamento, mesmo para alcançar os objectivos que se propõe, denuncia alguma insanidade mental, na medida em que ignora ou despreza os meios que a razão recomenda sejam utilizados para atingir os fins. Para isso contribui não só um narcisismo inapelável, mas uma profunda incompetência política e uma flagrante ignorância do processo governativo.

Vem isto a propósito da proibição temporária (até quando ?) da entrada em território da União dos cidadãos oriundos de sete países árabes (Síria, Iraque, Irão, Sudão, Líbia, Yemen, Somália) e da proibição da entrada de refugiados provenientes da Síria. Tem o presidente dos Estados Unidos o poder de fechar as fronteiras do seu país, mas configura demência impedir o retorno aos EUA de pessoas que tendo saído normalmente do pais (com vistos devidamente emitidos), em viagem de férias, de negócios, ou por outro motivo, sejam agora subitamente impedidas de regressar a casa ou ao trabalho, permanecendo "apátridas" nas zonas de trânsito internacional dos aeroportos ou perante os balcões de check-in das companhias de aviação. Situação que, aliás, está a provocar o caos nos mais concorridos aeroportos de todo o mundo.

Apenas me debruço sobre este acto de Donald Trump (outros haveria já a analisar), não só pela insânia da medida como pela sua ineficácia e pelo seu carácter discriminatório. A invocação do terrorismo internacional, que Trump prometeu erradicar (como ?) jamais poderia determinar este acto de banimento. Não consta que nas últimas décadas  (há gráficos a prová-lo) tenham sido mortos cidadãos americanos por nacionais dos países agora objecto desta sanção. Pelo contrário, foram cidadãos da Arábia Saudita e do Egipto (países que não integram a lista) os presumíveis responsáveis pelos ataques de 11 de Setembro (a menos que na sua autoria tenha estado a própria administração norte-americana, como desde então tem sido internacionalmente referido).

Por outro lado, os ataques terroristas verificados recentemente na Europa, especialmente em França, devem-se a cidadãos europeus, nascidos e criados no Velho Continente, e não a imigrantes ou refugiados. Acresce que a referência à discriminação religiosa é intolerável, e nem a manifestação da velha Albright, protestando converter-se ao islão (mais uma farsa nesta tragicomédia) chega para redimir a ignomínia do acto.

Os actos violentos cometidos na América nos últimos anos foram obra de americanos de cepa, não de imigrantes ou refugiados, mas sim de indivíduos loucos, em geral jovens, a quem, por força da legislação em vigor, é permitido adquirir uma arma como quem compra um berlinde.

Não quero alongar-me sobre a matéria, nem sobre os subsequentes desenvolvimentos desta política irracional, mais de espectáculo do que de substância, que se afigura ser a única preocupação do novo inquilino da Casa Branca. Tem ele muita coisa para mudar? Decerto que sim! Mas não é este o caminho de quem, pretendendo ser um verdadeiro estadista, se comporta como um irrisório palhaço. Irrisório mas perigoso!

Um louco na Casa Branca não é apenas uma provação para os norte-americanos, é um pesadelo para o mundo.



sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

MARIA-TERESA, A IMPERATRIZ QUE NÃO FOI IMPERADORA


Monumento a Maria-Teresa

A escritora e filósofa francesa Elisabeth Badinter (aliás, uma criatura politicamente muito discutível) publicou o mês passado um curioso livro sobre a mais famosa imperatriz austríaca: Le Pouvoir au Féminin - Marie-Thérèse d'Autriche, 1717-1780 - L'impératrice-reine. Não se trata propriamente de uma biografia no sentido habitual do termo, mas de uma digressão pela vida de Maria-Teresa, na tríplice perspectiva de mulher, mãe e soberana de um vasto império.


Maria Theresien Platz

Para compreender a sua acção, importa revisitar a história da época.

Carlos VI, imperador do Santo Império Romano-Germânico (1711-1740), rei da Hungria e da Boémia, arquiduque de Áustria, etc., promulgou, em 19 de Abril de 1713, um édito, a Pragmática Sanção, com a finalidade de garantir que os territórios hereditários da Casa de Habsburg pudessem ser herdados por um descendente do sexo feminino, salvaguardando assim a sua indivisibilidade. Não estando em causa a coroa do Santo Império (que era electivo e não hereditário, ao contrário do que muita gente supõe, embora, na prática, se tivesse tornado de facto hereditário desde Carlos Quinto), havia que garantir a linhagem reinante em sua filha Maria Teresa, que doutra forma, devido à Lei Sálica, que excluía as mulheres do trono, ficaria afastada da sucessão. Com muita diplomacia e dinheiro, Carlos VI conseguiu que a Pragmática Sanção fosse aceite pelos Eleitores alemães e pelas potências estrangeiras.



A decisão de Carlos VI deveu-se ao facto de se verificar uma escassez de varões (já nesse tempo a falta de homens se fazia sentir) na Casa de Habsburg. O imperador Leopoldo I (1658-1705) tivera sete filhos, mas apenas dois rapazes: José I, que lhe sucedeu (1705-1711) e que morreu precocemente sem filhos varões (à excepção de um rapaz, morto com um ano), deixando apenas duas filhas; e Carlos VI, que sucederia ao irmão, mas que (salvo um rapaz, morto à nascença) também teve apenas filhas e duvidava do futuro nascimento de um varão. Estava, pois, em perigo, a continuação da dinastia reinante.


Perante este panorama, entendeu Carlos VI reivindicar para Maria-Teresa, a mais velhas das suas três filhas, a herança real, isto com prejuízo das filhas do seu falecido irmão José I, com mais idade do que Maria-Teresa. Todavia, as primas não se opuseram à decisão imperial.

A morte inesperada de Carlos VI, em 1740, colocou a sucessão na ordem do dia. Maria-Teresa, com 23 anos, recebeu, em Viena, a herança paterna, mas a questão formal não ficou resolvida, pois os Eleitores alemães e as potências decidiram contestar a Pragmática Sanção, que haviam previamente aceite, e reivindicar a herança. O grande paladino desta luta foi o rei da Prússia, Frederico II, o Grande, que desencadeou contra Maria-Teresa uma guerra que haveria de durar sete anos (1740-1748) e que ficou conhecida como Guerra da Sucessão Austríaca.

Frederico II

Maria-Teresa havia casado em 1736 com Francisco-Estêvão, duque de Lorena, por quem estava apaixonada. Contrariamente aos costumes da época, em que apenas a razão política assistia aos matrimónios, foi aquilo que se poderia considerar um casamento de amor. Numa época em que as figuras da realeza dormiam em quartos separados, Maria-Teresa e Francisco partilhavam o mesmo leito.

Maria-Teresa, por Martin van Meytens (Schönbrunn)

Embora senhora dos domínios herdados de seu pai, não podia a arquiduquesa aspirar à dignidade imperial. Tendo sido coroado rainha (aliás rei) da Hungria, em 1741 (em Presburg, então capital da Hungria, hoje Bratislava, capital da Eslováquia) e rainha da Boémia, em 1743, Maria-Teresa manobrou no sentido de que seu marido fosse eleito imperador do Santo Império. Mas em vão. Os Grandes Eleitores, reunidos em Frankfurt, elegeram em 1742 o príncipe-eleitor de Baviera, Carlos Alberto de Wittelsbach, que foi proclamado imperador com o nome de Carlos VII. Os Grandes Eleitores eram os arcebispos de Mogúncia (Mainz), de Trêves (Trier) e de Colónia (Köln), o duque de Hanover (que era o rei de Inglaterra), o conde Palatino, o marquês de Brandenburg (que era o rei da Prússia, neste caso Frederico II), os duques de Saxe e de Baviera e o rei da Boémia.

Quis o destino que Carlos VII morresse em 1745. Desta vez, Maria-Teresa, cuja paixão pelo marido era inextinguível, mesmo perante os disparates deste, moveu todas as influências e logrou fazer eleger, nesse mesmo ano, Francisco-Estêvão como imperador, assumindo este o nome de Francisco I. Ciosa das suas prerrogativas, Maria-Teresa, que não podia ser imperadora (como sucessora  de seu pai), recusou ser coroada ao lado do marido como imperatriz-consorte, embora passasse a usar obviamente o título de imperatriz, mais propriamente até o de imperatriz-rainha, já que era rainha (ou rei) da Hungria e da Boémia. Para satisfazer o marido, a imperatriz concedeu-lhe a co-regência, embora Francisco-Estêvão fosse uma negação para a política e para a arte militar, mais interessado em caçadas e aventuras femininas, apesar de ser grande amigo, desde a juventude, de Frederico II da Prússia, que além de homossexual público e notório era um adversário feroz da Casa de Áustria. A propósito de Francisco I, e da sua filiação maçónica, Elisabeth Badinter escreve: «Enfin, à Berlin, il assiste aux fiançailles du futur Frédéric II [obrigado a casar pelo pai], lui aussi initié. Un vrai courant de sympathie s'instaure entre les deux jeunes hommes, en particulier de la part de François. En dépit des deux guerres qui vont les opposer, François a toujours conservé pour Frédéric une forme d'amitié difficilement explicable.» (p. 57)

Francisco I, por Martin van Meytens

Também Francisco I morreu cedo (1765). O desgosto de Maria-Teresa foi imenso, e não mais vestiu outra cor que não fosse o negro. O defunto dera-lhe 16 (dezasseis) filho(a)s , dois dos quais seriam imperadores, José II e Leopoldo II. A partir do seu consórcio, a antiquíssima Casa de Habsburg, cuja sucessão ocorrera sempre na linha masculina, passou a designar-se Casa de Habsburg-Lorena. As peripécias políticas, militares, diplomáticas, domésticas e religiosas do "consulado" de Maria-Teresa são devidamente descritas no livro de Elisabeth Badinter, que não deixa de nos chamar a atenção para o catolicismo exacerbado da imperatriz e da feroz vigilância que exerceu na Corte em matéria de costumes, chegando a afastar, quando não a mandar prender, pessoas inclusive do seu círculo mais chegado, perante a menor suspeição de adultério. Não reza o livro se a sua animosidade se dirigia tão só aos homens que tinham amantes femininas ou também aos que teriam (com ceteza que tinham) amantes masculinos. Talvez ela achasse que era uma coisa que não existia! Mas é pena que a autora não nos tenha fornecido alguns pormenores a esse respeito.

Morto Francisco I, os Eleitores, na tradição, elegeram como imperador o filho mais velho de Maria-Teresa e Francisco I, o jovem José II (1765), que obteve também da mãe uma co-regência, que decorreu de forma mais tempestuosa do que a havida com o pai. José II, embora filho dedicado, tinha ideias muito diferentes da imperatriz. Vagamente católico, franco-maçon, adepto do despotismo iluminado, melómano inveterado, admirador confesso (como o seu pai) de Frederico II da Prússia, envolveu-se em batalhas antecipadamente perdidas, nunca conseguido reaver para o Império a Silésia, de que Frederico II se apossara durante a Guerra da Sucessão Austríaca, a qual terminara com o Tratado de Aquisgrano (Aix-la-Chapelle ou Aachen), em 1748.

José II

Maria Teresa teve ainda de enfrentar uma outra guerra, a Guerra dos Sete Anos (1756-1763), que opôs, ainda por causa da Silésia e da ascenção imparável da Prússia de Frederico o Grande (donde saiu mais tarde o Segundo Império Alemão), de um lado a Casa de Áustria, a França, o Império Russo e a Espanha e do outro a Prússia, a Inglaterra e Portugal, entre os principais figurantes. Tinha havido uma reversão das alianças. A Áustria primeiro aliada da Inglaterra contra a França (Guerra da Sucessão), passou de aliada da França contra a Inglaterra. A paz só seria firmada pelo Tratado de Hubertsburg em 1763, pelo qual a Áustria renunciou definitivamente à Silésia, a favor da Prússia, e a Polónia foi dividida pela primeira vez, a favor da Áustria, Rússia e Prússia.

José II casou duas vezes: a primeira, em 1760, com Isabel de Boubon-Parma (m. 1763), que amava; a segunda, em 1765, com Josefa da Baviera (m. 1767), que detestava. Do primeiro casamento houve duas filhas: Maria-Teresa e Maria-Cristina. Do segundo, nenhuma. Não voltou a casar. Por sua morte, em 1790, sem descendência masculina, o trono passou para seu irmão, Leopoldo II.

José II e seu irmão Leopoldo, grão-duque da Toscana, futuro Leopoldo II, por Pompeo Batoni

No seu livro Lettres à l'archiduchesse Marie-Christine 1760-1763 : "Je meurs d'amour pour toi..., Elisabeth Badinter refere a paixão de Isabel de Bourbon-Parma, mulher de José II, por sua cunhada Maria-Cristina de Áustria, irmã do marido. Na obra agora em apreço, Elisabeth Badinter não retoma este tema, já objecto de um livro específico.

É um facto que os austríacos continuam a considerar Maria-Teresa como o grande soberano da Casa de Áustria, o maior depois de Carlos Quinto. Uma prova, é o notável monumento erguido na Maria- Theresien Platz, entre o o Museu de História da Arte e o Museu de História Natural, em frente da Praça dos Heróis e do Hofburg. Apesar da sua feminilidade, Maria Teresa governou como um homem, com mão de ferro enluvada em veludo. Não tendo sido imperadora, e apesar das co-regências com o marido e com o filho, foi ela a verdadeira governante do Império.

No seu livro, Elisabeth Bandinter refere o clássico de Ernst Kantorowicz Les Deux Corps du Roi (1989), segundo o qual o rei é dotado de dois corpos: um corpo natural, sujeito às paixões, às doenças e à morte, e um corpo político imortal que incarna a comunidade do reino. Ou, de oura forma, um corpo de carne e de sangue e um corpo simbólico e abstracto. Quando o corpo natural morre, o corpo político é imediatamente transferido para o corpo natural do seu sucessor. «Le roi est mort, vive le roi!»

Ora, segundo a autora, Maria-Teresa de Áustria é uma das raras mulheres na história a terem governado e incarnado o seu país durante quarenta anos. Dotada de um poder absoluto, como Isabel I de Inglaterra e Catarina II da Rússia, que viveram e reinaram como homens, Maria-Teresa teve de negociar com a sua feminilidade durante todo o seu reinado. Parafraseando Kantorowicz, poderia aqui falar-se dos três corpos da rainha. O corpo natural e mortal da mulher, o corpo simbólico e imortal da soberana, o corpo maternal que perpetua a linhagem. E é este o leit-motiv da obra de Badinter. Eu acrescentaria que Maria-Teresa, por detrás de uma grande simplicidade, foi, de facto, uma actriz consumada, que desempenhou um papel único no palco da História.

Não sendo aqui o lugar para desenvolver mais detalhadamente o tema, note-se que para a redacção deste livro a autora consultou, durante vários anos, os mais diversos arquivos, e que todas as citações estão devidamente referenciadas.

Permita-se-me uma nota particular. Entre os poucos confidentes que teve, Maria-Teresa contou com um português em que depositava total confiança: o conde Emanuel Silva-Tarouca, seu conselheiro particular, filho de um antigo embaixador português na Corte de Viena, e que residiu num palácio ao lado do Hofburg, onde é hoje o Museu Albertina.

Condessa von Fuchs

Uma outra figura indisputável é a condessa Charlotte (aliás, Marie Karoline) von Fuchs, sua governanta, que a imperatriz Elisabeth colocou ao serviço da filha quando esta era ainda arquiduquesa. Maria-Teresa tratava-a por "Mami" (Mamã), mas era conhecida na Corte por Füchsin (em alemão, raposa). Foi tão grande a sua afeição por Fuchs que, quando esta morreu, em 1754, determinou que, caso único, fosse sepultada na Cripta Imperial da Igreja dos Capuchinos, exclusivamente reservada à Casa de Habsburg.

A Casa de Habsburg foi, de facto, durante séculos, como portadora do título do Santo Império Romano Germânico e do seu papel político, diplomático, militar e religioso na Mitteleuropa, uma das mais importantes casas imperiais e reais do Velho Continente.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A "DONA BRANCA", DE GARRETT


Almeida Garrett


Teve lugar no passado dia 10 deste mês, na Sociedade de Geografia, uma conferência do embaixador Fernando Ramos Machado, a propósito do 190º aniversário de "D. Branca", de Almeida Garrett, que, pela sua importância, passamos a transcrever:


          NOS 190 ANOS DA “D. BRANCA”, DE ALMEIDA GARRETT


Desde há algum tempo, tenho-me interessado pelo tema das relações amorosas entre cristãos/ãs e mouros/as, durante a nossa Idade Média, designadamente os ecos deixados na literatura posterior.

Como seria inevitável, deparou-se-me o poema de Almeida Garrett, “D. Branca”. Tendo verificado que passavam, em 2016, os 190 anos, número redondo, da sua primeira publicação, ocorreu-me que seria talvez o momento apropriado para recordar esta obra caída, a meu ver injustamente, em quase total esquecimento. Com efeito, ainda que, já em 1943, António José Saraiva escrevesse que “D. Branca” tinha envelhecido muito mais que as “Viagens na minha terra” e que o seu interesse é, agora, principalmente histórico, penso que ainda hoje podemos ler aquele poema com prazer e proveito.            
Sobre o assunto há um valioso estudo, “Da Infanta Branca Afonso à D. Branca de Garrett”, de Sandra Amaral Monteiro.

                                                      II

Começarei com algumas palavras sobre a D. Branca histórica.

A Infanta D. Branca Afonso, filha primogénita de Afonso III de Portugal e de Beatriz de Castela, nasceu em 1259, em Santarém. Pertenceu-lhe um extenso património, tanto em Portugal (entre outras, as Vilas de Montemor-o-Velho e de Torres Vedras) como em Castela, onde foi Senhora da vila de Briviesca. Foi peça importante nas relações entre os dois Reinos, tendo, mesmo, sido encarregada, por seu irmão D. Dinis, de missões diplomáticas, no contexto das negociações que antecederam o Tratado de Alcanices .

"Dona Branca"

Não foi monja no Mosteiro cisterciense feminino de Lorvão, mas sua Senhora e Protectora. Adquiriu o Senhorio do Mosteiro, igualmente cisterciense e feminino de Holgas (Las Huelgas), em Burgos, onde professou como freira, em 1295, onde veio a falecer, em 1321, e onde foi sepultada. Ficou a recordação do apoio que deu às letras e artes. Promoveu a tradução, a partir do árabe, do “Livro das batalhas de Deus”. Sobretudo, o seu nome está associado ao Códice Musical de Holgas, único manuscrito medieval com polifonia que ainda se conserva no lugar de origem. Foi composto, cerca de 1300, por um João Rodrigues, que se pensa teria sido criado, escriba e/ou capelão, ao serviço de D. Branca.   

Episódio relevante da sua vida foram os amores com um cavaleiro, de nome Pero Esteves Carpinteiro, ou Pero Nunes Carpinteiro, de quem teve um filho ilegítimo, Juan Nunes de Prado, que foi Mestre da Ordem de Calatrava.  

Diga-se ainda que seu pai, D. Afonso III, teve como amante Madragana ben Aloandro, que adoptou, depois de baptizada, o nome de Mór Afonso. Era filha do último Alcaide mouro de Faro, Aloandro ben Bakr. Teve numerosa e ilustre descendência.  
                                                                                
                                                                                    
                                                    III

Em 1826, Almeida Garrett publicou em Paris, onde se encontrava exilado, o longo poema narrativo “ D. Branca ou a Conquista do Algarve”. No ano anterior, fora a vez de “Camões” (que se sabe, porém, redigido posteriormente a “D. Branca”).

Os dois poemas marcam a introdução do Romantismo na Literatura Portuguesa, ainda que Garrett não se assuma como romântico. Assim, no prefácio de “Camões”, afirma enfaticamente “ Não sou clássico nem romântico, de mim digo que não tenho seita nem partido em poesia” e que seguiu apenas “o coração e os sentimentos da natureza”, o que, diga-se, é já uma profissão de fé romântica… Também em “D. Branca” se escreve, a certa altura, “de clássicos, românticos, guelfos das letras, gibelinos da arte, falar entendo, paz seja com eles”.

As duas obras, que podemos dizer “irmãs”, apresentam muitos aspectos comuns – são ambas poemas de dez cantos (na primeira edição, “D. Branca “ apresentava uma divisão em sete cantos) sendo as estrofes formadas de número variável de versos brancos de 10 sílabas, com excepção de poucas quadras em versos, de 9 e 7 sílabas, respectivamente, intercaladas em duas passagens de “D. Branca”. “Camões” foi publicado sem nome de autor, “D. Branca” com a menção de obra póstuma de F.E., para fazer crer que a autoria era de Filinto Elísio (nome arcádico do Padre Francisco Manuel Nascimento, que o Poeta considerava um dos seus modelos); Garrett, que, já anos antes, fora acusado de ser ateu e libertino, quando publicara “O retrato de Vénus” procurava, agora, evitar dissabores.

“Camões” e “D. Branca” acham-se imbuídos de nacionalismo - os temas foram buscados à História de Portugal, com o propósito de despertar o conhecimento e o amor pelas coisas portuguesas, e estimular o patriotismo do leitor, fazendo contrastar um passado glorioso com uma actualidade de decadência e apagamento. Esse nacionalismo revela-se também em aspectos mais propriamente literários, como o quase total banimento, em “Camões”, das referências à Mitologia clássica, e pela sua substituição, em “D. Branca”, por uma mitologia portuguesa, com as fadas, os sortilégios da noite de S. João, etc.. Manifestação de nacionalismo se pode, ainda, considerar a expressão dolorosa, nos dois Poemas, da saudade da Pátria, sentida pelo Autor exilado.

“Camões” aparece aos nossos olhos como obra ainda muito clássica. Apresenta uma marcada unidade de acção. Nas palavras do próprio Garrett, “ a acção do poema é a composição e publicação dos Lusíadas; os outros sucessos, que ocorrem, são de facto episódicos, mas fiz por os ligar com a principal acção”. Um historiador da literatura sublinha que dois cantos são decalcados sobre o texto dos Lusíadas, vários versos são transcritos literalmente e toda a linguagem tem um nítido cunho camoneano. Mas o Herói é verdadeiramente romântico, byroniano, Génio incompreendido, que morre abandonado, perante a ingratidão e a indiferença da Pátria.  

“D. Branca” é mais decididamente inovadora. Ainda que predominantemente clássica (ou, mais propriamente, arcádica) a linguagem é, muitas vezes, coloquial, e o tom pode ser, mesmo, jocoso, o que nunca acontece no poema “Camões”. A acção é, com frequência, interrompida, com referências, pelo Autor, ou à sua própria infância numa quinta ao Sul do Douro, ou à sua condição de exilado, ou ao abandono a que estava votado Sagres, ou ao nulo significado, no seu tempo, de uma Comenda de Santiago, em contraste com o valor dos Cavaleiros de Santiago medievais, ou aludindo a um então neologismo: “Fiquei desapontado, como dizem os ingleses. Essas interrupções são, até, objecto de um comentário auto-irónico:” E a minha história, e o meu lindo palácio? Malditas reflexões! Torno ao meu conto; e quem quiser achar a margarita, como o pinto da fábula esgravate”. Quanto à escolha da época medieval (e não já da Renascença) está ela mais em conformidade com as preferências românticas.

Em “D. Branca”, não só há uma acção, mas duas principais – por um lado, os amores da Infanta com o mouro Aben-Afan, e, por outro, a Conquista do Algarve, ambas convergindo, no final, por ocasião de uma fatal Noite de S. João. Ao tratar, em “Camões”, de assunto bem conhecido do público, a margem de liberdade de Garrett achava-se limitada; assim, dá-nos uma versão romanceada mas, apesar disso, próxima da realidade histórica. Com a Infanta D. Branca, personagem relativamente menor e desconhecida do grande público, o Autor sentiu-se livre para, mais do que romancear a História, recriá-la inteiramente. É certo que a Infanta D. Branca era filha de Afonso III e que foi no Reinado dele que se completou a conquista do Algarve. Quase tudo resto é inventado, já que Branca nasceu em 1259, isto é, 10 anos após a conquista de Silves; os seus amores com Aben-Afan não poderiam pois, ter ocorrido. Aben-Afan, por seu lado, foi o último Senhor de Silves, reconhecendo Garrett haver alargado os seus domínios a todo o Algarve ( na realidade, durante o período islâmico, não existiu propriamente um Reino do Algarve d’Aquém-Mar, como figura no Poema; houve, sim, um  Reino de Niebla, com Capital nessa localidade, não longe de Huelva,  que abrangeu o Algarve e parte do Alentejo).  O Autor admitia ter recriado o passado (como recriou poesias populares que incluiu no seu “Romanceiro). Com graça, respondeu a quem o acusava de imoralidade, que o Poema, ”até da Infanta D. Branca, uma das mais despejadas ‘leoas’ do seu tempo, fez a donzela tímida e sem malícia que aí pintei, mentindo descaradamente à História”.

O poema foi escrito de Agosto a Outubro de 1824. Pensemos que, apenas dois anos antes, tivera lugar a Independência do Brasil, que muitos portugueses sentiram como uma perda. Desfizera-se, pelo menos “de facto”, o Reino Unido Portugal-Brasil-Algarves, com a separação da sua parte de longe maior e mais rica. Ao evocar a conquista do Algarve, Garrett, está, como diz, a “contar… a história dos bons tempos que foram”. O Algarve, descrito em termos idílicos e cuja conquista heroica é tema de “D. Branca”, foi também o ponto de partida dos Descobrimentos. Garrett descreve, desolado, o estado em que se encontravam os edifícios do tempo do Infante D. Henrique, a ruína dos quais é “opróbrio da Nação que a primeira foi no Mundo em nobrezas, outrora, hoje em miséria”.

                                                     IV

“D. Branca”não segue a ordem cronológica, à qual, no entanto, recorrerei, por facilidade de exposição, para resumir o enredo:

Fada Alina

Um dia, caçando sozinho, Aben-Afan, jovem Rei do Algarve, dá por si junto a um magnífico palácio encantado, onde penetra, apesar de terríveis leões que, habitualmente, vedavam o acesso aos seres humanos. A Fada Alina, Senhora da mansão, tão poderosa que a ela “submissos os destinos cedem, e obedece a própria Natureza”, recebe Aben-Afan. Promete ajudá-lo a encontrar a felicidade, mas não podendo, na Terra, haver ventura completa, uma opção ele terá de fazer – a glória militar ou o amor. Entrega-lhe dois ramos mágicos, que deverá trazer junto ao peito, um de louro, outro de murta, simbolizando respectivamente, a glória militar e o amor, dos quais só um florescerá, secando  o outro.

Aben-Afan dedica-se à guerra, fazendo frente aos Cavaleiros de Santiago, chefiados por Paio Peres que Correia, que vão prosseguindo a sua marcha para Sul. Mas, certa noite, o Rei mouro tem a visão de uma figura feminina, cuja beleza o perturba. Lança-se numa busca, que o conduz a Lorvão e avista aquela cuja imagem o obceca, Branca de Portugal. Prepara o seu rapto, que se consuma quando ela se dirigia para o Mosteiro de Holgas, em Burgos, e condu-la, no seu cavalo, para o palácio encantado. Uma inscrição, gravada na pedra, à entrada, fá-lo hesitar - ” Ao Rei sem Reino, à esposa sem marido. Aben-Afan! Aqui jaz o teu Fado! Pensa! Pensa outra vez antes de entrares”. Mas acaba por decidir-se –  “ Resolvi, clamou, perca-se tudo …Oh! tudo, tudo …e seja Branca minha! “.  

Alina, que os acolhe afavelmente, observa “florece a murta, sim, e Branca é tua, mas o louro seca, tua glória é extinta, teu trono ruiu, cessou teu reino; Branca é tua e só a perderás se, alucinado, teu florecido ramo abandonares e o deixares secar”.

Desde o primeiro instante, a Infanta sucumbira ao fascínio do seu raptor, o que poderia surpreender, pois era ele então o maior inimigo dos portugueses, mas não, se tivermos presente o retrato que o Poeta faz do “gentil moiro”. Além disso, a Fada havia posto, no coração de Branca, a imagem de Aben-Afan. Alina deixa os amantes entregues à sua felicidade, no maravilhoso palácio. O Anjo da Guarda de Branca leva ao Céu a triste nova de uma perdida ovelha. O Poeta, porém, exclama “mas castigar Amor? O Céu tem raios e a crimes tais nunca os mandou à Terra”.

Não nos é dito quanto tempo corre, naquele lugar, que se poderia, na verdade, dizer fora deste Mundo. Mas talvez tenha sido breve este “engano de alma ledo e cego”. Com efeito, os Cavaleiros de Santiago avançam vitoriosamente, para desespero e revolta dos mouros, que se sentem abandonados pelo seu Rei. Longamente é narrado o episódio de Antas – seis Cavaleiros, aproveitando uma trégua, vão à caça com os seus falcões. Encontram uma jovem que lhes revela ser Oriana,  irmã de Aben-Afan, que sua mãe se havia convertido ao Cristianismo e que, ela própria, baptizada à nascença e obrigada a fugir, quando tal fora descoberto. Surge uma multidão irada, que acaba por massacrar os Cavaleiros, apesar da sua resistência heroica, e levar Oriana presa.

Apenas Silves não caiu ainda em poder dos cristãos. Aos Cavaleiros de Santiago, vem juntar-se o próprio Afonso III, com as suas forças. É Noite de S. João mas o Rei, pesaroso pela ausência da filha, proíbe quaisquer festejos. S. Frei Gil de Santarém, versado em artes mágicas, promete-lhe que “a mesma hora que vir Silves em mãos de portugueses, verá Branca liberta, e Aben punido”.

Entretanto, no palácio encantado, a paixão de Aben-Afan fora arrefecendo, e começa a arrepender-se de levar uma existência inútil e de faltar aos seus deveres de Soberano e guerreiro. Formula o desejo de que o louro possa reverdecer; de imediato se arrepende, mas é tarde  - “O Sol se obscureceu; medonha noite cai sobre o céu, como um funéreo manto sobre a urna cinérea, estala um raio, com límpido lampejo fende as nuvens e horríssono trovão nos ares brama” (bela linguagem, puramente arcádica). Lembram-se os dois amantes de que é a Noite de S. João e, tristes e abraçados, esperam a terrível hora fatal da meia – noite, mantendo Branca, contudo, a esperança de que não lhe poderão arrancar Aben-Afan .

Aben Afan

Por sua parte, S. Frei Gil não perdera tempo. Numa passagem do Poema dum macabro arrepiante, vêmo-lo dirigir-se ao cemitério e dar vida ao esqueleto dum distante antepassado de Aben-Afan; anuncia-lhe que o Reino do Algarve está perdido, mas que o último Rei poderá ainda morrer com honra. Pede-lhe que persuada Aben-Afan a voltar a Silves e, montando-o num hipogrifo, condu-lo ao palácio encantado. Batem à porta, ao mesmo tempo que soam as doze badaladas. O palácio desaparece e os dois amantes dão por si num calvo outeiro. Branca assiste, desolada, ao jovem Rei ser arrastado pela mão seca dum espectro. Com voz severa, Frei Gil diz-lhe “teu execrando amor os céus puniram, o Deus que, desleal traíste, vem aplacar com duras penitências”; leva-a, nos braços, até ao acampamento cristão. (Note-se que o “crime” de Branca não seria tanto o haver amado um mouro, mas o ter faltado às suas obrigações de monja, esposa do Senhor; fora como que um adultério) .

O assalto final começara, mas a aparição súbita de Aben-Afan vem retardar a queda da Cidade, cuja sorte se vem a decidir num duelo entre ele e o Mestre de Santiago, ambos de uma valentia e de um cavalheirismo inexcedíveis. “Foras, sorte, imparcial, nenhum vencera …mas os destinos nas balanças fatídicas pesaram a sorte das Nações, e o maometano Império pende, Aben-Afan sucumbe…e no Algarve d’Aquém Afonso Impera”.

Quanto a Branca, enlouqueceu de dor. Levam-na para Holgas; Oriana, a irmã de Aben-Afan acompanha-a. “Vegeta o tronco ainda, mas é vida este viver, que se alimenta de lágrimas?”.

O Poeta exclamara que os raios do Céu não punem o Amor, mas a paixão de D. Branca e Aben-Afan acabou por ceder, talvez não ao castigo divino mas, certamente, aos imperativos sociais. Contudo, o Rei mouro, ainda que puxado pelo seu longínquo antepassado, já interiorizara o seu dever e bate-se com a maior coragem, até à morte. Branca, pelo contrário, revolta-se contra o seu dever e, apenas porque forçada, segue para Holgas, onde levará uma vida de dor. São, verdadeiramente, um Herói e uma Heroína românticos.
 
                                                        V

“D. Branca” é vista como uma obra precursora do Orientalismo, entre nós. Não é este o momento para falar longamente sobre Orientalismo (embora não deva haver muitos locais, tão apropriados como a Sociedade de Geografia, para debater o tema).

Recordarei, apenas, que o Orientalismo, movimento ou moda que não se confina à Literatura, tivera já grande aceitação no Séc.XVIII, ganhara maior fôlego no seguimento da expedição de Bonaparte ao Egipto e fora adoptado pelo Romantismo. Mas, enquanto que na Europa, em geral, o Orientalismo é uma faceta do Exotismo, tal não é necessariamente o caso em Portugal. Um autor orientalista português não tem que recorrer a cenários como o Egipto, a Terra Santa, Constantinopla ou a Índia, pode situar a acção da sua obra em território português, não tendo que haver uma viagem no espaço, mas apenas no tempo.

Na sua busca das raízes medievais de Portugal, Garrett encontrou o Oriente, corporizado no Reino dos Algarves. Constatou que houvera uma componente árabe, na formação da Nacionalidade portuguesa, e considerava que a memória desse passado devia ser valorizada. Sente-se, no Poema, uma tensão: Garrett exulta com a conquista do Algarve e exalta a gesta dos Cavaleiros de Santiago mas, ao mesmo tempo, entristece-se com a queda do Reino mouro, portador de uma civilização mais refinada. Desejaria que não tivesse havido vencidos. O palácio encantado simbolizaria, assim “ a utopia da convivência (im)possível”, na muito feliz expressão que Eva–Maria von Kemnitz utiliza num contexto um pouco mais alargado, na sua tese sobre “Portugal e o Magrebe (Sécs. XVII/XIX) “.

Na descrição daquele palácio, Garrett terá cedido a um estereotipo de Exotismo orientalista. O edifício,” onde tudo o que o rico Oriente tem de brilho e de gemas resplendece “nem jónio, dório, itálico, misto, gótico, saxónico, caldeu, núbico, Índico, indostan, mogol ou pérsico, “nada disso é e, no entanto é belo”, e os interiores são esplendorosos. Ter-se-á o Autor, que muito apreciava Sintra inspirado nas ruínas do Palácio de Monserrate. Anos antes do nascimento de Garrett, viveu ali William Beckford, autor da famosa novela orientalista “Vathek”, que começa, precisamente, pela descrição de um fabuloso palácio oriental. Beckford realizou obras no Palácio e no seu jardim, incluindo a construção de um Arco de Vathek. Em 1809, Byron visitou Monserrate, já então em ruínas, e refere-o, no “Childe Harold”. Ignoro se Garrett, que leu Byron, terá lido o “Vathek”, mas tal não é impossível; e note-se que  Beckford,  ainda era vivo, aquando do seu exílio em Inglaterra.        

                                                       VI

Logo no início do segundo Canto, o Poeta aborda um dos temas orientais que sempre foram objecto tanto de fascínio, como de escândalo, para os europeus – o harém. “Que sórdidos haréns, que vis eunucos tem o Oriente, sepulcros tristes de oiro, onde geme a virtude e amor corrido cede a brutal desejo o facho e a venda!”. Mas logo interroga “culpas, Europa, o mussulmano bárbaro?”, antes de descrever, com as tintas mais sombrias os mosteiros cristãos: ”cárceres negros e traidores, onde à inocência cândida, à piedade, arma pérfido bonzo o laço astuto”, onde a escravidão só termina com a morte e nem um raio de esperança vem aquentar corações gelados, mortos” etc... A conclusão é clara – antes prisioneira num harém que freira num mosteiro. E, assim, antecipa o destino de Branca – Quão mais feliz teria ela sido no palácio encantado, onde era Rainha, do que Abadessa em Holgas.   

Se Garrett não gostava de mosteiros, também não gostava de frades, pelo menos bernardos; isso, que hoje nos pode parecer estranho, era explicável no ambiente político da Época, em particular pelas posições anti-liberais dos monges de Alcobaça. São apresentados como grotescamente ridículos, glutões, ignorantes, grosseiros, covardes. Ficou célebre a expressão “gorda, cachaci-pansuda figura”, e o episódio da “tremenda”, alusivo a uma real ou suposta lauta refeição, servida aos frades a meio da noite, terá sido das partes do Poema que ganharam mais popularidade. Já os eremitas, personagens rodeadas de mistério, como Frei Hugo, não incorrem na condenação do Poeta romântico. E S. Frei Gil de Santarém, conhecedor de magia negra e que Garrett considerava “o nosso Doutor Fausto”, intervém na acção, quase como Deux ex-machina; não é, porém, personagem simpático e transparece, na forma como descreve os seus diálogos com Afonso III, o desagrado do Poeta pela arrogância do clero Igreja perante o Poder político.  Toda a sua admiração, porém, vai para os Cavaleiros de Santiago, não tanto por serem monges, mas por serem guerreiros intrépidos; apresenta-os, no entanto, como moços galanteadores, uma imagem talvez mais apropriada aos Cavaleiros de Malta do Séc. XVIII, que aos de Santiago do Séc. XIII.

Compreende-se que Garrett não tenha querido figurar como autor, quando “D. Branca” surgiu, em 1826, ao mesmo tempo que multiplicava os protestos da sua fidelidade ao Catolicismo, que diríamos quase que repassadas de ironia. O Poeta assume-se como cristão, mas é-o em termos de valores culturais, éticos e estéticos. Quando diz ser “vate cristão”, é apenas no sentido de que rejeita a mitologia greco-romana, para a substituir por uma mitologia nacional, que tem pouco ou nada a ver com o Catolicismo oficial. A Fada Alina está acima da divisão entre cristãos e muçulmanos, e quanto ao próprio “glorioso S. João, que tudo alegra, abençoado protector d’amantes, até descridos moiros o festejam e canibais pedreiros o veneram” (alusão jocosa à Maçonaria, à qual, aliás, o próprio Garrett pertencia).

A religião de Garrett era a dos filósofos do Século das Luzes, que ele exprime, pela boca de Aben-Afan. Tendo-lhe dito Branca que seu Deus era falso e pedido que adorasse a Cruz, o Rei mouro responde, indignado: ”Falso o meu Deus! E o teu é verdadeiro! Quantos Deus há pois na natureza? Eu adoro o que fez este Universo, o que nos ares suspendeu, magnífico, estes orbes de luz que nos aclaram (…) o Deus que me criou, que no teu rosto pôs o traslado da beleza eterna. Este, este é o meu Deus,  e falso é ele.

                                                         VII

Segundo Teófilo Braga, Garrett seguiu, em “D. Branca”, o estilo digressivo e faceto do “Oberon”. Por outro lado, num tese de José Joaquim Dias Marques, considera-se que Alina tem mais a ver com as fadas do “Oberon”, que com as do folclore português. Não li a obra de Wieland, traduzida para português por Filinto Elísio, em 1802, sabendo, porém que, no seu enredo, figura uma Princesa moura, raptada por um cavaleiro cristão. Assim, irei abordar, agora, outras obras, com laços reais ou apenas aparentes com a “D. Branca”.

Na mesma Cidade (Paris) e no mesmo ano (1826) da publicação de “D. Branca”, surgiu um livro que viria a ganhar celebridade. A heroína chama-se Doña Blanca, cristã, o herói, Aben-Hamet, muçulmano; a acção decorre em Granada, algum tempo depois da conquista pelos Reis Católicos e o Alhambra, que os dois enamorados visitam, lembra um palácio encantado; um duelo, entre Aben-Hamet e o irmão de Doña Blanca, recorda, pelo cavalheirismo dos dois, a luta entre Aben-Afan e D. Paio Correia. Trata-se de “O último Abencerragem”. Entre a novela de René de Chateaubrind, na realidade escrita dez anos antes, e o poema de Almeida Garrett, pouco há em comum, além de serem histórias de paixões infelizes, entre um muçulmano e uma cristã. Doña  Blanca e Aben-Hamet teriam podido realizar o seu amor,  se um deles  aceitasse renunciar à sua religião e adoptar a do outro; ambos preferem manter-se fiéis à sua fé respectiva, sacrificando a felicidade terrena. Chateaubriand lia, por vezes, em certos salões, excertos da sua obra, mas é pouco provável que a eles tivesse acesso o modesto empregado da “Maison Laffite”.

( Um parêntese para sublinhar como, em muitos aspectos, foram paralelas as vidas destes dois escritores de primeira grandeza, que fizeram, nas suas obras, a transição para o Romantismo. Ambos sofreram as agruras do exílio, ambos foram sedutores, amaram a vida, ambos brevemente Diplomatas e Ministros dos Negócios Estrangeiros, ambos Viscondes. Situados, porém, em polos opostos do espectro político, um legitimista, liberal o outro) 


Já outra obra, porém, “Miragaia”, de Garrett e por ele  classificada como  “romance reconstruído “, está estreitamente relacionada com “D. Branca”. Garrett ouvira a lenda a criadas de sua casa, desde criança e, numa quinta ao Sul do Douro, onde passou longas temporadas, gostava de brincar na ruína de um castelo mourisco e de beber a água duma fonte chamada “do Rei Ramiro”.

Segundo o romance, o Rei Ramiro rapta Zahara, irmã do Rei mouro Alboazar. Este vinga-se, raptando Gaia, mulher de Ramiro. O Rei cristão organiza uma expedição e, com um ardil, mata Alboazar, cujo castelo incendeia, e traz consigo Gaia de volta. Ao atravessarem o Douro, ela chora e, interrogada, responde: “mataste o mais belo moiro, mais gentil mais para amar, que entre moiros e cristãos, nunca mais não terá par”. Ramiro, furioso, degola-a e atira a cabeça à água. Garrett “reconstruiu” o romance, mantendo a toada e o espírito populares.

“Miragaia” foi publicada, pela primeira vez, apenas em 1843, 17 anos depois de “D. Branca”  mas, como escreve o próprio Garrett, ”foi das primeiras coisas deste género em que trabalhei: e é a mais antiga reminiscência da poesia popular que me ficou da infância”. Tinha-a, pois, na sua mente, quando escreveu “D. Branca”- nos dois poemas, uma dama cristã é raptada por um Rei mouro, valente e cavalheiresco, por quem se apaixona. A libertação, isto é, o regresso à Cristandade, tem, para ambas, consequências trágicas, punidas por adultério (Gaia era mulher de Ramiro, Branca, freira, logo esposa do Senhor); perdem a cabeça, Gaia no sentido literal, Branca metaforicamente. Por outro lado, Aben-Afan e Alboazar também são castigados, mas morrem com honra, lutando, os seus domínios são devastados.  Os dois têm irmãs, Oriana e Zahara, respectivamente Oriana, já anteriormente baptizada, vai, por vontade própria, para um Mosteiro. Quanto à irmã de Alboazar, que Ramiro raptara, o poema “Miragaia” nada acrescenta mas, no Livro de Linhagens de D. Pedro, que dá uma versão da lenda, o Rei Ramiro leva-a até Leão, onde ela é baptizada (com o nome de Ortiga), e, da união de ambos, descenderiam os Senhores da Maia. As irmãs como que vêm compensar as “perdas” de Branca e Gaia.

E no enredo da obra-prima da maturidade, “Frei Luís de Sousa”, encontramos alguns pontos em comum com “D. Branca” e “Miragaia” – o regresso de um cristão que esteve preso em terra de mouros, um casamento que se desfaz, um adultério, real ou imaginado, o convento como expiação.

Com as duas últimas obras, que apenas brevemente abordarei, voltamos a ter D. Branca como heroína.

A 6 de Janeiro de 1840, isto é, 14 anos após a primeira publicação de “D. Branca”, subiu à cena, no Teatro S. João, do Porto, “O Almançor Aben-Afan, último Rei do Algarve”, peça em três actos e em verso. O autor, José Freire de Serpa Pimentel, 2º Visconde de Gouveia, exerceu cargos na Magistratura, foi Governador Civil do Porto, Par do Reino. Escreveu ainda, entre outras peças, “D. Sisnando, Conde de Coimbra “, “D.Sancho II” , “A moira de Montemor”.   

“O Almançor Aben-Afan” põe de novo em cena os dois protagonistas de “D. Branca”, mas a história é radicalmente diferente, assim como o estilo e o espírito. A Infanta D. Branca, religiosa em Holgas, e D. Pero Esteves Carpentos, Cavaleiro de Santiago, amam-se. Decidem ir a Roma, procurar ser desvinculados dos seus votos. Ao largo do Algarve, o navio, que os transporta, naufraga, vindo ambos, separadamente, a cair em poder de Aben-Afan. O Rei de Silves não tem, aqui, qualquer semelhança com o “moiro gentil” de Garrett, lembra mais o mouro de Veneza, mas Otelo assassinou Desdémona num momento de loucura, de que logo se arrependeu, enquanto Aben-Afan se revela verdadeiramente sanguinário. Deseja ardentemente Branca, desde o dia em que a avistou, ao participar, incógnito, num torneio em Lisboa, do qual saiu vencedor; apresentara o pedido da mão de D. Branca, que não foi aceite por Afonso III.

Agora, multiplica rogos, promessas, ameaças terríveis. Chega a dizer-lhe que se fará cristão, se ela for sua uma só hora, e que se matará depois, mas Branca recusa sempre o que diz ser pior que o amor de um tigre. O Mestre de Santiago envia um mensageiro comunicar a Aben-Afan que, se não libertar a Infanta e os outros prisioneiros, ele virá ocupar Silves. A obcecação do Rei é tal que diz aos seus próximos “ou ganhar D. Branca ou perder tudo, que me importa a Pátria, que me importam palácios e diademas, sem os braços gentis de D. Branca?”.   

Por fim, não conseguindo os seus propósitos, manda executar Branca de forma atroz. Já antes, para atormentar D. Pedro, ordenara que fosse gravada, num mausoléu, esta inscrição “Da vingança o punhal cravou-lhe o seio/ Violada e morta ao despontar da vida/ Do leito do Almançor desceu à campa”. Mas, entretanto, os cativos cristãos soltam-se e chegam as tropas portuguesas. Aben-Afan acaba por suicidar-se. Branca, em nome do seu Pai, ordena o perdão e a paz, respeito aos de Mafoma, honrosa sepultura a Aben-Afan, aos prisioneiros vida e liberdade.

A peça poderia, pelo carácter das personagens e pela linguagem, servir de base para o libreto de uma ópera. Não faltam, também, passagens melodramáticas, como quando se revela que o velho escravo Mustapha é, na verdade, o Pai do Cavaleiro, que Aben-Afan lhe ordenara assassinar. Parecem-me bem representativos desta fase do Romantismo, e não resisto a transcrevê-los,  os últimos versos do primeiro acto, nos quais o Cavaleiro exclama: “E ao vil Aben-Afan irei raivoso / C’o dente furibundo abrir-lhe as veias/Rasgar-lhe o coração/trincar-lhe a vida”.

Finalmente, “Donna Bianca”, ópera com prólogo e quatro actos, composta por Alfredo Keil, com libreto, em italiano, de César Féréal. Estreou, a 10 de Março de 1888, no São Carlos. Foi lá apresentada trinta vezes, entre 1888 e 1899 e, novamente, em Setembro de 2010, numa série de quatro espectáculos, em versão de concerto.

No plano da música, o compositor foi fortemente influenciado por Massenet. O libreto pretende basear-se na obra de Garrett, mas é mais uma recriação que uma adaptação. O primeiro encontro de Aben-Afan com a Fada Alina tem lugar na “Floresta encantada de Sagres” (sic).  Avista Branca em Burgos, no momento em que ingressa no Mosteiro; não a rapta, ela segue-o de livre vontade, já que a paixão de ambos é imediata. Cavalgam para o Paraíso e vivem a sua felicidade, na Mansão das Huris. Mas Adaour, o confidente do Rei, vai lá contar-lhe a triste situação do Algarve e condenar o abandono a que votou a Pátria, convencendo-o a regressar. Por um vale deserto dirigem-se para o Algarve, seguidos à distância por Branca, que Aben-Afan repelira. Perante a conquista iminente de Silves pelas tropas cristãs, D. Branca promete ao Mestre de Santiago renunciar a Aben-Afan, e voltar para junto do Pai, se for passado um salvo-conduto para o mouro, caso ele ainda viva. Adaour crê que Branca está a atraiçoar Aben-Afan e tenta matá-la. Aben-Afan entra, mortalmente ferido, lamenta ter deixado secar a murta e despede-se de Branca. Expira e ela desfalece sobre o seu corpo.

Se D. Branca inspirou uma ópera, cabe mencionar que, na “Suite El-Gharb “, composta pelo pianista Eurico Thomaz de Lima, o primeiro andamento se intitula “Aben-Afan”.